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Proclamar Libertação – Volume 27
Prédica: Mateus 13.44-52
Leituras: Salmo 119.129-136 e Romanos 8.28-30
Autor: Almir dos Santos
Data Litúrgica: 10º Domingo após Pentecostes
Data da Pregação: 28/07/2002

 

1. Introdução

A palavra “renúncia” saiu de moda. Mas o Evangelho de hoje mostra sua atualidade. Para entendê-lo melhor, podemos ver primeiro o exemplo de Salomão, convidado por Deus para pedir o que quisesse (leitura de 1 Rs 3.5-12). Ele não escolheu poder e riqueza, mas sim sabedoria para julgar com justiça.

Jesus ensina o povo a escolher o que mais vale: o Reino de Deus.

Por este devemos colocar tudo em jogo, como faz um negociante para comprar um campo com um tesouro ou uma pérola cujo valor resiste a qualquer inflação…

Nesses textos, contrapõem-se, por um lado, as riquezas imediatas (materiais), por outro, o dom que Deus nos dá (a sabedoria no julgar, para Salomão; o Reino, para nós). Na hora de escolher, o dom de Deus deve prevalecer, e o resto tem que ser sacrificado, se for preciso.

Qual será o dom de Deus hoje? Será o que já temos em nosso poder e tanto insistimos em segurar com as duas mãos: nossas posses, privilégios de classes, status, etc.? Não será a participação na comunhão fraterna que supera o crescente abismo entre ricos e pobres, que transforma as estruturas, para que todos possam participar da construção de seu mundo e de sua história? “Os pobres, nosso tesouro.” Queremos investir tudo em nossos bens materiais, culturais, etc., para uma sociedade que encarne melhor a justiça de Deus?

Às vezes, a gente preferiria não escolher para ficar com tudo: a riqueza, o poder e, além disso, Deus… Mas quem não se decide não se realiza. Optar e renunciar é o que nos torna gente. O cristão deve renunciar ao pecado de maneira absoluta. Mas também deve renunciar a coisas que não são más, (riqueza, prestígio, etc.), se for preciso para um melhor serviço ao REINO DE DEUS. Este vale mais do que tudo.

 

2. Quadra de Pentecostes

A quadra do Pentecostes, ou melhor, a solenidade de Pentecostes celebra um acontecimento capital para a Igreja: a sua apresentação ao mundo, o nascimento oficial com o Batismo no Espírito. Complemento da Páscoa, a vinda do Espírito sobre os discípulos manifesta a riqueza da vida nova do Ressuscitado no coração e na atividade dos discípulos. Início da expansão da Igreja e princípio da sua fecundidade, ela renova-se misteriosamente nestes dias de Pentecostes para nós, como em toda celebração eucarística e sacramental e, de múltiplas formas, na vida das pessoas e dos grupos até o fim dos tempos. A “plenitude” do Espírito é a característica dos tempos messiânicos, preparados pela secreta atividade do Espírito de Deus, que “falou por meio dos profetas” e inspira em todos os tempos atos de bondade, justiça e religiosidade dos homens, até que encontrem em Cristo seu sentido definitivo.

Gostaria de enriquecer este 10º Domingo de Pentecostes, citando as palavras de Atenágoras sobre o Espírito da novidade em Cristo: “Sem o Espírito Santo, Deus está distante, o Cristo permanece no passado, o Evangelho uma letra morta, a Igreja uma simples organização, a autoridade um poder, a missão uma propaganda, o culto um arcaísmo, e a ação moral uma ação de escravos. Mas, no Espírito Santo, o cosmos é enobrecido pela geração do Reino, o Cristo ressuscitado se faz presente, o Evangelho se faz força do Reino, a Igreja já realiza a comunhão trinitária, a autoridade se transforma sem serviço, a liturgia é memorial e antecipação, a ação humana deifica”.

 

3. Reino de Deus e o plano salvífico de Deus

Existe um evidente contraste entre a riqueza do ensinamento bíblico sobre o “Reino” e a pobreza da ideia que dele têm os cristãos. A imagem do Reino não lembra mais quase nada para as nossas mentes. E mesmo que continuem a persistir algumas expressões no vocabulário eclesial corrente (construção do Reino, vinda do Reino…), parece que perderam seu dinamismo interior e um conteúdo claro e definido. No entanto, o Reino constitui o objeto primário da pregação do Novo Testamento. João Batista e Jesus iniciam sua pregação com o anúncio de alegria: “Está próximo o Reino de Deus”. A boa nova proclamada por Jesus é, em suma, a vinda do Reino. – O que nos quer dizer Jesus?

Usando uma expressão altamente significativa para o povo eleito (o Antigo Testamento já esboça a doutrina do Reino), o Messias quer anunciar a Israel que a longa expectativa já está terminada; as promessas, que constituíam a substância e o fundamento da sua esperança, tornaram-se realidade agora. Mas, ao mesmo tempo, Jesus quer corrigir toda uma mentalidade que se havia sedimentado há séculos na consciência de Israel: o Reino de Deus não consiste na restauração da monarquia davídica nem numa compensação de tipo nacionalista.

Jesus insere-se na linha dos profetas quando compara o Reino por ele anunciado ao tesouro ou à pérola preciosa (assim nos fala o Evangelho de hoje), diante dos quais tudo o mais é desprovido de valor; quando afirmamos que a boa nova é anunciada aos pobres e só se chega a esse Reino assumindo as exigências bem precisas que se resumem nas palavras: conversão, penitência.

Comparando o Reino à semente, ao grão de mostarda, ao levedo, Jesus quer dizer que esse Reino já está presente, mas ainda longe de sua realização definitiva. Edificar-se-á gradualmente, graças à fidelidade dos discípulos ao mandamento novo do amor sem limites. Trata-se de um Reino que não é deste mundo, embora a construção comece aqui. É um Reino universal, aberto a todos, porque é o Reino do Pai, comum a todos os homens.

 

4. Reino de Deus e Igreja

Os temas do Reino de Deus e da Igreja estão estreitamente ligados, mas não indicam a mesma realidade.

Na perspectiva de sua consumação final, a Igreja coincide verdadeiramente com o Reino; mas em sua realidade histórica e sociológica na terra, a Igreja é unicamente o terreno privilegiado – e sempre ambíguo, por causa do pecado – em que se edifica lentamente o Reino; esse Reino não está preso a nenhuma realidade sociológica, nem mesmo de caráter religioso; vai sempre além de qualquer realização concreta em que se manifesta.

O Reino de Deus já está presente como uma semente; mas é necessário que cresça. Instaurado por Jesus, é certamente a atualização da antiga esperança, mas terá que se edificar progressivamente em toda a face da terra. É papel dos cristãos serem artífices dessa construção, sob o impulso do Espírito; como a Igreja, eles estão, antes de tudo, a serviço do Reino.

Depois dos primeiros tempos, a Igreja compreendeu que o Reino não é objeto de uma expectativa passiva; para tornar-se a realidade definitiva, cujo penhor se possui, exige o esforço constante e ativo de todos. No Reino de Deus, tudo já está realizado, mas tudo deve ainda realizar-se, e se realiza a cada dia com a intervenção conjunta, em Cristo Jesus, de Deus e dos seres humanos.

Até há pouco tempo, o perigo para os cristãos era identificar o Reino de Deus com a Igreja instituição. Hoje, parece verificar-se o contrário, isto é, esquecer que a Igreja não se identifica com o Reino; “constitui, na terra, o germe e o início deste Reino”.

A evangelização, sensível aos valores humanos atuais, esforça-se para inserir-se cada vez mais profundamente na vida, na situação e cultura humanas; mas se inclina a transferir para um futuro não facilmente previsível o convite à conversão, à pregação da mensagem, à proposta de uma inserção plena na Igreja, por respeito aos tempos de maturação e aos ritmos lentos da conversão. O perigo está numa falsa concepção da missão da Igreja e na inconsciente tentativa de reduzir a dimensão do cristianismo.

 

5. Subsídios litúrgicos

Intercessões:

Enquanto agradecemos ao Senhor o dom da vocação cristã, peçamos que ele nos faça entrar no Reino definitivo do seu amor. Povo: Senhor, escuta a nossa prece.

Pela santa Igreja de Deus, para que se ponha a serviço do Reino de Deus, com o esforço de humanização do mundo e com a pregação do Evangelho, oremos ao Senhor. Povo: Senhor, escuta a nossa prece.

Por todos os batizados, para que sejam dóceis à ação do Espírito Santo e considerem sua vocação cristã como louvor a Deus e serviço aos irmãos e às irmãs, oremos ao Senhor. Povo: Senhor, escuta a nossa prece.

Por todos nós, participantes desta Ceia ou Culto da Palavra, para que o testemunho de nossa vida seja para todos sinal e antecipação do Reino que Jesus veio inaugurar, oremos ao Senhor. Povo: Senhor, escuta a nossa prece.

(Aqui poderão ser colocadas outras intenções…)

Oração conclusiva das intercessões: Deus eterno e todo-poderoso, que renovas todas as coisas, concede-nos levar teu Reino de paz a todos os nossos irmãos e nossas irmãs, por nosso Senhor Jesus Cristo, teu Filho, na unidade do Espírito Santo. Amém.

 

Bibliografia

KONINGS, Johan. Liturgia da Palavra, Caminho da Fé : Ano A: O novo povo de Deus. São Paulo : Paulinas, 1986.
Missal Dominical. In: Missal da Assembleia Cristã. São Paulo : Paulinas, 1980. v. I.

 

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Proclamar libertação é uma coleção que existe desde 1976 como fruto do testemunho e da colaboração ecumênica. Cada volume traz estudos e reflexões sobre passagens bíblicas. O trabalho exegético, a meditação e os subsídios litúrgicos são auxílios para a preparação do culto, de estudos bíblicos e de outras celebrações. Publicado pela Editora Sinodal, com apoio da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB).

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