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Proclamar Libertação – Volume 28
Prédica: Isaías 45.22-25
Leituras: Lucas 2.25-40 e Colossenses 3.12-17 (18-21)
Autor: Elaine Neuenfeldt
Data Litúrgica: 1° Domingo após o Natal
Data da Pregação: 29/12/2002

 

1 – Impressões a partir do texto

Minhas primeiras reações ao ler o texto foram no sentido de resgatar as experiências corporais que o texto proporciona. O texto fala de diferentes expressões de Deus, que fala palavras de sua boca e o povo olha, dobra os joelhos, e jura com a língua. O texto evoca uma situação de proximidade de/com Deus e vislumbra pessoas com seus corpos, não em sentido metafórico, mas na sua concretude.

Intriga-me o convite: Olhai para mim e sede salvos. A salvação que vem pelo olhar!? O olhar como encontro da salvação. Ou seja, um convite para voltar-se para Deus, para mover o corpo e a face para Deus. Mais um movimento corporal.

A palavra justiça e suas variantes são repetidas nos v. 23, 24 e 25. Sugiro esse tema como um fio motivador na busca de elementos para a pregação sobre o texto. Justiça aqui parece estar conectada intimamente rum o corpo e suas expressões. A justiça que vem de Deus é experimentada no corpo.

 

2 – Situando o texto

O Segundo Isaías situa-se no contexto pós-exílico. Severino Croatto, em seu comentário, informa que o livro reúne características da pregação do profeta no período exílico, com releituras do contexto das comunidades do pós-exílio, na Babilônia. O evento do exílio é paradigmático da situação dos grupos dispersos, e o livro reflete uma proposta de recuperação e reconstrução de todo Israel.

De acordo com a delimitação de Croatto, a perícope definida para a pregação insere-se num contexto maior: 45.14-25. Almeida sugere uma divisão a partir do v. 19. Contudo, podem-se perceber as unidades menores que compõem o texto: 14-17; 18-19; 21-22; 22-25; assim, podemos concluir que nosso texto representa uma unidade.

As unidades anteriores tratam de apresentar o Deus revelado, que não fala em segredo e no qual há esperança e justiça. Os v. 20-21 dirigem-se aos que cultuam outras divindades; estas são denunciadas como as que não trazem salvação. A questão da unicidade de Deus parece estar sendo questionada. Por isso, o profeta solicita aos seus críticos que apresentem provas da capacidade salvadora de seus deuses. O v. 21 conclui: não há Deus justo e salvador além de mini.

O contexto da nossa perícope sugere, portanto, uma contenda com os grupos e as pessoas exiladas que não estão reconhecendo a Deus como salvador, como restaurador, mas estão buscando outras expressões ou outras divindades que, na opinião do profeta, não garantem a salvação, pois não passam de uma imagem em pedaço de lenha (v. 20). A idolatria em questão é concretamente a busca por projetos que não garantem a justiça, termo que ocorre várias vezes. Nesse sentido, a polêmica contra outras divindades insere-se numa visão da restauração do povo. Isaías aponta para caminhos de esperança em meio à desolação da experiência do exílio e denuncia os outros deuses como legitimadores da situação. Creio que esse diferenciador deve ser preservado na discussão da idolatria. Isso requer uma visão mais diferenciada na discussão a respeito das outras divindades e não uma condenação rasa e rápida que classifica as diferentes expressões de religiosidade na nossa realidade atual como idolátricas. O tema é polêmico, e a pregação não é o momento de exercitar discursos condenatórios e moralistas que amedrontam e não esclarecem. Sugiro concentrar a pregação em alguns aspectos que brotam da reflexão sobre os versículos 22-25.

 

3 – Refletindo com o texto

A justiça (tsedaqa) de Deus é evocada várias vezes neste pequeno trecho. O v. 21 introduz o tema, dizendo que a unicidade está no projeto do Deus justo. No Antigo Testamento, o termo justiça é definido na relação com Deus. O ser humano é justificado por Deus, e só Deus julga o que é justo (Is 5.22; 45.25). A justiça de Deus é a sua intervenção na história, que vai concretizando o seu projeto libertador. A crítica do profeta dirige-se àqueles que, por estarem distantes e exilados, não reconhecem o Deus da aliança, esse Deus que se mostra e se comunica com o povo. A justiça sai da boca de Deus. Mas também outras bocas afirmarão: tão-somente no Senhor há justiça e força (v. 24).

No v. 22, encontra-se um convite/convocação de Deus: olhem para mim e sejam salvos. Trata-se de um Deus que não fala em segredo e que não está nas trevas (v. 19). É um Deus que convida para o diálogo, que quer se comunicar, que propõe uma reunião com o povo (v. 20 e 21). Ele agora convoca a olhar. O verbo pana, olhar, voltar a face, voltar se está no imperativo plural. É um chamado à conversão, conversão que significa mudar de direção, mover o corpo para outro caminho, para outros rumos. O texto menciona dois movimentos corporais que indicam para a conversão: dobrar o joelho e jurar com toda língua. Gesto e fala. Ação e palavra. Uma ação que leva à confissão. Um gesto/ação que leva à declaração. Aqui pode ser construída uma ponte para as leituras bíblicas. No cântico de Simeão e da profetisa Ana, em Lucas, há jejum (gesto/ação) e oração (palavra/confissão). O v. 30 enfatiza também os olhos que já enxergam a salvação. Em Colossenses, há uma exortação a seguir em palavras e ações, como um corpo, as instruções dii sabedoria. As ações agradáveis aos olhos são as relações baseadas mi justiça, na compreensão e no amor.

Outro aspecto que o texto evoca é a universalidade da salvação. A salvação se estende a todos os confins ou limites da terra. É uma forma de expressar e incluir a totalidade. O texto parece proclamar a palavra de Deus não como patrimônio de um pequeno grupo, restrito e exclusivo, mas sua universalidade inclusiva e aberta. A universalidade implica heterogeneidade e pluralidade de pessoas e grupos que se voltam para a palavra e a justiça de Deus. O profeta Isaías apresenta um projeto em que cabem muitos. Este é um contraponto à crítica idolátrica. Essa crítica não visa à exclusão, mas constitui um convite à inclusão. É um chamamento para assumir o projeto de justiça, em que a certeza da presença de Deus é assegurada por sua própria boca. O v. 23 afirma: da minha boca saiu o que é justo (ou a justiça), e a minha palavra não voltará atrás.

A seguir, lanço alguns desafios para a atualização do texto na pregação. Parece que o texto quer relacionar as palavras e o gesto, a fala e a ação, ou estabelecer o que chamaríamos de coerência entre a teoria e a prática. O critério dessa coerência é a justiça. A palavra de Deus garante a justiça. Ela não volta atrás. A justiça de Deus é concreta e pude ser vista. Ela é o projeto de Deus. Muitas pessoas são convidadas a participar desse projeto. O convite implica um movimento de corpos, de rostos, de pensamentos, de certeza e de convicções. Voltar-se para Deus este é o convite e a decisão/ação. Há diversas possibilidades de ação. As leituras bíblicas (Lc e Cl) apontam algumas bem concretas: orar e jejuar, como as ações proféticas de Ana; sair e caminhar, como fez o justo e piedoso Simeão; Colossenses lista ações concretas e visíveis de atitudes transformadoras nas relações de convivência comunitária. A partir deste quadro podem-se apresentar exemplos concretos mi experiência da comunidade local.

Uni outro caminho de atualização é a visão ampla, aberta e universalista da salvação, proposta juntamente com a justiça de Deus. Aqui universal não significa absoluto, nem abstrato. Entende-se universal como o que é adaptável ou ajustável de modo que possa atender a diferentes necessidades (cf. o dicionário Aurélio). Essa capacidade de adaptação, de abrir-se para o diferente, o outro e o novo, de forma que a inserção na realidade do mundo possa ocorrer, é o sentido de universal que se quer destacar. O texto convida a olhar além das fronteiras e dos limites colocados pela cultura, por normas sociais, por construções de gênero, por separação de etnias, idades e geografias. Nesse sentido, o texto é missionário, pois convida a voltar o rosto e os corpos para ver a justiça de Deus. Isso implica ver a diversidade como possibilidade na missão e não como limitação.

Essa proposta que estende até os confins da terra a justiça de Deus constitui um contraponto a diversas propostas imediatistas, superficiais e sem compromisso, que são apresentadas aos olhos das pessoas da comunidade diariamente. O critério da abertura é formado pela justiça de Deus que se mostra coerente no falar e no agir, na palavra e na ação.

Por fim, o texto é sugerido para uma data em que o ano está chegando ao fim. As pessoas estão embaladas pelo clima de natal e das festas de fim de ano. Avaliar a prática individual e comunitária a partir do critério da justiça e do olhar/voltar a face pode ser uma boa possibilidade de contextualização.

 

4 – Sobre as leituras sugeridas

Proponho recortar o texto de Colossenses, ler de 3.12 até 17 e não incluir os v. 18-21. Não é possível admitir que um texto tão polêmico e discriminador, carregado de interpretação normativa patriarcal, como o que se inicia no v. 18, faça parte de uma leitura bíblica no culto. As leituras bíblicas conformam uma rede temática para a pregação ou interpretação da palavra. Textos que declaradamente são discriminatórios, excludentes e profundamente patriarcais como os catálogos domésticos não podem ser anunciados como palavra de Deus sem passar por um processo de contextualização e estudo. Ou seja, não sugiro cortar esses textos da Bíblia (nem Lutero fez isso com textos que julgava problemáticos), e sim, possibilitar o seu estudo e aprofundamento. Textos que legitimam o sexismo, a discriminação, a escravidão e a violência revelam que a palavra de Deus se manifesta na história e, portanto, que este contexto histórico precisa ser esclarecido, estudado e refletido. Se não, corre-se o risco de um fundamentalismo legitimador de injustiças.

 

5 – Subsídios litúrgicos

Cito uma proposta de envio e outra de bênção, extraídos de Sinfonia Oecumenica:

Envio

Deus, tira-nos da morte para a vida
Da incredulidade para a fé em ti,
Transforma a nossa dúvida em esperança
Concede-nos a tua reconciliação em meio a nossas confrontações
Presenteia-nos o conhecimento e o aprendizado mútuos
Que o que separa possa unir-nos,
Que as diferenças possam enriquecer-nos,
Que o estranho nos presenteie novas perspectivas.
Concede-nos orar e trabalhar juntos e juntas,
Rir e chorar,
Dar e receber.
Concede-nos sonhar juntos e juntas.
Concede-nos construir com e através de nossos parceiros e parceiras um mundo de paz e justiça, um mundo de reconciliação, perdão e amor.

Bênção

Abençoe-nos Deus
Que circunda o mundo com seu amor
Ide na paz de Deus,
Pai, Filho e Espírito Santo. Amém.

 

Bibliografia

BONNARD, P. Justo. In: J. J. von ALLMEN. Vocabulário bíblico. São Paulo: ASTE, 1972. p. 219-222;
CROATTO, Severino. Isaías. Petrópolis: Vozes, 1989;
SINFONIA Oecumenica. Comunión con las Iglesias del Mundo Hamburg/Basel: Evangelisches Missionswerk in Deutschland und Basler Mission, 1999. p. 309-315.

 

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Proclamar libertação é uma coleção que existe desde 1976 como fruto do testemunho e da colaboração ecumênica. Cada volume traz estudos e reflexões sobre passagens bíblicas. O trabalho exegético, a meditação e os subsídios litúrgicos são auxílios para a preparação do culto, de estudos bíblicos e de outras celebrações. Publicado pela Editora Sinodal, com apoio da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB).

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