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Proclamar Libertação – Volume 28
Prédica: Marcos 1.4-11
Leituras: Isaías 42.1-7 e Atos 10.34-38
Autor: Margarete Engelbrecht
Data Litúrgica: 1º Domingo após Epifania – Batismo de Nosso Senhor
Data da Pregação: 12/01/2003

 

1. Escolhas e rupturas

O tempo de férias aqui no Brasil, numa mistura de ressaca de natal, ano novo e antecipação do carnaval, não parece uma época propícia para apontar dificuldades. Há todo um preparo para que aconteça a união tão linda e tão almejada. E, além do mais, atualmente, tudo parece estar mais perto.

Toda a tecnologia que nos envolve, toda a facilidade de locomoção, traz características e valores que, contrariamente ao que se apregoa, não auxiliam a comunhão plena. O tempo se torna ainda mais urgente. Há urgência nos relacionamentos e flexibilidade na área da ética.

Diante de tantas opções de mercado, diante de um sem-número de informações, diante de tanta propaganda e propostas de modos de vida, há dificuldades no discernimento. E, afinal, diante de tantas oportunidades ouvem-se os ditos: o bem vencerá, o céu nos espera, Deus é um só.
Somos testemunhas. Como diz uma das leituras deste domingo, Atos 10.34-38, precisamos optar por apresentar algumas características de nosso Deus em ocasiões específicas e épocas distintas.

Deus nos escolhe! É isto que confessamos a cada celebração de batismo e de eucaristia. Deus escolhe todo um povo para que a liberdade seja experimentada de formas bem concretas (Isaías 42.1-7).

Como ter, então, discernimento para que nossa vida hoje seja de fato consequência de nossa fé?

 

2. A primeira descoberta: o inverso

Enquanto o grande fato religioso do povo é a peregrinação ao templo, a comunidade de Marcos lembra os feitos de João Batista no deserto. Como se recordasse as origens de Israel (Camacho, p. 81), vai lembrando a ação de sair como no êxodo do Egito.

Também a identificação de João Batista com Elias, profeta precursor do Messias (Camacho, p. 82), revela a preocupação da comunidade de Marcos com a confissão de fé que, unindo na identidade, desafia os indivíduos (confissão de pecados no batismo de João) e compromete a comunidade com a entrega pelo bem da humanidade (Camacho, p. 83) (ação de Jesus no Batismo).

De maneira sobremodo clara, a ação de João estende ao povo a salvação, e esta mesma salvação não fica restrita aos sacrifícios no templo e a uma classe escolhida. (Gallardo, p. 12)

A comunidade de Marcos também reverte a busca e a consequência da religiosidade da época para a confissão cristã: não é João que apresenta Jesus; é o próprio Deus que assim procede (Mc 1.11).

Ou seja, especificamente neste texto, há denúncia da prática dos escribas (templo x deserto), há denúncia da doutrina da época (poder da tradição x poder messiânico); há denúncia da valorização da riqueza como acesso a Deus.

 

3. O desafio: ser seletiva

A comunidade de Marcos apresenta uma seleção de imagens e conceitos que redirecionam a vida cristã. A prática de Jesus é insistentemente situada: diante da realidade econômica de miséria e exploração; diante da realidade política da Galiléia marginalizada, impura, suspeita e subversiva; diante da realidade ideológica do templo de Jerusalém e de seu poder; diante da realidade religiosa da corrente sacerdotal com seu ideal de pureza (Woodruff, p. 72ss.).

A comunidade de Marcos não vincula, em momento algum, o movimento de Jesus com a maior cidade da região, Séforis. Na passagem do batismo de Jesus, isso se torna sobremaneira relevante, já que se nomeia o deserto, a comida de nômade, a fala de Deus. Há um processo de seleção de dados, como se quisesse ignorar o que não traz vida ou o que machuca e desrespeita as pessoas.

Essa seleção de dados cria uma geografia artificial dentro de um percurso programático. A simbologia da pomba indica também o povo de Israel no tempo de Jesus. A imagem da abertura dos céus indica o diálogo entre Javé e Israel. A descida do Espírito Santo inaugura um tempo novo, indica o tempo da atuação de Jesus.

 

4. Confissão e vivência de fé

Em Um sermão sobre a contemplação do santo sofrimento de Cristo, Lutero pergunta: De que adianta para você Deus ser Deus, se não foi um Deus para você? De que adianta comer e beber ser algo saudável e benéfico, se não for saudável para você? (Lutero, p. 37)

Diante do mundo tão cheio de propostas e alternativas, de busca de harmonização e de sínteses nem sempre construtivas, a confissão de fé precisa novamente acontecer na certeza de não se conseguir agradar a gregos e troianos. Onde o humor toma o lugar do amor, não há mais vivência do amor. Isso se torna gritante num país tão bem-humorado como o nosso. Logo, as pessoas, os grupos e as comunidades precisam fazer não só a distinção, como também a opção, precisam tornar-se seletivas. Se não, ficaremos rindo de situações de exploração, de violência e de injustiça e não tomaremos as devidas providências para o arrependimento e suas consequências. Enquanto visualizarmos apenas grandes propostas das Séforis e outras grandes cidades, observarmos vitoriosas ideologias, dicas de sucesso e vitória, não escutaremos a voz que escolhe, reconhece e se alegra verdadeiramente. Enquanto os animais de nossa distração forem leões e hienas, macacos ou elefantes, as pombas não serão percebidas entre nós. Precisamos saber selecionar.

Nossa vivência de comunidade num tempo morno como este do pós-festas e pré-carnaval pode valorizar exatamente o mais simples, o que ficou para trás, o que é sem-alternativa. Nossa vivência de comunidade pode buscar saber ser seletiva num tempo de medo de perda de membros e de busca de grandes discursos e soluções.

O Evangelho de Marcos anuncia curas posteriores ao Batismo, na certeza de que Jesus estava centrando seu ministério na vida das pessoas e não na lei.

A consequência da vida das comunidades está na experiência relacional das pessoas entre si. Este é o compromisso de Jesus que provoca uma resposta celeste: reconhecimento e alegria.

A transformação visualizada por Isaías, a cura descrita por Pedro em Atos dos Apóstolos, tudo isto precisa de rupturas e negações, seja de tradições, seja de ideologias.

O clima de festas e férias pode nos ajudar a selecionar momentos e atividades comunitárias que propiciem vivência de comunhão (como a escolha do deserto e não da cidade importante). Podemos também buscar a ruptura com o que destrói e o que elimina a possibilidade de necessitar da natureza ou da presença de outras pessoas em nossas vidas (como a não-participação em atividades do templo – significativamente lucrativas e sedutoramente baseadas em marketing político). Podemos descobrir o valor de nossos sentimentos e sentidos: a voz que reconhece; o ouvido que percebe; a alegria que é compartilhada; a aceitação do que nos chega e pode ser reconhecido como próximo.

 

Bibliografia

CAMACHO, Fernando; MATEUS, Juan. Marcos, texto e comentário. São Paulo: Paulus, 1998. (Coleção Comentários Bíblicos);
(GALLARDO, Carlos Bravo. Galiléia ano 30: para ler o Evangelho de Marcos. São Paulo: Paulinas, 1996. (Coleção Estudos Bíblicos);
LUTERO, Martim. Consolo no sofrimento. Concórdia/Sinodal, 2000;
WOODRUFF, A. O povo da terra e o movimento de Jesus – reflexão sobre a geografia de Marcos. Estudos Bíblicos, Petrópolis/São Leopoldo, v. 44, p. 72ss., 1994.

 

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Proclamar libertação é uma coleção que existe desde 1976 como fruto do testemunho e da colaboração ecumênica. Cada volume traz estudos e reflexões sobre passagens bíblicas. O trabalho exegético, a meditação e os subsídios litúrgicos são auxílios para a preparação do culto, de estudos bíblicos e de outras celebrações. Publicado pela Editora Sinodal, com apoio da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB).

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