A região Amazônica ocupa 60% do território nacional, com a mais rica diversidade natural, social e cultural. Antes da sua colonização, ou melhor, ‘invasão’, a Amazônia era composta por uma mata exuberante, com poucas clareiras em meio à mata densa. Estas clareiras eram abertas pelos povos que aqui já viviam há séculos e conheciam cada palmo deste chão tão misterioso, os índios. Eles viviam, derrubavam e plantavam nos locais mais férteis, onde produziam por um ou, no máximo, dois anos e depois abandonavam estes locais e retornavam somente uns 20 anos após. Esta prática era usada para permitir que o solo pudesse se recompor e a capoeira estivesse bem densa, formando uma vasta massa verde que era novamente derrubada e queimada.
A Amazônia é esplendorosa e rica em diversidade. No momento da sua colonização, pela observação aérea da mata, era possível concluir que existiam solos planos e muito férteis. Porém, após adentrar e derrubar milhões de hectares de mata, verificou-se que não havia muita planície e, sim, que a mata estava nivelada por um simples motivo, isto é, os solos mais férteis estão localizados na parte baixa, nas várzeas e, por consequência, ali estavam as árvores mais exuberantes e que alcançavam o mesmo nível de altura daquelas localizadas nas encostas e solos mais fracos. Com isso, podemos concluir que as baixadas são as áreas mais adequadas para a agricultura. No entanto, geralmente possuem drenagem deficiente e são arenosas, dificultando a produção.
Existem poucos solos com alta fertilidade e adequados para culturas anuais (arroz, feijão, milho, etc.). Na Amazônia, eles estão em torno de 10% somente. O restante são solos arenosos, íngremes, encharcados e sem possibilidade de fazer a drenagem adequada, o que, aliás, também é muito dispendioso. Estes solos devem ser manejados de forma que mantenham a sua cobertura, não os expondo a sol, chuvas, ventos e muito menos fogo.
A pergunta que não cessa é Como há uma floresta tão frondosa se os solos são fracos? A explicação é simples: a camada de matéria orgânica por cima do solo é o alimento das plantas presentes. Pela decomposição de folhas, flores e galhos, ocorre a ciclagem de nutrientes, isto é, as plantas utilizam novamente estes nutrientes obtidos na decomposição rápida devido ao clima tropical, à alta umidade e ao calor. A floresta se nutre deste ciclo, mantendo-se majestosa. Porém, se não houver matéria orgânica, a exuberância termina.
A mata amazônica se mantém, ou se mantinha, devido ao equilíbrio do sistema: equilíbrio entre matéria orgânica, estrutura do solo, umidade do ar e nível freático. A mata é um ecossistema muito frágil e que depende das árvores e da sua água transpirada, da ausência de ventos na paisagem, da proteção dos seus solos contra o sol e o impacto das chuvas e de uma distribuição equilibrada de chuvas no decorrer do ano, pois os seus solos retêm pouca água. Este equilíbrio foi alterado com a devastação da mata e as mudanças climáticas são cada vez mais palpáveis. A mata, que antes servia de termostato, regulando a temperatura, já é muito rara, restando apenas as pastagens, que não regulam nada.
As temperaturas eram amenas, entre 22°C e 28°C, sendo que os extremos não passavam de 19°C e 35°C, porém, eram muito raras. Hoje, conforme dados da Embrapa, as temperaturas normais estão entre 21°C e 22°C e 37°C e 38°C, chegando a picos de 40°C e mínimas de até 6°C, chegando perto do clima de deserto, que gira em torno de -5°C à noite e 50°C durante o dia.
As chuvas que caiam sobre a Amazônia eram esparsas, divididas em duas estações, a seca e a chuvosa, porém, sempre havia algumas pancadas de chuva entre as estações. Esta chuva ocorria devido à alta transpiração das árvores. Com a derrubada das árvores e a consequente queima da vegetação, as chuvas caem em volume menor e, quando ela chega, escorre diretamente para os rios, levando consigo toda a vida do solo, pois eles não possuem cobertura que auxilie na infiltração da água.
A prática da derrubada e queima é antiga, mas muito prejudicial aos solos amazônicos, primeiro por queimar toda a vegetação que serviria de matéria orgânica após a sua decomposição e, em segundo lugar, por deixar uma camada impermeável no solo, impedindo a infiltração da água e o consequente crescimento de plantas cultivadas.
O modelo agrícola importado para a região amazônica está degradando os recursos naturais e dizimando a biodiversidade existente. A agricultura trazida na bagagem pelos migrantes não é adaptada para a região. Precisamos aprender a explorar as riquezas naturais da Amazônia e trabalhar as suas terras conforme as aptidões, adaptando técnicas de cultivo e cultivares locais. O que falta é uma adequada política agrícola que favoreça a agricultura sustentável, agroecológica e que trabalhe respeitando os princípios e aptidões locais.
Todos os cultivos, em forma de monocultivo, na região amazônica, não deveriam ultrapassar 1,2 hectares devido à alta incidência de pragas e doenças que se multiplicam muito rapidamente e também em função da necessidade de nos preocuparmos com as barreiras de proteção contra os ventos e o sol.
Os solos são fracos, mas, trabalhados de forma adequada, possibilitam uma ótima produção. O que não pode faltar para produzir culturas anuais, como arroz, feijão, milho, verduras e legumes, é a cobertura morta, que, além de permitir a infiltração da água, reduz o crescimento de plantas daninhas e mantém a temperatura do solo equilibrada.
O cultivo de plantas perenes, como café, cacau, fruteiras, pupunha e outros, é o mais indicado para a região, porém, em forma de Sistema Agroflorestal (SAF). Os SAFs imitam a mata, havendo proteção das culturas com sombra e, principalmente, proteção do solo, que se mantém equilibrado fazendo o papel de uma mata composta.
No Estado de Rondônia, há experiências comprovadas que o cultivo na sombra, além de proporcionar o bem-estar das pessoas que ali trabalham, gera renda e as plantas se mantêm produzindo por um período muito superior em relação àquelas em cultivos solteiros, isto devido ao clima favorável e equilibrado.
Na natureza, perfeita e criada por Deus, nada é em vão. Toda a criação, todo o ser, por menor que seja, tem a sua função. Na Amazônia, temos o exemplo da majestade da floresta, que é a castanheira (Castanha do Brasil). Ela é facilmente visualizada na mata, pois se sobressai entre as demais árvores, podendo atingir uma altura de 60 metros e o diâmetro nem se fala. No entanto, para viver e se manter formosa e exuberante, a castanheira precisa estar rodeada de outras árvores, que servem de apoio e segurança para as suas raízes superficiais, além de servirem de escada, isto é, as mamangavas que polinizam as suas flores sobem pela mata e chegam até a castanheira em flor.
Com a colonização da Amazônia, muitas castanheiras foram dizimadas, até que foi instituída uma lei que proibiu tal derrubada, mas, após alguns anos, verificou-se que esta lei, na verdade, foi a dizimação do restante das castanheiras. Sem uma proteção ao seu redor, as mamangavas desapareceram, o uso do fogo queimou toda a vegetação e a matéria orgânica ao seu redor e o consequente aquecimento do solo tornou as castanheiras ainda mais vulneráveis, condenadas à morte ou, como muitos falam por aqui, ‘desprotegidas por lei’. Graças às observações e mudanças nas leis, hoje não se pode derrubar 10 metros ao redor de uma castanheira, o que apenas é uma medida paliativa, sem muito efeito concreto.
Com o exemplo da castanheira, podemos relacionar também todo o planeta, pois tudo está inter-relacionado. Fazemos parte de uma cadeia com sérias rupturas. Esta cadeia depende do todo. Se há queimadas na Amazônia, estas afetam o clima, a temperatura e a umidade de todo o Brasil e de todo o mundo, pois a fumaça não se localiza somente em um lugar, ela é levada de um lugar para o outro. Da mesma forma, quando são usados agrotóxicos, que contaminam o ar, a água, as plantas, os animais e todos os seres vivos e não vivos ao seu redor, indistintamente. Portanto, se o solo está doente, as plantas serão doentes e, consequentemente, o ser humano também adoecerá.
No momento em que Deus criou a terra e todos os seres que nela vivem, não colocou hierarquia e não deu ao ser humano o poder de destruir, mas, sim, deu a ordem para cuidar da criação. Somos parte da Amazônia, temos, cada um e cada uma, a nossa parcela de responsabilidade com a preservação ou com a devastação dela. É pela ação que se sabe a quem servimos. O Sínodo da Amazônia iniciará o seu testemunho com a causa da vida pela implementação do Projeto de Agroecologia, uma agricultura limpa e adaptada à região. É a Igreja de Cristo trabalhando em prol da vida.
Diaconisa e Engenheira Agrônoma Roseli Maria Klauck Magedanz, Coordenadora do Projeto Terra Sem Males, da Comissão Pastoral da Terra de Rondônia