Pa. Patrícia Bauer, formada em Teologia pela Faculdades EST, em São Leopoldo/RS. Pastora Vice-Sinodal do Sínodo Brasil Central, exerce o Ministério Pastoral na Comunidade de Goiânia/GO
… e viu Deus que tudo era bom
Segundo o relato da Criação do mundo, contido em Gênesis, Deus dedicou-se a criar o mundo a partir das palavras que haja – e houve. A cada dia, a Criação ia sendo ampliada, o mundo ia sendo ocupado: a terra, a luz, o céu, a relva e as suas sementes, as árvores e os seus frutos. Os animais aquáticos e as aves, depois, os animais domésticos, répteis e selvagens. No sexto dia, Deus criou os seres humanos, à sua imagem e semelhança os criou. Deus abençoou homem e mulher e viu Deus tudo quanto fizera, e eis que era muito bom, então descansou no sétimo dia.
Este relato cheio de simbologia lembra-nos que fazemos parte da Boa Criação e dela somos cuidadores e cuidadoras. É por isso que um dos subtemas do Tema do Ano na IECLB inclui a dimensão da nossa liberdade – cuidar da Criação e zelar para que ela não seja vendida, destruída, explorada. Somos livres para cuidar do bem que recebemos.
Hoje, quando olhamos o mundo, o que temos visto? A tendência é percebermos o que não está bom, fazemos isso em todos os aspectos da vida: não têm árvores nas cidades, o ar não é puro, tem lixo nas ruas, as pessoas são egoístas… A lista poderia ser enorme, porém o nosso olhar, por mais crítico que seja, terá que reconhecer: o que Deus criou é bom!
Embora haja sinais de ausência, a essência continua a mesma e é isso que nos leva a cantar Há sinais de paz e de graça, nesse mundo que ainda é de Deus. Em meio aos poderes das trevas, manifestam-se as forças dos céus (HPD 165).
Deus, ao confiar toda a Criação aos seres humanos, os responsabiliza para que a Criação se desenvolva sendo Boa. Não adianta colocar a culpa em Adão e Eva! Se eles erraram, nós continuamos errando
Muito da Criação tem sido prejudicada pela ambição ou pela comodidade humana, seja na exploração ou no consumo excessivo de produtos industrializados. Atualmente, a tarefa consiste em um pouco mais do que preservar a Boa Criação. Em muitos aspectos, urge recriar, reflorestar, reutilizar…
Precisamos reconhecer que, se nem tudo vai bem, não significa dizer que nada permanece bom. Sempre temos a oportunidade de resgatar a nossa maior qualidade, que consiste em termos sido a única parte da Criação feita à imagem e semelhança de Deus, o que não nos faz superiores a nada criado, mas faz que tenhamos um diferencial.
Temos condições de rever, de reinventar! Grandes poderes trazem grandes responsabilidades. Gostaria de inserir esta frase, muito usada, neste contexto e, usufruindo do ‘poder’ que nos foi confiado, convidar para, ao olharmos o mundo, a Boa Criação, manifestarmos a nossa gratidão e reconhecermos: Senhor, meu Deus, quando eu, maravilhado, contemplo a tua imensa Criação, a terra e o mar e o céu todo estrelado me vêm falar da tua perfeição. Então, minha alma canta a ti, Senhor, grandioso és tu, grandioso és tu.
Para refletir, leia Gênesis 1-2.3

P. Handolfo Timm, formado em Teologia e pós-graduado pela Faculdades EST, em São Leopoldo/RS. Pastor Vice-Sinodal do Sínodo da Amazônia, atua na Paróquia Centro de Rondônia, em São Miguel do Guaporé/RO
Somos nós que precisamos da natureza
Vivemos num mundo em crise. Uma das crises, essa também gerada pelo ser humano, é a crise ecológica que enfrentamos. Em certa medida, as crises apontam para a necessidade de rever conceitos de forma imediata, com o intuito de manter a possibilidade da vida em nosso planeta. São assustadores os índices de destruição que nós causamos ao lugar onde moramos, habitamos e existimos.
Ao passear pelo cancioneiro Hinos do Povo de Deus (HPD), nos deparamos com o hino de número 486, que nos diz: Deus quer todo o mundo contente, criou tudo de bom para a gente. Construiu um mundo arrumado, mas que agora ficou bagunçado. Uma bela canção, que fala sobre o cuidado de Deus para que a sua Criação fosse um lugar bom, hospedeiro, agradável e seguro para receber a sua obra prima: o ser humano. A Boa Criação foi colocada em ordem com o fim de que todos na Criação ficassem contentes, fossem felizes.
Ao ser humano foi dada a tarefa de cuidar de todo o restante da Criação: peixes, aves, animais terrestres e vegetação. Ao ser humano coube a função de administrador daquilo que a ele Deus havia confiado. Deus confiou o cuidado para com a Criação ao ser humano, ou seja, a mim e a você. A partir disso, quando o ser humano se deu conta da sua ‘importante’ tarefa de cuidar, pois tinha poder sobre a Criação, é que todo o mundo começou a se bagunçar.
É evidente que muitas coisas evoluíram. Hoje, temos chuveiro quente para aplacar o frio das manhãs de julho, luz, televisão, o que é bom. No entanto, para que isso pudesse chegar até as nossas casas, muitas pessoas perderam os seus lares e muitos quilômetros foram destruídos com hidrelétricas. Temos remédios para dores de cabeça, o que é ótimo, porém, após a dor de cabeça passar, começam as dores no fígado, causadas pelo remédio…
É necessário lembrarmos que a vida no mundo só é possível enquanto o mundo tiver vida. Que, apesar de sermos gestores da Criação, sem Criação não há o que gerir. Precisamos lembrar que, se não cuidarmos bem daquilo que Deus confiou a nós, nós terminaremos sucumbindo junto com a Criação.
Somos nós que precisamos da natureza! Quando destruímos algum pedaço da Criação, é a nós mesmos que estamos destruindo. Quando colocamos os benefícios que teremos com o esfacelamento da natureza à frente da própria natureza, estamos, por assim dizer, assinando o nosso atestado de óbito. Nós, em nome de certo conforto, estamos, aos poucos, impossibilitando a continuação da vida.
É necessário que cuidemos daquilo que a nós foi confiado. Ao cuidarmos da natureza, não apenas cuidamos de animais, plantas e rios. Cuidamos dos nossos irmãos, das nossas irmãs, cuidamos da nossa família, cuidamos de nós mesmos. Ao cuidarmos de tudo isso, estamos cumprindo a vontade de Deus.
Para refletir, leia Gênesis 1