Aproximamo-nos de mais um aniversário do nascimento de Jesus. Este aniversário é possível porque um anjo impediu que Maria fosse apedrejada por adultério e a sua criança morta com ela, que engravidou sem ter coabitado com José. Não conseguimos imaginar a dor de cabeça de José. Poderia ter suspeitado de Maria: como ela está grávida, se não tivemos relação sexual? Não querendo expô-la publicamente, resolveu romper o noivado em silêncio, porque era um homem justo.
No entanto, o senso de justiça resolveria em parte o drama de José, mas não o de Maria e da criança que estava sendo gerada. Assim, diante de tantas ameaças à vida de Maria e de Jesus, o anjo agiu em sonho. Não tenhas medo, disse o anjo, porque a criança nela gerada vem do Espírito Santo, conforme Mateus 1.18-15.
Tal gravidez originou muita fé em pessoas, bem como ainda produz piadas ou ironias em tantas outras, mas não vamos nos perder em piadas ou críticas científicas. Quem deve provar os fatos é a ciência. A fé está livre disto. Por isto é fé. A fé vem pelo ouvir, diz o apóstolo Paulo. Certamente, tal ensinamento levou um Teólogo a brincar de forma séria ao dizer que Maria engravidou pelo ouvido. Foi a Palavra do anjo que a engravidou.
***As palavras dos anjos nem sempre encontram ouvidos abertos***
Esta palavra faltou há poucas décadas no lugar onde vivi minha infância e parte da juventude. Em conversas com a minha mãe, sob a sombra de um pé de cinamomo na frente da casa e ao som da água cristalina de um riacho que corre pelas pedras, ela falava de amigas de juventude que ficaram grávidas dos seus noivos. Duas delas cometeram suicídiotomando veneno para matar formigas. Outra, sentindo-se abandonada pelo noivo e temendo encarar a família, jogou-se no rio, afogando o sonho de casamento com a sua morte.
Era preciso lavar a vergonha da cara dos pais, disse-me a mãe na sua sabedoria adquirida em 74 anos de vida. Atualmente, as moças não precisam passar por este sofrimento. Hoje, é muito melhor, acrescentou ela, novamente me surpreendendo agradavelmente.
Certamente, alguém pode me censurar dizendo que as crianças geradas no ventre das amigas da minha mãe não tinham a mesma missão que a criança Jesus. Posso aceitar tal crítica, mas também é verdade que aquelas vidas interrompidas pelos olhares acusadores da comunidade também nasceram da água e do Espírito Santo. Foram batizadas, assim como o seriam as crianças cujas vidas foram interrompidas pelo suicídio das mães.
Será que faltou um anjo que avisasse aqueles noivos em sonho? Creio que não. Todas as pessoas participavam dos cultos onde a Palavra era anunciada. Teria faltado aos homens um ouvido atento como o de José? 
Quando se dá mais ouvidos para tradições e costumes humanos, as palavras dos anjos nem sempre encontram ouvidos abertos e vidas são ameaçadas, mas também quando se quer explicar tudo cientificamente, deixamos de ouvir Deus pelos sonhos.
Despertado do sono, José agiu conforme o Anjo do Senhor lhe ordenara e recebeu em casa a sua mulher. Então, Natal é hora de despertar do sono e acolher as vidas ameaçadas por leis, tradições e costumes que nos tornam surdos.
P. Dr. Oneide Bobsin
Pastor da IECLB e Reitor da Faculdades EST