Até o ano passado, o Dia do Idoso era lembrado em 27 de setembro, mas, devido à criação do Estatuto do Idoso, em 1º de outubro, a comemoração foi transferida para esta data. O dia da comemoração foi alterado,
mas os idosos têm o que comemorar? Para refletir sobre essa temática, convidamos a Catequista Emilda Feiden, Pedagoga e Gerontóloga Social, que foi membro do Conselho do Idoso na ex- Região Eclesiástica VI e no Sínodo Vale do Taquari e, atualmente, faz parte da Comissão Vida Digna no Sínodo. Também faz parte o P. Ms. Luzaoir Adilson Lenz, Mestre pelo IEPG com a dissertação ‘A prática da espiritualidade na terceira idade’, Diretor e Professor da Carreira de Teologia na Universidad Luterana Salvadoreña, em El Salvador, Assessor Teológico para a Igreja Luterana Salvadorenha e autor depublicações relacionadas aos idosos. Contribui, ainda, a Professora Walli Dreher, que, formada e pós-graduada em Letras, atuou em escolas públicas e privadas, desde as séries inicias até o curso superior, auxiliou no Culto Infantil, no Conselho do Departamento de Catequese e, desde sua aposentadoria, integra a coordenação do grupo de idosos da Comunidade de São Leopoldo/RS. Finaliza o P. Carlos Luiz Ulrich, Pastor na Paróquia Apóstolo Tiago, em Jaraguá do Sul/SC, Especialista em Aconselhamento e Psicologia Pastoral pelo IEPG com a pesquisa ‘O grupo como um espaço terapêutico e de afirmação da dignidade humana das pessoas idosas’, integrante da Pastoral do Idoso no Sínodo Norte Catarinense e do Conselho Municipal dos Direitos do Idoso.

No trabalho , qual é o lugar do idoso?
Catequista Emilda Feiden
Avós amados e tranqüilos, trabalhando apenas por prazer: imagem idealizada da velhice, mas não é sempre assim, pois muitos ainda se ocupam, uma vez que a sua vida sempre girou em torno do trabalho ou porque dependem dele para sobreviver.
Ao perguntarmos a uma pessoa quem ela é, geralmente a resposta vem relacionada ao seu trabalho. Sou Médico, Educador, Agricultor. É assim porque o trabalho define o nosso ‘eu’ e, se não tivermos um local de trabalho, um círculo de colegas para manter contato, uma tarefa para confirmar a nossa ‘competência’, pode vir o sentimento de inutilidade, perda e vazio. A pergunta Afinal, o que ainda sou eu? nos incomoda. As Comunidades e a sociedade nem sempre oportunizam opções em que o idoso, nesta situação, possa assumir novos papéis favorecendo os contatos e a sua reinserção social.
Por outro lado, a permanência do idoso no mercado de trabalho é, muitas vezes, por absoluta necessidade de sobrevivência e representa a única fonte de renda familiar. Assim sendo, ocupa o espaço de trabalho do jovem e se contenta até com o subemprego. Sem ganho extra, o idoso não cobre os seus gastos com saúde e nem mantém uma velhice com qualidade de vida.
Juntar bens sem garantir liquidez estável faz parte da cultura do idoso. Vender patrimônio é difícil. Depender de familiares é complicado, por isso o idoso está no mercado de trabalho, mas até que ponto as nossas angústias pessoais e preocupações com a sobrevivência são tão ou mais importantes que todo o resto para que nos concentremos totalmente nelas?
Para refletir, leia Mateus 6.25-34
Na sociedade, qual é o lugar do idoso?
Pastor Luzaoir Adilson Lenz
Na sociedade moderna, valemos por aquilo que produzimos e pelo que consumimos. Em tempos passados, o que valia era a experiência, hoje vale a técnica. Historicamente, ser idoso proporcionava maior status. Isso se devia a dois motivos básicos: quantitativamente havia menos idosos e qualitativamente pelo fato que as suas opiniões em assuntos importantes eram ouvidas e se dava mais importância à experiência que à inovação.
Em uma sociedade na qual se valoriza o físico, o belo e a produção, ser idoso, muitas vezes, foi sinônimo de ser inútil e fraco, sem valor para o mercado de trabalho e com valores limitados no que diz respeito à sua participação em vários contextos da sociedade.
Contudo, essa imagem deplorativa do idoso vem mudando. A tecnologia, os avanços científicos e as leis de proteção aos idosos estão proporcionando uma melhoria na expectativa de vida. Uma nova geração de idosos saudáveis e ativos está surgindo com toda força. Idosos que buscam manter em harmonia o corpo e a mente por meio de atividades como informática, teatro, hidroginástica, viagens, etc. Idosos conscientes e cuidadosos, cientes da sua participação política e social, que têm ocupado o seu tempo livre com o lazer e também com a criação de redes de mútuo apoio, na qual constroem laços simbólicos de identificação, em que, juntos, negociam a sua participação como cidadãos e produzem novos paradigmas e modelos sociais, nos quais já não são meros figurantes, mas atores e autores do final da sua história de vida.
Para refletir, leia Salmo 71
Na Comunidade, qual é o lugar do idoso?
Professora Walli Dreher
A Comunidade de São Leopoldo/RS foi pioneira no trabalho com pessoas idosas. Em 1977, criou o primeiro grupo de terceira idade que se tem notícia no Brasil: o Centro de Lazer Girassol, resultado da percepção que muitos idosos ficavam sozinhos em casa, porque os filhos saíam para seu trabalho, e, com isso, entravam em depressão e perdiam a vontade de viver. Estes idosos já não participavam mais dos outros grupos da Comunidade, pois não se enquadravam mais neles.
A partir de exemplos da Alemanha, trazidos pelo Professor de Teologia Dr. Gerstenberger e por Hanelore Weber, a OASE local foi incentivada a convidar todos os idosos da Comunidade para um chá e fundação de um grupo de terceira idade. A idéia deu certo e, há 31 anos, mais de 100 idosos continuam se reunindo semanalmente para celebrar a vida. Os programas são variados: cantos, brincadeiras, ginástica, danças, apresentações artísticas, palestras, passeios e meditações sempre encerrando com um gostoso chá. Ao longo do tempo, também foi fundado um coral e um grupo de dança sênior que se apresentam em várias oportunidades.
Percebe-se que o trabalho alcançou os seus objetivos quando os idosos falam Vocês me devolveram a alegria de viver e também quando os filhos dizem Agora, minha mãe tem assunto para conversar, até esqueceu as suas dores. Com o aumento da expectativa de vida e a perspectiva dos idosos representarem 25% da população latino-americana, todas as Comunidades deveriam ter espaço para os seus idosos, um local onde possam conversar com pessoas da mesma idade e celebrar a alegria de viver.
Para refletir, leia Salmo 104.33
Na família, qual é o lugar do idoso?
Pastor Carlos Luiz Ulrich
A família brasileira contemporânea está cada vez mais distanciada do modelo tradicional, na qual idoso ocupava lugar de destaque. Ela é marcada pela fragmentação e fragilidade das relações cujos membros, embora juntos, vivem isolados uns dos outros. Existem, lado a lado, diferentes tipos de família. Dentro desta realidade plural, encontra-se o idoso.
Observa-se que, em muitas famílias, há um bom relacionamento entre as diferentes gerações, enquanto em outras a pessoa idosa é excluída do convívio. É fundamental para o cuidado e a atenção ao idoso que a família seja vista em sua singularidade. Em diversas famílias, quem cuida das crianças, enquanto os pais estão trabalhando, são os avós. Em muitas casas, o salário da aposentadoria complementa o orçamento doméstico.
As histórias das famílias são diferentes e se realizam na experiência do pertencimento, em que se compartilham redes de solidariedade e afeto. Freqüentemente, ouvem-se narrativas nas quais os fios familiares foram rompidos, aparecendo a solidão, o abandono e, inclusive, a violência como ameaças para uma vida digna na velhice.
A comunidade cristã tem uma importante tarefa na manutenção dos vínculos familiares: visitando, criando programas e grupos comunitários que incluam a pessoa idosa e afirmando a sua dignidade na vivência familiar, necessitando, para isso, conhecer e apoiar as políticas públicas que envolvem a família no cuidado desta fase da vida, pois o idoso é parte integrante da grande família de Deus.
Para refletir, leia o Salmo 78.3-4