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A relação entre frango com quiabo – um prato da culinária mineira – e meio ambiente parece descabida. Aparentemente, são duas coisas tão distantes que soa como maluquice relacioná-las. A estranheza vem não apenas do desconhecimento do que é quiabo e como pode se misturar isso com frango, mas principalmente da tentativa de relacionar comida com meio ambiente.
Para as pessoas que não conhecem a culinária mineira, a mistura de frango com quiabo parece ser pouco apetitosa. Certamente, o frango é um alimento muito apreciado no Brasil inteiro. Já o quiabo, cru ou preparado, tem um aspecto menos agradável. Para muita gente, a goma viscosa do quiabo, misturada ao frango frito, pode estragar o prato. Contudo, esse prato é muito prezado pelos mineiros, fazendo parte, inclusive, do prestigiado almoço de domingo.
O frango com quiabo dá uma ideia da diversidade alimentar do brasileiro. Há uma infinidade de alimentos e modos diferentes de preparo para o mesmo alimento que seria impossível listar isso aqui. A culinária brasileira se tornou ainda mais variada com a incorporação das tradições culinárias dos grupos de imigrantes que ajudaram a formar a cultura brasileira.
Para comprovar isso é só ir a uma festa em uma Comunidade luterana, por exemplo, para ver a quantidade de pães, cucas, doces, geleias, carnes assadas, cozidas ou fritas, além dos inúmeros pratos, como a tradicional salada de batatas, sem falar nos saborosos chás das senhoras da Ordem Auxiliadora das Senhoras Evangélicas.
Essa tradição de preparo e consumo de alimentos, que passa de pais para filhos, e estas práticas festivas e comunitárias estão ameaçadas pela correria das grandes cidades. A alimentação das pessoas nas grandes cidades tem passado por um forte processo de padronização.
Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os alimentos mais comprados pelas famílias brasileiras são o arroz e os produtos à base de farinha de trigo (pães, biscoitos, macarrão), carnes, feijão, açúcar, óleos e leite e os seus derivados. Esta tendência vem desde os anos 70 e indica uma paulatina substituição da dieta rica em fibras por uma dieta altamente industrializada (mais gorduras, mais açúcares, mais valor calórico agregado, etc.). Começa-se a falar em ‘alimentos ocos’.
Em boa medida, o consumo de alimentos rápidos (os fast foods como hambúrgueres e enlatados) tem sido cada vez mais constante nas refeições, em rotinas apressadas. Nas gôndolas dos supermercados, fica ainda mais visível a pouca diversidade de alimentos, principalmente frutas, legumes e verduras. Há o predomínio de determinados alimentos, como batata, tomate, cebola, alface, maçã e laranja. Dificilmente, se encontram frutas e verduras típicas do interior, como jabuticaba, butiá, etc.
Acompanhando esta padronização alimentar, ocorre o aumento de inúmeras doenças. A presença crescente de gorduras saturadas e açúcares nos alimentos industrializados vem provocando o surgimento de novas doenças, como a obesidade, que é cada vez mais comum em crianças e adolescentes.
Assim, vai se impondo a constatação de que o padrão alimentar urbano passa a determinar em grande medida o que se produz no campo. Este padrão, baseado em alimentos de preparo rápido e esteticamente perfeitos (o tomate longa vida, a alface de folhas sem manchas, a maçã reluzente, a banana de formato e cor homogêneos, a cenoura lisinha, etc.), cria uma nova demanda para a produção agrícola.
Tudo isso obriga o Agricultor a usar intensivamente agrotóxicos, maquinário pesado, exigência excessiva e ininterrupta do solo, predominância de sementes de alta produtividade, além de uma demanda permanente de água, afetando a qualidade dos alimentos e gerando uma cadeia produtiva que explora abusivamente os recursos naturais e desencadeia desperdícios enormes (transporte para longas distâncias, expectativas estéticas da qualidade dos alimentos expostos nos supermercados, a oferta permanente de produtos sazonais, etc.).
Sabe-se que, no Brasil, parte da destruição das florestas está vinculada à criação de pastagens para o gado de corte. Uma dieta altamente concentrada em proteína animal pressiona fortemente a agricultura. Boa parte das terras e dos esforços de produção de alimento destina-se à produção de cereais, como a soja e o milho, que vão compor a base da alimentação animal para a produção de carne. O tradicional churrasco dominical tem, portanto, um alto custo ambiental, pois depende do aumento constante do rebanho de gado de corte, de mais pasto e mais ração, além do gasto de água.
Fica evidente aqui a profunda relação que existe entre o que comemos com a destruição ambiental. A conhecida frase você é o que você come ganha um novo sentido, pois revela como agimos em relação ao mundo natural: nós o devoramos! Em resumo, podemos dizer que a exploração dos recursos naturais provocada pelo padrão alimentar urbano é tão predatória que pode ser considerada uma das principais causas da destruição ambiental.
Contudo, ninguém vive sem comer e, portanto, precisamos da agricultura. Aí está o grande dilema: como produzir alimentos para milhões de pessoas sem prejudicar a saúde do planeta e a nossa saúde? Esta pergunta revela a questão principal: a produção de alimentos destina-se a atender às necessidades alimentares do ser humano. Graças ao trabalho das ciências, a relação entre o alimento e as necessidades físicas do organismo humano foi se tornando conhecida. Sabemos cada vez mais sobre o potencial nutritivo dos alimentos e o seu impacto sobre a saúde integral da pessoa. No entanto, isso não tem significado uma melhoria na qualidade da nossa alimentação.
Sabemos, entretanto, que os seres humanos não comem simplesmente, mas se alimentam. Isto quer dizer que o ato de comer tem para nós um valor extra, que podemos chamar de simbólico e cultural. Comer ou deixar de comer tem sentido mais profundo e abrangente para a vida, pois nos liga com pessoas (ou não), com grupos sociais e até mesmo com Deus.
Porém, o significado e o valor simbólico-cultural da alimentação (comunhão de mesa, formação de identidade, pertencimento social, lazer, etc.) são, hoje, fortemente determinados pela indústria e pelos meios de comunicação com suas criativas propagandas. Comemos cada vez menos em família, cada vez mais em lanchonetes (comida rápida), cada vez mais para demonstrar status e comemos mais do que precisamos pelo puro prazer de comer.
Alimentar-se tem cada vez menos o sentido da solidariedade, da alegria, da comunhão e da integração. Alimentar-se está transformando uma necessidade humana em um processo que produz uma sociedade doente em vários sentidos (obesidades mórbidas, anorexias ou bulimias e um exército de famintos). A destruição ambiental está, portanto, fortemente associada às distorções doentias a que foram submetidos os nossos padrões alimentares.
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Portanto, a pergunta antes anunciada representa o nosso dilema: Como a produção de alimentos pode atender a justa necessidade de saciar a fome de todos e manter a nossa saúde e o planeta em equilíbrio? Certamente, a resposta a esta pergunta não é simples nem fácil. Talvez sejam necessárias várias respostas. Quem sabe, o frango com quiabo pode nos ajudar em uma das respostas. A valorização da comida regional, da variedade de alimentos produzidos e distribuídos na própria região pode ser uma alternativa para diversificação da dieta das pessoas da cidade. Além disso, incentivar o cultivo de alimentos orgânicos, ajudar famílias a se fixarem no campo, incrementar a sua fonte renda e produzir alimentos sem agredir o meio ambiente também faz parte da solução. Sim, para isso são necessárias políticas governamentais, mas nada disso será possível se não começar em nossa mesa.
Curiosamente, a fé cristã sempre teve no centro das suas preocupações a alimentação. Assim, um dos importantes sacramentos da nossa vida comunitária é uma Santa Refeição. Jesus em seu ministério se preocupou sempre em alimentar e ter profunda comunhão de mesa com as pessoas: multiplicou alimentos, reuniu pessoas, sentou-se à mesa com todos e tornou uma refeição o meio de perdão e salvação. Além disso, ensinou-nos a orar pelo pão diário como dádiva cotidiana de um Deus que alimentou e alimenta o seu povo. É preciso redescobrir as relações positivas e também os compromissos que existem entre a alimentação e a nossa fé.
 | | Willian Kaizer de Oliveira (esquerda) é mestrando do Programa de Pós-graduação da Faculdades EST e P. Dr. Valério Guilherme Schaper (direita) é Professor de Teologia sistemática e ética no mesmo Programa. Ambos estão desenvolvendo pesquisa sobre a relação entre alimentação, meio ambiente e religião | |  |