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Proclamar Libertação – Volume 27
Prédica: Mateus 14.13-21
Leituras: Salmo 104.24-30 e Romanos 8.35-39
Autor: Rosane Pletsch
Data Litúrgica: 11º Domingo após Pentecostes
Data da Pregação: 04/08/2002

 

1. Introdução

A referência à história da partilha do pão pelos quatro evangelistas mostra a importância desta na vida das comunidades primitivas. Isto revela que falar e lembrar da vida e obra de Jesus pressupunha, para os/as primeiros cristãos/ãs, fazer referência ao pão e à sua partilha. Sabemos que cada evangelista, a partir de sua comunidade, sua situação histórica, reinterpreta Jesus e, nessa tarefa, a partilha do pão toma um lugar central. Este é um dado que, em nossos dias, parece ser pouco lembrado, pois quem de nós costuma destacar o pão e os efeitos de sua partilha quando ensina ou age em nome de Jesus? No contexto da discussão sobre missão (no caso da IECLB), esse dado parece ser relevante.

É interessante observar os diferentes acentos e aspectos que cada evangelista destaca na transcrição da história da partilha do pão, pois eles nos oferecem informações importantes que ajudam a ampliar nosso conhecimento do texto. Importante, no texto de Mateus, é a menção explícita às curas realizadas por Jesus e a participação das mulheres e crianças na refeição. Nos outros evangelhos, destacam-se a pregação e a presença de cinco mil homens.

O texto de Mt 14.13-21 revela Jesus como Messias. Seus atos e seus ensinamentos revelam que ele é o Messias esperado. Mateus multiplica os sinais que revelam a messianidade de Jesus, através de sua morte e ressurreição, através da prática do perdão, da expulsão de demônios, através da divisão do pão e outros atos e ensinamentos. O povo que segue Jesus forma um povo messiânico, povo este que tem sede e fome de justiça (5.6), em que todos e todas são líderes e exercem autoridade (5.13-16), e povo que nega o poder nos moldes do Império Romano, exercendo, em contrapartida, o poder serviço (20.24-27).

O texto em estudo ainda sugere um outro dado importante: a caminhada de Jesus rumo a Jerusalém. É nesse contexto, em que Jesus ensina e age no sentido de revelar a vontade de Deus, preparando os discípulos e as discípulas para a sua missão no mundo, que é vivenciada a história da partilha do pão.

 

2. Aspectos exegéticos

V. 13-14 – A frase “Jesus ouvindo isto” (v. 13) remete para o ocorrido com João Batista, isto é, sua execução pelo Império Romano. O contexto, portanto, é de conflito. Jesus bem sabe disso e retira-se, juntamente com um grupo de seguidores e seguidoras. Vai a um lugar onde há menos probabilidade de ser encontrado. A multidão, no entanto, acompanha seus passos, sabe onde encontrá-lo. Jesus, ao vê-la, compadece-se dela e cura os/as doentes. É importante não perder de vista que essa história se insere no caminho a Jerusalém. É no momento em que o movimento de Jesus é confrontado, cada vez mais, a permanecer firme em seu propósito, que a cura recebe lugar de destaque. É o agir prático da vida e obra de Jesus e de seu movimento que aqui é destacado. Não são as palavras, nem a indiferença, mas a ação e a misericórdia que são postos em realce nesse momento. Este é um primeiro aspecto importante. Na lógica da cruz e no discipulado da cruz, a cura toma lugar central.

V. 15-18 – Aqui entram em cena vários outros aspectos. A fome da multidão não revela apenas o aspecto da falta de comida, mas principalmente o perfil da liderança que o seguimento a Jesus requer. O texto sugere que os/as discípulos/as eram conhecedores/as da fome da multidão, certamente porque as pessoas, provavelmente mais ainda as crianças, estavam expressando, talvez em alta voz, a fome que estavam sentindo. O diálogo e a atitude direta de Jesus em relação aos/às discípulos/as revela um certo descompasso. Enquanto os/as discípulos/as revelam certa dose de indiferença e frieza, sugerindo que a população se vá, mesmo com fome, Jesus contrapõe a prática da misericórdia, expressa através do gesto de alimentar a população. A maneira de a misericórdia se tornar real exigiu certo método de ação, no caso, a realização de um levantamento dos bens alimentícios disponíveis e a prática da partilha. As duas maneiras de encaminhar uma mesma problemática, a fome, mostra o quanto os e as discípulos/as ainda não haviam entendido a lógica do discipulado de Jesus.

V. 19-21 – Estes versículos revelam a espiritualidade da partilha do pão, vivenciada no caminho rumo a Jerusalém. O momento ali vivido em torno do pão, as pessoas sentadas à relva, céu aberto, cansadas e doentes, era um espaço e tempo litúrgicos. Isso mostra que, na perspectiva cristã, o cotidiano é espiritual. Nesse sentido, o pão para cristãos/ãs é um pão sagrado, pois é por Deus abençoado. E são mãos abençoadas as que o partem e dividem. Pão abençoado e abençoados/as as pessoas que o distribuem. O pão que sacia a fome é o mesmo que alimenta a alma; é alimento material e espiritual.

 

3. Sugestões para a pregação e a liturgia

Contribuições pessoais para a pregação

O seguimento, o discipulado de Jesus requer uma outra lógica, uma maneira diferente de ver e compreender a vida, enfim, uma espiritualidade própria. Que espiritualidade seria essa? Eis alguns indicativos: 1 – a cura, a ação parece contrapor-se à prática da fala, do simples ensino, da exclusividade na pregação. Também remete para a centralidade do corpo no cristianismo, tão arbitrariamente negligenciado pela espiritualidade cristã ocidental; 2 – a indiferença e a frieza de coração, expressas através do plano dos/as discípulos/as de despedirem a multidão, são contrapostas à misericórdia. Em outras palavras, não dá para viver de maneira cristã, sendo insensível e apático/a ao sofrimento das pessoas. Faz parte da espiritualidade cristã “ouvir o clamor do povo”, isto é, sentir com as entranhas a dor alheia. O Sl 104.24-30 amplia ainda mais esse desafio, ao incluir a criação toda. Tudo o que existe espera ser alimentado e é motivo do amor e da misericórdia de Deus e, por extensão, das pessoas que o professam. Isso pressupõe uma espécie de “razão sensível”, atualmente redescoberta pelo feminismo e algumas correntes filosóficas, mas tão genuinamente cristã; 3 – a divisão entre profano e sagrado, espiritual e material desaparece, não se sustenta mais. O mundo todo, seus diferentes lugares e espaços estão envoltos pelo espírito divino.

Aspectos metodológicos

Sugiro algumas modalidades de como o texto de Mt 14.13-21 pode ser trabalhado na pregação:

a – Contar a história da partilha do pão até a parte em que os/as discípulos/as se dão conta de que está ficando noite e que a multidão está com fome. Faz-se necessário construir claramente essa situação desafiadora. A comunidade é convidada a reconstruir a história, sugerindo, ela própria, um final ou até mesmo vários. Após, poderá ser lido o texto bíblico. Por último, a comunidade ou outros grupos que estiverem estudando o texto poderão fazer comentários, bem como aprofundar e atualizar o referido texto. Descobrir, juntamente com a comunidade e/ou grupo, o ensinamento que o texto quer transmitir.

b – Ler o texto em forma de jogral. Esta metodologia permite que o aspecto dialógico do texto fique bem evidente, ao mesmo tempo em que favorece a memorização. Após, poder-se-á destacar os aspectos centrais do texto, com a sua devida atualização.

c – Ler o texto. Convidar a comunidade para, em silêncio, relembrar os diferentes símbolos, imagens e situações que o texto evoca. Pode-se incluir os dois outros textos sugeridos para as leituras. Feita essa reconstrução, que poderá ser complementada pelo/a oficiante, lembrar situações e momentos da vida atual, preferencialmente experiências de pessoas presentes no culto ou grupo de estudo, que se assemelham à história narrada pelo texto. Após, deixar que o texto ilumine as diferentes formas possíveis de intervenção na realidade explicitada.

Outros aspectos

a – É imprescindível que no culto, no qual o texto será pregado, seja realizada a Santa Ceia. Esta poderá ser preparada anteriormente, em que as/os participantes tragam algum alimento de casa para ser partilhado. Essa prática aproxima-se bem da realidade do texto, ao mesmo tempo em que relembra uma prática muito comum da Igreja antiga, que é o ágape.

b – Incluir na liturgia os diferentes esforços que a comunidade tem feito no sentido de curar doentes e saciar a fome de pessoas.

 

Bibliografia

COMBLIN, José. As linhas básicas do Evangelho Segundo Mateus. Estudos Bíblicos. Petrópolis : Vozes, n. 26, 1990;
DAVIS, W. D., ALLISON, Dale. The Gospel According to Saint Matthew. Edinburg : T&T Clark, 1991. v. II, p. 478-494;
FRANK, Valdir. Meditação sobre Mateus 14.13-21. In: SCHNEIDER, Nélio, DEIFELT, Wanda (Coords.). Proclamar Libertação. São Leopoldo : Sinodal, 1995. v. 21, p. 213-217;
LÜCKEMEYER, Valdemar. Meditação sobre Mateus 14.13-21. In: SCHNEIDER, Nélio, DEIFELT, Wanda (Coords.). Proclamar Libertação. São Leopoldo : Sinodal, 1998. v. 24, p. 245-248.

 

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Proclamar libertação é uma coleção que existe desde 1976 como fruto do testemunho e da colaboração ecumênica. Cada volume traz estudos e reflexões sobre passagens bíblicas. O trabalho exegético, a meditação e os subsídios litúrgicos são auxílios para a preparação do culto, de estudos bíblicos e de outras celebrações. Publicado pela Editora Sinodal, com apoio da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB).

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