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Proclamar Libertação – Volume 27
Prédica: Isaías 11.1-11
Leituras: Mateus 3.1-12 e Romanos 15.4-9 (10-13)
Autor: Nelson Kilpp
Data Litúrgica: 2º Domingo de Advento
Data da Pregação: 09/12/2001

 

1. O tema do domingo

Após termos meditado e ouvido, no primeiro domingo de Advento, sobre a vinda do Filho do homem no fim dos tempos e sobre a necessidade de sermos vigilantes, o segundo domingo de Advento quer que voltemos nosso olhar para o filho que vai nascer na manjedoura de Belém. No entanto, esperança escatológica e encarnação estão entrelaçadas. Pois o menino Jesus, que nasce no primeiro Natal, marca o início do Reino de paz e justiça, anunciado pelos profetas e esperado por todas as gentes. Conforme a tradição da antiga Roma (336 d.C.), o dia do nascimento de Cristo foi colocado no dia do retorno do domínio da luz exatamente para confessar que, para os cristãos, a vinda de Cristo marca o início do Reino de Deus. O texto de Is 11, previsto para a pregação, não fala diretamente de Jesus, mas expressa de modo ímpar a esperança por esse futuro Reino.

Aconselho o pregador a limitar-se ao texto de pregação: Is 11. O texto do evangelho enfoca a pregação de João Batista, que é tema cativo do segundo domingo de Advento. Ainda bem que não precisamos pregar, cada ano neste domingo, sobre João Batista! O texto da epístola tematiza o “Acolhei-vos uns aos outros!” (Rm 15.7). Rm 15.4-13 encontra-se neste domingo de Advento desde o Homiliário de Carlos Magno (séc. VIII), foi adotado por Lutero e pelo Missal Romano (de 1570). Apesar de toda essa respeitosa tradição, a epístola quase nada tem a ver com o tema (Rm 15.12 cita Is 11.10, um versículo agregado secundariamente à perícope de Isaías). Por tudo isso, recomendo limitar a pregação a Is 11.1-9 (10).

O texto que mais se aproxima de Is 11 é o salmo do domingo, Sl 72.1-8, que também exprime o que se esperava, na época, de um monarca. Talvez o Sl 72 tenha sido originalmente recitado ou rezado por ocasião da coroação do rei. As tradições judaica e cristã interpretaram já bem cedo os salmos reais (Sl 2; 72; 110) como expectativas messiânicas. Os motivos são óbvios: um poder absoluto tão grande quanto o expresso, p. ex., no Sl 2.8-9; 72. 8-11; 110.1-2, não pode valer senão para o rei ideal do futuro.

 

2. Considerações exegéticas

O conteúdo de Is 11.1-9 é claro. Os vv. 1-5 são uma profecia messiânica e anunciam um futuro rei ideal para o povo. São, portanto, um paralelo de Is 9.1-6 (Almeida: Is 9.2-7), a leitura do Antigo Testamento para o Natal. Is 11.6-9 descreve as consequências do governo desse futuro rei, a saber, uma vida de paz total, sem nenhuma violência. Mas o v. 10 não mais pertence à perícope. Ao contrário dos versículos que antecedem, o v. 10 não mais é poesia, mas prosa, adota terminologia do trecho que segue (“naquele dia”) e dirige o olhar às outras nações com o intuito de fazer a ligação com a perícope seguinte, que trata do retorno dos exilados dentre as nações. O v. 10 é, portanto, secundário e pode perfeitamente ficar fora da prédica se o pregador estiver consciente de que o futuro Reino de paz não se restringe ao povo de Israel nem à comunidade cristã, mas tem abrangência universal. (Todas as traduções para o português à minha disposição, com exceção de Almeida, concordam em concluir a perícope no v. 9.)

Quanto à data e autoria do trecho, não existe consenso na pesquisa. Enquanto alguns (p. ex., H. Wildberger, Jesaja, BKAT, 2. ed., 1980, p. 442ss) atribuem o texto, por motivos linguísticos e teológicos, ao profeta Isaías do final do século 8, outros (p. ex., O. Kaiser, Das Buch des Propheten Jesaja, ATD 17, 5. ed., 1981, p. 241) pressupõem, a partir da imagem do v. 1, o fim da dinastia davídica. Ainda outros (p. ex., W. H. Schmidt, Alttestamentlicher Glaube, 8. ed. 1996, p. 242,275) atribuem a Isaías a primeira parte, v. 1-5, mas entendem que a visão escatológica do Reino da paz universal seja bem mais recente. Pessoalmente estou convencido de que pelo menos Is 11.1-5 cabe muito bem dentro da mensagem e das tradições isaiânicas – o que ainda será destacado abaixo. A situação de origem dos vv. 6-9 pode ficar em aberto, pois não interfere decisivamente na compreensão do conteúdo, dada a natureza do mesmo.

A imagem do v. 1 é importante. As capas de PL 21 e 24 tentaram reproduzi-la. A partir da cepa ou da raiz – ambos os termos são paralelos no texto – de uma árvore cortada brota um rebento. Importante é que não nasce um ramo novo na galhada da árvore existente, mas da caída. Se estivermos diante de um texto autêntico de Isaías, a imagem inclui ambos: juízo e esperança. A árvore cortada representa o juízo sobre o povo de Israel e o fim da dinastia de Davi (cf. Is 10.33s). Portanto, somente após a queda da “árvore” davídica é que poderá crescer algo novo. A salvação não vem, portanto, de um descendente de Davi (contra a tradução da Bíblia na Linguagem de Hoje); mas a história recomeça desde antes de Davi, com seu pai, Jessé.

Por que essa diferença? Isaías está consciente de que o verdadeiramente novo virá das origens humildes do clã dos efratitas de Belém (cf. Mq 5.1 = Almeida: 5.2) e não do aparato burocrático militar de Jerusalém. A presente dinastia com seus graves erros deve dar lugar a algo novo e diferente. Note-se que se evita a designação “rei” ou “messias”, certamente porque o governante esperado será totalmente diferente dos conhecidos integrantes da dinastia davídica.

No v. 2, encontramos o que distingue esse novo governante: sobre ele repousará o Espírito de Deus. Isso significa provavelmente duas coisas: 1) a volta aos tempos tribais pré-monárquicos quando, em resposta à necessidade do povo de Israel, um líder era vocacionado, pelo espírito de Deus, para uma tarefa específica (p. ex., 1 Sm 11.6); 2) o novo governante terá a mesma vontade e os mesmos interesses que Deus. Ou seja: o Espírito impedirá a busca desenfreada por poder, enriquecimento e prestígio pessoais.

O Espírito de Deus se manifesta em certas qualidades do governante ou de sua administração, que relembram os epítetos de Is 9.5 (Almeida = 9.6), provavelmente dados ao rei por ocasião de sua coroação: a) sabedoria (capacidade de reagir de forma adequada à circunstância) e discernimento (percepção clara de uma situação) são qualidades inerentes ao intelecto; b) conselho (em substituição aos “ministros”?) e fortaleza (poder de concretizar o querer) são instrumentos da prática de governo; c) conhecimento (“teologia”) e temor do Senhor (espiritualidade prática) dizem respeito à piedade do novo governante.

Enquanto o v. 3a repete, em linguagem bastante complicada (glosa?), a importância do temor de Deus, o v. 3b aponta para o exercício efetivo do governo. Espera-se, em primeiríssimo lugar, não obras públicas, sistema de saúde, ensino público gratuito, segurança, mas justiça. Para Isaías, a justiça é a base para a nova sociedade. De acordo com a ideologia real do Antigo Oriente (cf. Sl 72), o rei tem a função precípua de garantir a justiça e evitar a injustiça. O rei é o poder alternativo capaz de anular as injustiças dos poderes econômicos e sociais que, de resto, determinavam a vida. Por isso, a justiça no Antigo Testamento não é “cega”, mas “parcial”, no sentido de buscar defender o pobre e o mais fraco nos tribunais (v. 4). Esperava-se que o rei tomasse as dores dos impotentes diante do sistema judiciário existente, condenando os que dele se aproveitavam. Sistema judiciário e justiça não eram, portanto, idênticos.

No v. 4, muitos exegetas fazem uma pequena emenda no termo hebraico traduzido por “terra” e leem, em seu lugar, “opressor”, o que restabelece o paralelismo e elimina a contradição com o uso de “terra/país” na oração que precede. O que chama a atenção é que o novo governante não se impõe pela força militar, mas pela “vara de sua boca” e pelo “sopro dos seus lábios”, ou seja, pela palavra. Estaria Isaías apenas pensando na sentença que o juiz pronuncia? Ou estaria ele se aproximando do texto pós-exílico que compara o messias futuro a um profeta pregador (Is 61.1s)?

Somente um “reinado” de justiça pode ser fundamento de uma vida em paz! Os vv. 6-9 esperam pelo retorno do paraíso criado de acordo com a vontade divina. Em Gn 1-2, a criação é retrojetada no longínquo passado; a mensagem profética a projeta para o futuro. Ambas as vezes se quer expressar como Deus deseja o seu mundo. Is 11 fala da paz entre os animais (vv. 6-7), da paz entre humanos e animais (v. 8) e provavelmente também da paz entre humanos e Deus (v. 9). Todos os animais voltarão a ser vegetarianos (Gn 1.29s), desaparecendo, assim, a violência. Os mais fracos não mais precisam temer por sua existência.

 

3. A caminho da prédica

Como Jesus Cristo cumpriu essa expectativa messiânica? É óbvio que ainda não temos um governo que tivesse conseguido implantar um regime de justiça, onde cada um tivesse seu direito garantido e onde cada opressor recebesse seu justo castigo. Enquanto escrevo esta meditação, o Conselho de Ética do Senado discute se os senadores A. C. Magalhães e J. Arruda devem ou não ser cassados por falta de decoro parlamentar, e a extinção da Sudam e da Sudene revela que milhões e milhões de reais de investimentos fiscais foram desviados para os bolsos de influentes políticos e seus queridos parentes e amigos. No Brasil, nós nos acostumamos a casos flagrantes de corrupção, roubo e desvirtuamento do estado de direito. Vivemos numa sociedade onde a justiça não é o normal, mas a exceção.

No entanto, em Jesus estava o Espírito de Deus. Isto podemos ver em suas palavras e ações. Jesus inicia um “reino” de justiça, à medida que com ele os que nada valiam na sociedade recuperam os seus direitos; ele quer ajudar e salvar os necessitados (Yehoshua significa “o Senhor salva”). Ao mesmo tempo, Jesus traz “juízo” aos “opressores” à medida que lhes nega direitos adquiridos ou especiais. Com Jesus, a profecia de Isaías começou a concretizar-se. Por isso, os discípulos de Cristo, em especial os “cansados e sobrecarregados”, nesta época de Advento podem recuperar a esperança de que a grande transformação certamente virá e que todos nós fazemos parte dos chamados a preparar o caminho dessa transformação. O Natal marca o início do novo mundo.

Isso também vale para a paz universal descrita em Is 11.6-9. Enquanto escrevo, recrudescem na “Terra Santa” os conflitos entre israelenses e palestinos. Na faixa de Gaza, o exército israelense ataca uma escola palestina. Uma dezena de alunos feridos são levados sangrando ao hospital; uma criança de quatro meses numa residência nos arredores é morta por estilhaços. O presidente de Israel pede desculpas. Mas por que ir tão longe? São Leopoldo tem o mais alto índice de homicídios por número de habitantes (em 2000 foram 73, não contando os latrocínios). Muros altos e cercas são o adorno predileto das casas – não só do centro, mas também dos bairros humildes. Cada vez mais cães ferozes espreitam por trás dos portões. Falta justiça – faltam também paz e tranquilidade. Vivemos uma vida cheia de medos e sobressaltos. Não mais conseguimos agir como seres normais na rua; vemos os outros com desconfiança. O Advento nos diz que a paz é possível, não somente no seio da família, mas também na cidade, no país e no mundo.

Isso tudo é para este mundo ou apenas para o outro? Essa dicotomia o texto não conhece. Aliás, não existe, para Isaías, o “outro mundo” no sentido dum além a-histórico. Mas existirá um mundo bem diferente do atual. O Reino de justiça e de paz é aguardado para este nosso mundo, completamente transformado. É Deus que vai trazer este “reino” ou somos nós que temos que construí-lo? Também essa contradição o texto não conhece: o “Reino” é fruto do Espírito de Deus e é nova criação divina, mas a participação humana é pressuposta naturalmente. Venha o teu Reino!

Diante de tanta decepção, angústia e incerteza em que vivemos, os cristãos têm suas forças renovadas pela convicção de que Deus não nos abandonou, mas age na história em favor da humanidade. O menino que nasce na estrebaria mostra como este Deus age. Ele também nos dá a certeza de que a justiça de Deus virá trazendo algo novo, transformando relações e, assim, estabelecendo a sua paz.

 

4. Subsídios litúrgicos

Cantos: “Da cepa brotou a rama”; “Um ramo mui delgado”; “Teu nome é Maravilhoso”. A leitura bíblica poderia ser intercalada pelo canto “Da cepa…”

Simbologia: Uma raiz ou mesmo uma cepa de onde esteja saindo um broto poderia ser colocada num lugar visível como ilustração e sinal de esperança.

Intercessão:

Liturgo: Senhor, graças te damos pelo alimento da tua palavra, pela força encontrada na comunhão com os irmãos e irmãs e pela certeza de que estás conosco.

Comunidade: Pedimos-te que, fortalecidos pelo poder do Espírito Santo, possamos na multiplicidade de dons e ministérios seriam a ti e ao nosso próximo com fé e simplicidade de coração.

Liturgo: Sê, ó Deus, Pai e Mãe de todas as pessoas que sofrem, que perderam o ânimo e a coragem para viver, dos tristes, encarcerados, famintos e das pessoas que choram a perda de um ente querido.

Comunidade: Que a tua Igreja seja instrumento de renovação e sinal de esperança para o mundo. Dá-nos, Senhor, a tua graça, por Jesus Cristo. Amém!

Kyrie (Rodolfo Gaede Neto):

Pelas dores deste mundo, ó Senhor, imploramos piedade.
A um só tempo geme a criação.
Teus ouvidos se inclinem ao clamor desta gente oprimida.
Apressa-te com tua salvação.
A tua paz bendita, irmanada com a justiça,
Abrace o mundo inteiro: tem compaixão!
O teu poder sustente o testemunho do teu povo.
Teu Reino venha a nós! Kyrie Eleison!

 

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Proclamar libertação é uma coleção que existe desde 1976 como fruto do testemunho e da colaboração ecumênica. Cada volume traz estudos e reflexões sobre passagens bíblicas. O trabalho exegético, a meditação e os subsídios litúrgicos são auxílios para a preparação do culto, de estudos bíblicos e de outras celebrações. Publicado pela Editora Sinodal, com apoio da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB).

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