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Há muito tempo, ouvi uma pessoa cristã dizer Meu coração pertence a Jesus e o meu pulmão à Souza Cruz. Com isso, ela estava expressando a sua dependência do tabaco. Pensei comigo, aqui há algum problema na relação entre a salvação em Cristo e a vida na criação. Segundo a Bíblia, a criação é de Deus e não pertence ao diabo. Por isso, os seres da criação têm dignidade. Muitas vezes, entende-se que as coisas da criação são matéria e que esta não tem muito valor. Pensa-se que mais importantes são as coisas de natureza espiritual. Não importa o que acontece com o pulmão, o corpo, importante é a vida do coração com Jesus. O que importa é a vida da Igreja, a salvação das pessoas por meio da missão e da evangelização.
É verdade que isto é muito importante. Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna (João 3.16). É verdade que a obra de Cristo é fundamental para a vida do cristão. Entretanto, Deus não amou somente as pessoas. Ele também amou o mundo na sua totalidade. No mesmo Evangelho de João é descrito que Deus amou o Cosmo, o universo. Deus criou o universo por amor e ele também é o mantenedor de todos os seres da criação. O mesmo Deus que nos salvou em Jesus Cristo é o Deus que preserva a criação e cuida de todos os seres que vivem na natureza. Ele nos chama a viver na criação cuidando dela e não explorando e destruindo.
O cuidado de Deus com a natureza é um exemplo do cuidado de Deus para conosco. Do modo como Deus cuida dos pássaros, dos lírios nos campos, Ele também cuida de nós. Há uma profunda solidariedade entre os seres humanos e os demais seres da criação tanto na tragédia quanto na esperança pela salvação. Todos os seres da criação experimentam a morte e o sofrimento e gemem, suplicam pela redenção das forças da morte e da destruição (Rm 8). Confessar Jesus como Senhor significa também confessar que ele é o Senhor da nossa relação com a natureza e com o nosso corpo.
Deus nos colocou como administradores no contexto da criação. A partir disso, existe uma conexão entre a boa criação de Deus, a saúde humana, a saúde animal e a saúde ambiental. Doenças em humanos são geradas, em grande medida, em função do desequilíbrio ambiental, provocado, por sua vez, pelos seres humanos. A degradação ambiental gera novas doenças, porque o ser humano usurpou o lugar de Deus. O ser humano se coloca no lugar de Deus e faz com as dádivas de Deus o que bem entende. Isso favorece a disseminação de doenças e causa catástrofes naturais sem precedentes, além de gerar o esgotamento das fontes naturais, que são fundamentais para a sobrevivência humana. Observamos assoreamento dos rios, drenagem de pântanos, escavação de canais, aterros e tantas outras agressões. Essa é também, lamentavelmente, a realidade da maioria dos rios no Brasil.
Nos últimos anos, vimos um cenário desolador na Amazônia – a pior estiagem dos últimos cinquenta anos. O desenvolvimento predatório, bem como as políticas que excluem os povos que vivem nessas regiões, leva à destruição do maior patrimônio genético, que está em solo brasileiro. A destruição de florestas, as queimadas para transformar florestas em pastagem e a visão destruidora da maioria das madeireiras – que não tem compromisso com o desenvolvimento sustentado – fazem do Brasil um cenário de destruição. Isso se observa na região amazônica, na região do Pantanal e em seu entorno, bem como em muitos outros lugares do Brasil. Observamos a destruição da Mata Atlântica em nome do progresso. Em virtude da prática desordenada de derrubadas de florestas e das queimadas, o Brasil é um dos maiores poluidores do mundo.
O primeiro artigo do Credo Apostólico Creio em Deus Pai, todo poderoso, criador do céu e da terra nos desafia a tomar pequenas atitudes do dia a dia, preocupando-nos com a sustentabilidade do nosso futuro e dos nossos filhos. Deveria ser evitado o uso de produtos agrotóxicos para ‘limpar’ o capim que cresce ao redor da casa onde moramos. Infelizmente, é comum observar que se substitui o verde dos nossos jardins pelo pedregulho. A confissão de que Deus é o criador e o mantenedor da vida também deveria nos fazer reconsiderar o nosso senso de estética. Cortam-se árvores que dão sombra, porque fazem muita ‘sujeira’, por causa das suas folhas. Sujeira maior é passar veneno no capim, dando um aspecto amarelado e desolador, sem considerar o malefício às pessoas, aos animais e aos insetos.
Um hábito muito comum é aplicar defensivos agrícolas próximo às margens de lagoas, rios, riachos, ribeirões e mananciais de água para, ironicamente, ‘limpar’ essas áreas do capim verde, substituindo-o com a vegetação amarelada e depois seca. Não se percebe que, com isso, se está depositando metais pesados, matando microorganismos, sapos, peixes, plantas aquáticas e as plantas em volta dos mananciais. Tudo isso é fundamental para a proteção do meio ambiente e para a existência da própria água. É imperativo separar o lixo orgânico e reciclável, especialmente embalagens plásticas, caixas de leite, vidros, baterias e outros produtos industrializados recicláveis.
Entretanto, a reação da sociedade moderna diante desse quadro preocupante é de passividade quase total. Poucas pessoas se interessam por essas questões. Poucos são os que têm consciência dessa realidade. Vive-se hoje como se nada de anormal estivesse acontecendo. A ideia vendida pela mídia é que o consumo e a economia de mercado são necessários e que sem essas duas coisas não poderemos viver mais adequadamente. Vive-se na ilusão de que o progresso econômico pode aumentar sem limites. Isso poderia ser verdadeiro na época em que o mundo estava quase vazio, mas não é mais verdadeiro em um mundo super-habitado.
Faz-se necessário perceber que a economia somente existe por causa dos recursos naturais. Também é fundamental desenvolver uma cultura que enxergue os recursos naturais como limitados. Estes nos foram dados, são dádiva e não propriedade privada. Temos a permissão de Deus para o uso dos bens naturais. O enriquecimento material desprovido de preocupações com o cuidado com as dádivas de Deus reflete um problema espiritual.
A economia de mercado promete o enriquecimento material como condição para se conseguir chegar à felicidade, ou seja, a exploração da natureza para obter felicidade pode se colocar no lugar de Cristo. A cultura de excessos não é gentil com as dádivas de Deus. Evitar o desperdício de comida, de água e dos bens de consumo é uma forma de confessar que o mundo é de Deus. O mercado cria insatisfações que são preenchidas com a compra de produtos supérfluos. O crescimento econômico está fundamentado em inutilidades e futilidades. O ser humano busca pela felicidade como um objetivo insaciável, pois hoje compra um produto que vai trazer a felicidade. No entanto, ao comprar, percebe que a felicidade prometida não vem. Em algum momento vêm a frustração e o vazio.
O problema ambiental tem a sua origem em questões profundamente espirituais. A busca da felicidade nas promessas dos bens de consumo enche-nos de coisas fúteis e, ao mesmo tempo, esvaziam as nossas mentes e os nossos corações. A publicidade agressiva gera necessidades e a comparação com outros aponta para aqueles que compraram a felicidade adquirindo um determinado produto, despertando inveja e cobiça. Não se está mais centrado no caráter da pessoa, na sua honestidade, na solidariedade, mas nas joias que usa, no carro que dirige, nas roupas que traja.
A sociedade moderna é profundamente doente por organizar-se em torno do ter. O sentido da existência está no ter e no ser visto e invejado pelos outros. A partir do momento que o cristão vive da realidade de que Deus amou o universo, ele pode viver em gratidão pelo que tem. Não somos mais determinados pela ganância e pela inveja, mas pelo cuidado e pela alegria com a criação de Deus. O encantamento com a bondade de Deus acontece pelos olhos da fé. O mesmo Deus que nos fez justos por meio de Cristo é
o Deus que nos incumbe de pregar o Evangelho e de cuidar da criação. A preservação da criação é uma ordem de Deus, resumida nos dez mandamentos, para que a vida seja possível e para que o Evangelho tenha acolhida no coração das pessoas. A pessoa que pertence a Jesus também coloca o seu corpo a serviço de Deus, que é o criador e o mantenedor a vida, pois o corpo é o templo do Espírito Santo.
Dr. Euler Renato Westphal, Professor de Bioética na Universidade da Região de Joinville/SC (Univille), Professor na Faculdade Luterana de Teologia (FLT), em São Bento do Sul/SC, é autor das seguintes obras ‘O Oitavo dia na era da seleção artificial’ e ‘Brincando no paraíso perdido: as estruturas religiosas da ciência’ (Editora União Cristã), além de ‘Para entender Bioética’ e ‘Ciência e Bioética: um olhar teológico’ (Editora Sinodal) – texto original revisto pelo próprio autor ‘Para entender Bioética’ (2006)