Dando sequência à série de matérias especiais em comemoração aos 60 anos da IECLB, nesta edição o P. em. Dr. Martin Norberto Dreher, Doutor em Teologia pela Universidade de München, Alemanha, e Professor nos cursos de graduação e pós-graduação em História, vai apresentar os primórdios da igreja luterana no Brasil (com base nas obras ‘História do Povo Luterano’, ‘Igreja e Germanidade’ (Editora Sinodal) e ‘Imigração Alemã no Rio Grande do Sul-Recortes’ (Oikos Editora)
A história da IECLB está intimamente relacionada com a miséria a que estiveram submetidas vastas populações européias ao longo do século XIX. Basta que lembremos alguns números que espelham o que foi a expulsão populacional ocorrida na Europa. De 1800 a 1845, foram 1,5 milhões de pessoas. Já entre 1845 e 1875, 9,5 milhões.
Êxodo rural, industrialização, reformas agrárias fracassadas, crescimento desenfreado dos centros urbanos, colapso da agricultura em consequência da importação de produtos produzidos a custos bem inferiores na Austrália, na Argentina e nos Estados Unidos – tudo isso levou o europeu a procurar ‘fazer a vida’ em outros continentes. O sonho por um pedaço de terra nas Américas foi a mola propulsora que levou milhões à beira da miséria absoluta a emigrarem.
Alemães, suíços, holandeses, dinamarqueses, noruegueses, suecos, austríacos, italianos,
poloneses, russos, espanhóis e muitos outros mais migram para o Brasil. Entre eles, encontramos muitos protestantes: luteranos, unidos, reformados, valdenses, anabatistas. Muitos deles viriam a formar, mais tarde, a IECLB. Temos aqui uma das primeiras características dessa Igreja: uma pluralidade de formas de expressão da piedade. Seu luteranismo é resultado de concessões e discussões, mas também da convivência e do crescimento das suas bases: as Comunidades.
Os primórdios não foram nada fáceis. Os imigrantes foram assentados principalmente nas três províncias meridionais do Brasil: Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, mas houve assentamento considerável no Espírito Santo. Grupos menores foram estabelecidos em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Como os primeiros imigrantes de Nova Friburgo/RJ e São Leopoldo/RS trouxeram Pastores consigo, foi com o seu auxílio que foram criadas as primeiras Comunidades: Nova Friburgo (1824), São Leopoldo (1824) e Três Forquilhas (1826).
No Rio de Janeiro, a capital do Império, a comunidade evangélica seria fundada em 1827 por Comerciantes e Artesãos liderados pelo Cônsul da Prússia. Em Santa Catarina, os primórdios estão ligados à colônia Santa Isabel, de onde se originou também a vida luterana em torno de Blumenau (1850) e Dona Francisca-Joinville (1851).
O todo, porém, vale para os primeiros 40 anos de história das comunidades evangélicas, que mais tarde viriam a formar a IECLB, na época entregues a si mesmas, ou melhor, à graça de Deus. Os imigrantes tiveram que organizar a sua própria vida eclesiástica. Os primeiros cultos foram celebrados em cabanas cobertas com folhas de palmeiras. Tratavam-se basicamente de cultos domésticos. Mais tarde, construíram o primeiro prédio comunitário, a escola, na qual, aos domingos, também eram celebrados os cultos. Ao lado da escola, encontrava- se o cemitério comunitário, pois no cemitério público, administrado pela Igreja Católica, protestantes não podiam ser sepultados. Somente em anos posteriores é que chegariam a erguer um prédio usado exclusivamente como templo.
Como faltavam Pastores, os imigrantes tiveram que improvisar: o Pastor foi eleito do seio da Comunidade. O princípio teórico luterano do sacerdócio geral de todos os crentes era posto em prática nessas congregações brasileiras. Surgia, assim, o ‘pastor colono’. Ao lado das suas atividades na agricultura, ele também assumia funções pastorais. Mais tarde, quando chegaram ao Brasil os Pastores ordenados, formados em Seminários Teológicos ou em universidades, esses pastores colonos foram pejorativamente designados de ‘pseudopastores’. Como o pastor colono muitas vezes também assumia as funções de mestre-escola e como a escola era ao mesmo tempo o templo da Comunidade, surgiu o binômio escola-igreja, professor-pastor, característico para o maior período da história da IECLB.
Destino: colônia de São Leopoldo
A colônia alemã de São Leopoldo foi a primeira do seu gênero instalada no Rio Grande do Sul. Ali se ensaiou um modelo agrícola que seria alternativa à economia baseada no latifúndio monocultor até então único no Brasil. Ele pode ser designado de economia baseada no regime da pequena propriedade familiar policultora e foi instalado em unidades de convivência humana, designadas de ‘picadas’.
| *** | Os primeiros imigrantes alemães chegaram à colônia em 1824 | *** |
Picada era uma forma de penetração na floresta subtropical com 6,6m de largura, também designada de estrada ou linha, ao longo da qual eram instaladas famílias em propriedades
que tinham, originalmente, largura de 220 e profundidade de 3.300 metros ou 72 hectares. Cada colônia tinha o seu Stadtplatz, sua sede, para a qual convergiam as picadas. Nela residia a administração da colônia, o Diretor e os seus auxiliares, não raro, Engenheiros. Os primeiros imigrantes alemães chegaram à colônia em 25 de julho de 1824. Já em 1830, o Stadtplatz de São Leopoldo contava com 86 de 182 residências, nas quais residiam etnias distintas da alemã.
Nas picadas, logo surgiriam centros de vida comunitária: cemitérios, escolas, capelas e as vendas. Na segunda metade do século XIX, estes centros comunitários ainda experimentariam o advento de associações e sociedades das mais variadas, incrementando a vida cultural e comunitária. Foi em torno destas instituições das picadas que surgiram novas vilas, que concorriam com o Stadtplatz e deram, mais tarde, origem a novos municípios. O Stadtplatz passaria a contar com Câmara de Vereadores em 1846 e seria elevado à condição de cidade em 1864, o que mostra o seu rápido desenvolvimento.