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Proclamar Libertação – Volume 23
Prédica: Isaías 63.15-17, 64.(1-2)3-7
Leituras: 1 Coríntios 1.3-9 e Marcos 13.33-37
Autor: Norberto da Cunha Garín
Data Litúrgica: 1º Domingo de Advento
Data da Pregação: 01/12/1996

 

1. Abrindo o Tempo das Súplicas

Esta perícope não pertence ao Trito-Isaías. As características de sua problemática indicam, muito mais, um tempo longo depois da queda de Jerusalém (587 a.C.), época na qual o povo de Israel estava desesperado com os acontecimentos trágicos envolvendo a deportação para a Babilônia. Contudo, este texto (Is 63.15-64.11) é uma súplica anunciada em 63.15 e encerrada em 64.11.

O tema central e insistente dessa súplica é a paternidade divina. Constituiu-se de um Salmo considerado, ao nosso ver erroneamente, do final do exílio ou do começo dos trabalhos de reconstrução do templo de Jerusalém.

É uma perícope que invoca o passado lembrando a quantidade de benefícios que Israel recebeu de Javé; de forma especial rememora o êxodo (v. 11); retoma os constantes pecados de Israel para na sua sequência lembrar do perdão paternal de Javé, que foi sem medidas. São súplicas comoventes e cheias de humildade e arrependimento. Possui um paralelo no Sl 78 quando faz uma recordação de todo o passado de Israel e dos feitos de Javé para promover a libertação do povo; essa súplica é refletida em Os 11.8, que retraía a resposta de Javé à súplica do povo que estava obstinado na apostasia:

Como poderia eu abandonar-te, ó Efraim,
entregar-te, ó Israel?
Como poderia eu abandonar-te como a Adama,
Tratar-te como a Seboim?
Meu coração se contorce dentro de mim,
minhas entranhas comovem-se.

Neste texto, Saboim e Adama correspondem na versão eloísta às cidades de Sodoma e Gomorra; na versão javista, fazem parte do Pentápolis (Gn 10.19; 14.2-8; Dt 29.22).

Para salientar essa relação forte entre Javé e Israel, Oséias utiliza um termo muito forte: Meu coração se contorce…, comparado ao termo que se utiliza para a destruição das cidades culpadas ou ao grito de Davi por ocasião da morte de Absalão (Gn 19.25; Dt 29.22; 2 Sm 19.1); outros textos podem ser referidos aqui, como o Cântico de Moisés (Dt 32.9), quando declara que a herança que coube a Javé foi o povo de Israel (Jacó).

 

2. Entendendo o Texto

Isaías 63.11-14 retoma o grande primeiro ato salvador de Javé (o êxodo), como penhor de toda a salvação que mais tarde ele efetivaria em Israel.

V. 16: Dt 1.31 interpreta a ação de Javé no deserto como a atitude de um pai que guia seu filho pelas veredas da vida; isto se reporta à eleição de Israel (cf. Dt 7.6), que ao longo do Antigo Testamento recebe diversas menções: ‘ ‘povo de Deus; povo consagrado (Dt 14.2; Jr 2.3; Am 3.2 — é significativo observar que para o profeta Amós o fato de Javé ter escolhido Israel não quer dizer privilégio, mas uma responsabilidade muito maior em relação aos demais povos); nação do Emanuel; Deus conosco.

Contraditoriamente, os profetas anunciam que Javé é um Deus não apenas de Israel, mas de todas as nações junto com o anúncio da salvação universalista. Um exemplo disso podemos encontrar em Isaías: Também te estabeleci como luz das nações, a fim de que a minha salvação chegue até as extremidades da terra. Êxodo 19.6 se constitui numa primeira afirmação de eleição de Israel: Vós sereis para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa (Is 49.6).
Este texto remete ao Novo Testamento, onde encontramos essa aplicação de nação santa e sacerdócio escolhido à Igreja. Vejamos, pois:

Mas vós sois uma raça eleita, um sacerdócio real, uma nação santa, o povo de sua particular propriedade, a fim de que proclameis as excelências daquele que vos chamou das trevas para a sua luz maravilhosa, vós que outrora não éreis povo, mas agora sois o povo de Deus, que não tínheis alcançado misericórdia, mas agora alcançastes misericórdia, (1 Pe 2.9-10.)

Outra referência neotestamentária à eleição da Igreja como segmento de Israel na preferência de Javé está no Apocalipse: (…) e fez de nós uma realeza e sacerdotes (…) (Ap 1.6). Podemos perceber que o Novo Testamento faz uma leitura do texto de Ex 19.6 como indicativo de que a Igreja agora estava assumindo o lugar que antes era da excelência de Israel.

Uma concepção forte que está presente nesse texto é a de go’el — (wgo’elek — de teu resgatador) redentor (63.16b).

V. 17: Essa noção do redentor como vingador de sangue (Nm 35.19) ou como resgalador dos prisioneiros por dívida ou defensor da viúva (Rt 2.20) é trabalhada lambem nos Salmos (Sl 19.15), bem como na segunda parte de Isaías (Is .11.14; 43.14; 44.6,24; 47.4; 48.17; 59.20). Podemos encontrar essa noção também em Jeremias (Jr 50.43).

A Igreja do Novo Testamento retoma essa teologia para aplicá-la a Jesus Cristo, em quem enxerga o redentor em sua plenitude e não apenas em suas partes distintas.

Significativa também é a maneira como a Bíblia de Jerusalém comenta o texto de Is 41.14: A palavra (go’el) designa, portanto, Deus como protetor do oprimido e libertador do povo (Bíblia de Jerusalém, 1985, p. 41j).

Todo o texto é um poema que exalta Israel como o servo protegido de Javé.
Quando o Novo Testamento atribui a Jesus o conceito de go’el, o faz no sentido de resgatador de dívidas — o redentor.

Isaías 64.3-7:
A segunda súplica (64.3-7) começa com uma expressão que é melhor lida pelo apóstolo Paulo: (…) o que os olhos não viram e os ouvidos não ouviram (…). (l Co 9.)

V. 3: Em primeiro lugar, este texto aponta para a declaração de que Javé é o único Deus capaz de agir; para isso invoca os verbos que proporcionam o conhecimento, quase todos relacionados com os sentidos: ouvir, saber, ver. Esse agir de Javé é sempre em prol daqueles que estão esperando o seu socorro. O texto é relido por Paulo em sua Primeira Epístola aos Coríntios, mas desta vez atribuindo toda essa ação salvadora a Cristo: (…) o que os olhos não viram, os ouvidos não ouviram, e o coração do homem não percebeu, isso Deus preparou para aqueles que o amam (1 Co 2.9).

V. 4: Traz uma declaração de mea culpa. Ela vem acompanhada, entretanto, de uma afirmação de confiança: (…) mas havemos de permanecer para sempre nos teus caminhos (…)• A certeza da salvação é um dado sempre presente. Este texto apresenta dificuldades de tradução, por isso acredita-se que esteja corrompido. Se fosse levado ao pé da letra, significaria que o ser humano não tem como escapar das próprias faltas. Seria um texto pessimista, que não apontaria para a salvação de Javé.

V. 5: O reconhecimento do pecado continua neste versículo, mas com uma entonação ainda mais evidente. O pecado para eles trazia consigo o murchar da vida (como folhas que secam).

V. 6: Nesta parte da súplica há uma declaração de que ninguém mais está invocando o nome de Javé. Mas até essa atitude é atribuída ao afastamento da ação de Javé. O texto lamenta a consequência das próprias transgressões. É bonita a imagem do barro e do oleiro que tem início neste versículo e se completa no versículo seguinte: A iniquidade humana é tomada por Javé, que constrói uma nova obra com consistência.

V. 7: Este versículo retraia o reconhecimento de que as pessoas não são mais do que meras peças de argila, que Javé moldou com suas próprias mãos. É mais um sinal concreto do amor de Javé pelo povo de Israel.

 

3. Prédica

Estamos iniciando o tempo de Advento. Mais uma vez nos preparamos para celebrar a chegada do Messias. O Advento é a época do ano litúrgico em que celebramos Deus, que vem ao nosso encontro para mostrar que não se esqueceu dos seus filhos e filhas. Embora tenhamos muitas vezes a sensação de que Javé não ouve mais as nossas súplicas, ele mostra que ainda é o mesmo Deus e está cima dessas pequenas coisas que fazem parte do nosso ranço.

Neste tempo de Advento, o anúncio da chegada de Jesus é um sinal visível de que o papel de go’el de Javé não ficou esquecido. Nesse novo tempo ele adquire urna nova face, continua, porém, sendo o mesmo Deus. O nosso go’el, que se manifestou de diferentes formas aos israelitas, hoje se revela a todos nós na face de Cristo Jesus:

* ele é a força para as pessoas que se encontram fragilizadas pelo desemprego, pela enfermidade, pelo cansaço;

* ele é coragem para aqueles que enfrentam conflitos familiares, brigas entre lindeiras ou vizinhos e desajustes entre marido e mulher;

* ele é luz para as pessoas que não enxergam saída para suas vidas mergulhadas na bebida ou nas drogas;

* ele é orientação para quem necessita reorganizar sua vida, para quem foi exilado da sua própria terra, para quem foi excluído da sua própria profissão;

* ele é alimento para o faminto, cobertor para o desabrigado, lavoura para o sem-terra.

Enfim, Javé, que nos chega na face de Jesus Cristo, é o nosso go’el, o resgatador da vida perdida.

 

4. Auxílio Litúrgico

Rapadura: Antes da mensagem podem-se distribuir pequenos pedaços de rapadura de melado para a congregação. Muitas pessoas da cidade terão a noção de ter resgatado um sabor dos tempos de sua infância, vivida na zona rural. Poderá se relacionar o resgate tio sabor adocicado natural da rapadura com o resgate da vida saborosa que Cristo nos oferece.

Retalhos de pano: Uma toalha de pano pode ser repartida em vários pedaços. Antes da mensagem, o pregador convida algumas pessoas para reconstituírem a peça, resgatando a toalha que servirá para ornamentar algum móvel do ambiente de culto. É importante que essa tarefa não seja demorada, que sejam apenas algumas partes de fácil reconstituição. O pregador poderá explorar o significado de resgatar a unidade que tinha sido destruída.

Vaso em pedaços: Sobre uma mesa, diante da congregação, são colocados cacos de um vaso de cerâmica. Cuidar para que o vaso não se quebre em demasia. Antes da mensagem, o pregador convida algumas pessoas para reconstituírem o vaso, utilizando a cola previamente providenciada. É significativo explorar o significado do resgate da vida como uma participação coletiva.

 

5. Bibliografia

KIRST, Nelson. Meditação sobre Is 63.15-16(17-19); 64.1-4a,8. In: Proclamar Libertação. São Leopoldo, Sinodal, 1983. vol. I-II, pp. 159-167;
KLEIN, Ralph. Israel no Exílio — uma Interpretação Teológica. São Paulo, Paulinas, 1990;
MARTIN-ACHARD, R. Os Profetas e os Livros Proféticos. São Paulo, Paulinas, 1992;
NOTH, Martin. História de Israel. Barcelona, Garriga, 1996;
SCHWANTES, Milton. Meditação sobre Is 63.15-64.3. In: Proclamar Libertação. São Leopoldo, Sinodal, 1987. vol. XIII, pp. 91-97.

 

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Proclamar libertação é uma coleção que existe desde 1976 como fruto do testemunho e da colaboração ecumênica. Cada volume traz estudos e reflexões sobre passagens bíblicas. O trabalho exegético, a meditação e os subsídios litúrgicos são auxílios para a preparação do culto, de estudos bíblicos e de outras celebrações. Publicado pela Editora Sinodal, com apoio da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB).

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