A situação. O tempo presente, Advento, Natal, final de ano, exala o espírito da transitoriedade. Tudo tem seu tempo: cada qual vive sua história. O início e o fim das coisas e das criações refletem os sinais dessa transitoriedade histórica. O clima que nos envolve sugere despedida do que é velho. Isso pode ser o ano velho que fica para trás, acontecem os balanços no fim do ano; para outras pessoas, é tempo de aprovação ou de reprovações. Realizamos planos ou tentamos superar o que é deficitário, na vida pessoal, nos negócios e nos relacionamentos interpessoais. As reflexões no tempo de Advento lembram do juízo, visualizam, em outros momentos, o fim do mundo. Nesse contexto tão multifacetado, se manifestam as ofertas da ideologia do consumismo; generosas são as ofertas do pluralismo religioso; o mercado dos produtos religiosos está em alta. Existem largos espaços para manifestações exotéricas. Brotam do solo da desesperança movimentos messiânicos. Seus símbolos tendem a convencer e suas promessas são ricas; muitos símbolos trazem satisfação, outros alimentam ilusões. A fé dos/as cristãos, porém, manifesta espírito crítico. A Boa Nova levada pelo infante de Belém ao mundo coloca critérios diferenciados!.
A esperança da fé. Para a família cristã, o tempo do Advento é tempo de espera por renovação, é esperança em relação ao novo, espera do desconhecido. A fé cristã vive na perspectiva da novidade de vida e de mundo, realidade essa semeada pelo Cristo Salvador. Eis a revelação do Deus, cuja luz irrompe nas trevas. Ela acontece às avessas e seus sinais se confrontam com a racionalidade humana: a manjedoura em Belém ao lado da cruz no Calvário! “O Reino de Deus está próximo”, anunciava Jesus. Quando é chegado o tempo da mulher gerar o filho que carrega consigo, há meses, a futura mãe alimenta sentimentos e esperanças. É vida nova que haverá de partilhar espaços em casa, na família, na comunidade. A espera angustiante, por vezes, de sofrimento, durante o tempo da gravidez, é finalmente compensada pela chegada da novidade de vida; então o novo ser, com as suas particularidades, é motivo de grande alegria.
A realização dos sonhos. O Advento festejado pela comunidade cristã cria e alimenta sonhos. Na realidade, são muito mais do que meros sonhos. A esperança do novo que se concretiza, faz aumentar os anseios por mais vida, mais justiça, mais fraternidade; são os sonhos de uma vida futura melhor. Quem sabe um novo ano mais promissor, e favorável. Quais são nossos sonhos? Confundem-se com a esperança de que os doentes tornarão a usufruir, de novo, de saúde plena? Ou deixarão de acontecer surpresas não previstas: relacionamentos quebrados, mortes repentinas; catástrofes com efeitos devastadores e incalculáveis na natureza? Ou sonhamos com a paz no mundo? As guerras não mais acontecerão, seja no pequeno mundo doméstico ou no âmbito global? Sonhos humanos se direcionam ainda para outros horizontes. Podem ser identificados com as expectativas de salários mais condizentes face às necessidades básicas, capazes de estruturar uma vida digna. Há quem sonhe com melhores possibilidades de emprego, sem esquecer o grande sonho que aposta no reinado da verdade, no restabelecimento da ética, nos atos justos e no espírito da fraternidade.
O Deus-conosco. Advento é tempo de celebrar a proximidade de Deus. O povo do Antigo Testamento, Israel, esperava o advento do rei soberano e forte, líder poderoso e vitorioso. Um Deus assim, também, conta com nossa simpatia. Senhor forte para anular os poderes do mal e protetor dos seus eleitos. O divino que derruba os inimigos e acaba com os vales sombrios. O Deus do Advento/Natal é ao mesmo tempo aquele Senhor que carrega o estigma da cruz: Jesus Cristo. É Deus encarnado, braço estendido, ponte salvadora que aproxima o céu da terra. Seres humanos que caminham nos passos de Jesus Cristo não habitam ilhas paradisíacas e absolutamente seguras. Fazemos parte de um “corpo misto”, integramos a sociedade humana que nos traz imensas alegrias, mas também nos confronta com inúmeras decepções. O Deus-conosco nos compromete ao serviço, nos fortalece à prática da fraternidade e da justiça. Aos olhos da fé é dada a liberdade de enxergarmos este momento novo! Por isso, seguem os desejos de um Natal significativo e abençoado. Cabe a nós sermos os intérpretes de um Natal que tenha, de fato, um novo conteúdo, sobretudo, duradouro em 2003!
Manfredo Siegle
pastor sinodal do Sínodo Norte-catarinense
da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB)
em Joinville – SC
Jornal ANotícia – 20/12/2002