Não é elogiando os autores de polpudas doações que anunciaremos o Evangelho da graça de Jesus. Pelo contrário, assim constrangeremos os mais fracos, humildes e pobres, afastando- os do convívio comunitário, onde se sentirão menosprezados. Desta forma, desperdiçamos a força missionária de uma Comunidade.
Como fazer para acreditar que o poder realmente se aperfeiçoa na fraqueza (2Cor. 12.9)? Sem acolher e sem confi ar nos irmãos diferentes, continuaremos a ter sérias difi culdades para viver a alegria da Igreja missionária, na qual todos são sal da terra e luz no mundo (Mt 5.13ss) e na qual, juntos, grandes e pequenos, jovens e velhos, ricos e pobres, fazemos parte do sacerdócio geral dos crentes, da família de Deus.
As melhores lições da vida são aprendidas nas horas das grandes necessidades. Foi assim com a fé evangélico- luterana em território brasileiro. Pobres e despossuídos, imigrantes alemães e os seus descendentes, mesmo em situações adversas, como o cerceamento da liberdade religiosa e a proibição da própria língua, edificaram Comunidades em que a gratidão a Deus e a solidariedade mútua deram ânimo e sentido à vida.
Também a história recente da missão da IECLB na Amazônia, no Centro- Oeste e em muitas periferias Brasil afora testemunha exemplos similares, onde pequenas Comunidades valorizam os poucos recursos disponíveis, vivendo modestamente e praticando uma solidariedade que vai muito além das suas fronteiras e necessidades locais.
Uma Comunidade cristã sempre procura valorizar e exercitar os diferentes dons, colocando-os a serviço do amor ao próximo. Nela reinam a partilha e a doação de tempo, trabalho, dinheiro e bens, frutos da ‘liberdade para a qual Cristo nos libertou’ (Gálatas 5.1). Neste contexto, cito o P. Dr. Dr. h. c. Gott fried Brakemeier: ‘Livre é somente aquele que, de livre e espontânea vontade, sabe assumir compromissos’. Esta liberdade também inclui a comunicação e a transparência na divulgação contínua de tudo o que diz respeito à vida comunitária. Assim, o compartilhar de sonhos, projetos, conquistas, avaliações, valores, destinações de ofertas e de contribuições dos membros vai gerar credibilidade, sentimento de pertença e amor à causa comunitária de amor à Igreja.
Isso implica no abandono radical de termos e de práticas como inadimplência, sonegação no recolhimento de dízimos, retenção e redestinação de ofertas, perpetuação em cargos de liderança, manipulação de eleições, favorecimentos pessoais, etc. No lugar, fluirão a transparência, a honestidade, o voluntariado, a partilha e a comunhão. Onde a fé e a ética norteiam as ações da vida comunitária, não pode ser diferente.
A pregação da salvação pela graça de Deus cria solo fértil para o cultivo do espírito missionário que acende a chama da fé nas palavras de Jesus: Mais bem-aventurado é dar do que receber (Atos 20.35). Por outro lado, regulamentos impositivos e lideranças autoritárias criam mentalidade clubista e legalista, em que o afastamento e a inadimplência de membros são frutos da Comunidade e não do indivíduo.
Visitar o membro afastado, ouvi-lo e respeitá-lo fará a Comunidade viver a alegria da reconciliação no abraço do irmão, da irmã que retornam para casa, a exemplo do abraço do pai e do filho pródigo, em Lucas 15. O ‘retornante’ traz consigo um fermento de conversão que ajudará a Comunidade a abrir os olhos para novos horizontes missionários.
Regras e leis fazem parte da organização comunitária, mas elas não podem sobrepor-se à vivência da graça de Deus entre nós. Presbíteros, Ministros e lideranças são os primeiros a dar exemplos positivos de participação na Comunidade. Eles são vistos como espelho e, quando se omitem ou barganham privilégios, favorecimentos, compensações, honra ao mérito etc., então a credibilidade da pregação do Evangelho cai por terra.
A prática da justificação pelas obras atrapalha muito nas nossas Comunidades. Falta-nos coerência. As nossas palavras e ações precisam combinar. Também o contribuir generosamente de modo a suprir a parte daqueles ainda chamados de ‘inadimplentes’ é gesto de amor ao próximo. O levar as cargas uns dos outros, conforme Gálatas 6.2, nos enriquecerá com uma nova mentalidade comunitária: eliminará o tabu relacionado ao dinheiro, as finanças estarão em ordem e as ações missionárias serão motivo de gratidão e de alegria dentro e fora da Comunidade.
A Comunidade missionária arruma a casa e vai
Enquanto formos uma Igreja preocupada com a automanutenção, ainda estaremos tateando no escuro do egoísmo que se satisfaz consigo mesmo. Hoje, a IECLB já tem Comunidades em que o termo ‘inadimplente’ foi banido e não são mais feitas comparações constrangedoras. Ali, a contribuição acontece de forma livre e voluntária, os serviços da Comunidade são frutos da graça e a união dos pequenos realiza obras grandiosas, vivendo uma comunhão intensa e apoiando parcerias de caminhada na fé para muito além dos seus horizontes geográficos e dos nossos preconceitos.
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Igreja no contexto onde vivemos |
A Comunidade de Jesus não privilegia os melhor situados financeiramente ou os grandes projetos de fora nem incentiva a isenção dos menos aquinhoados. Em fidelidade ao Evangelho, ela sabe que o amor de Deus nos faz valorizar todos os dons – incluindo os esforços dos pequenos e os recursos locais, por mais modestos que eles sejam. Autenticidade e humildade libertam do culto às aparências e da justifi cação pelas obras.

O ditado dos antigos ‘A gente tem que aprender a se cobrir conforme o tamanho do nosso cobertor’ nos ensina a sermos Igreja no contexto onde vivemos, valorizando os recursos que Deus nos deu. Isso dignifica a Comunidade, desperta o amor à causa do Evangelho, cria laços de comunhão e faz caminhar de braços dados.
O Evangelho de Jesus Cristo nos encoraja a sermos Igreja da estrebaria e da cruz, Igreja onde os Sacramentos do Batismo e da Ceia do Senhor são a força que une em comunhão, que nos faz responsáveis uns pelos outros e onde há maior alegria em dar do que em receber. A Igreja de Cristo vive da graça de Deus e procura praticá-la para com o próximo mais próximo, a começar pelos membros afastados, a acolher os visitantes, a lutar contra os preconceitos, abrindo as portas e indo ao encontro de todos.

P. em. Geraldo Schach,
graduado em Teologia pela Faculdades EST, em São Leopoldo/RS