Hospedado em um hotel de 30 andares, no centro de São Paulo, por ocasião do Seminário de 25 anos do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs, olhava para baixo e via que a torre da nossa igreja parecia pequena, até insignificante. Mesmo que indicasse o caminho para o alto, para o Deus que desce, ela se perdia entre enormes prédios. Estes, sim, pareciam torres, símbolo da nossa sociedade urbana e capitalista.
Diferente das torres das nossas igrejas, aqueles altos prédios nos falam do poder que governa a nossa sociedade. Os donos do mundo vão construído prédios cada vez mais altos para simbolizar o seu poder. Há quem compare esta competição pelas alturas como um jogo infantil, mas tais projetos também podem ser considerados como sonhos de seres humanos que pretendem arranhar os céus e brincar de deuses ou de demônios.
Segundo Thierry Paquet, Filósofo urbano, os Arquitetos querem provar que as torres resolvem os problemas de falta de espaço nas cidades, concentrando um número grande de pessoas num pequeno lugar que se eleva para os céus. Em contrapartida, o mesmo pensador afirma que tais prédios não criam espaços comunitários e também produzem doenças devido ao isolamento, multiplicando anginas e distúrbios respiratórios. Tais torres, acrescenta o pensador, não produzem encontros.
***Ao Senhor teu Deus adorarás e só a ele prestarás culto***
Ao olhar daquela altura, vinha-me a imagem bíblica da tentação de Jesus, após o seu Batismo. O tentador levou Jesus para o alto do templo e, depois, para o altode um monte. Das alturas, Jesus via todos os reinos do mundo com todo o seu resplendor. Tudo isto te darei, Jesus, se, prostrado, me adorares, mas Jesus retrucou Vai-te, Satanás, porque está escrito: ao Senhor teu Deus adorarás e só a ele prestarás culto (Mateus. 4.1-11).
No alto daquele prédio, me senti dentro da Torre de Babel, numa grande cidade. A torre devia tocar nos céus (Gênesis 11), mas Deus, que só pode descer porque nada há acima Dele, confundiu os homens pela diversidade de línguas. Assim, o projeto foi encerrado criando a diversidade de povos e dispersando-os sobre a terra. O projeto vertical deu lugar a uma diversidade horizontal. Deus criou uma boa confusão.
No quarto daquele arranha-céu, era possível refletir sobre o encontro de várias igrejas, que, em
comunhão e oração, formularam um documento de reconhecimento mútuo do Batismo em um andar mais perto do chão. Ninguém deixou de ser da sua igreja para ouvir a linguagem do Espírito Santo. Como num pequeno Pentecostes, ali, todos ouviam o Espírito falar pela diversidade de formas diferentes de ser igreja.
Entendi, então, que os adoradores dos arranha-céus não conseguem compreender a diversidade de povos e de igrejas. Perdem o seu tempo subindo em suas obras próprias para arranhar os céus, que nunca alcançam, porque Deus desce, gerando novos Pentecostes: um saudável encontro das diferenças.
P. Dr. Oneide Bobsin
Pastor da IECLB e Reitor da Faculdades EST