O sacerdócio geral de todas as pessoas que creem é um elemento central da teologia luterana. Apesar do termo “sacerdócio geral” ser um pouco desconhecido, seu princípio é vivido com bastante intensidade na Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB).
Sacerdócio geral de todas as pessoas que creem:
um serviço de gratidão
De onde vem o termo “sacerdócio”
“Sacerdócio” tem ligação direta com o termo “sacerdote”, “sacerdotisa”. De modo geral, define-se sacerdote ou sacerdotisa como a pessoa que ministra sacramentos e tem a tarefa de ser mediadora entre Deus e os seres humanos.
A função de mediação é um elemento presente nas definições mais comuns encontradas em dicionários. Este era também o aspecto fundamental da função sacerdotal na época de Martim Lutero. Mas seria essa a função do sacerdócio geral de todas as pessoas que creem?
Superando uma divisão
A igreja da época de Lutero se caracterizava por uma divisão entre estamento espiritual e estamento secular. A palavra “estamento” significa, basicamente, uma organização ou um grupo em uma sociedade. O estamento espiritual era composto pelo clero (papa, bispos, sacerdotes) e outras pessoas vinculadas à estrutura eclesiástica (freiras, por exemplo). Todas as pessoas que não faziam parte deste círculo estavam no estamento secular.
A divisão entre estamento espiritual e secular trazia consigo uma concepção de categorias desiguais de pessoas cristãs. O estamento espiritual era considerado uma classe superior. Especialmente no caso do clero, a pretensa superioridade era conferida pela ordenação ao sacerdócio. A ordenação, por sua vez, autorizava a função de mediação.
Martim Lutero, que era sacerdote ordenado, questionou a divisão hierárquica de estamentos e a função de mediação vinculada ao sacerdócio. Sua posição se fundamentava na Bíblia e considerava dois princípios:
→ Jesus Cristo é o único mediador entre Deus e os seres humanos (1 Timóteo 2.5-6; Hebreus 4.14).
→ Todas as pessoas cristãs fazem parte do sacerdócio (1 Pedro 2.9; Apocalipse 5.10).
Para Lutero, a conclusão é óbvia: se Jesus Cristo é o único mediador, nenhuma pessoa pode ser intermediária da fé. E se todas as pessoas fazem parte do sacerdócio, não pode haver categorias distintas de pessoas cristãs.
O sacerdócio é a manifestação do Corpo de Cristo
Em uma publicação chamada “À Nobreza Cristã da Nação Alemã, acerca da Melhoria do Estamento Cristão”, Lutero escreveu:
“Todos os cristãos são verdadeiramente de estamento espiritual, e não há qualquer diferença entre eles a não ser exclusivamente por força do ofício, conforme Paulo diz em 1 Co 12.12ss.: Todos somos um corpo, porém cada membro tem sua própria função, com a qual serve aos outros.”
(Obras Selecionadas, volume 2, p. 282).
Percebemos que a concepção de igreja como um corpo, descrita pelo apóstolo Paulo em Romanos 12 e 1 Coríntios 12, é a base para afirmar que todas as pessoas fazem parte do estamento espiritual, independentemente do fato de serem ou não do clero.
“Um sapateiro, um ferreiro, um lavrador, cada um tem o ofício e a ocupação próprios de seu trabalho. Mesmo assim todos são sacerdotes e bispos ordenados de igual modo, e cada qual deve ser útil e prestativo aos outros com seu ofício ou ocupação, de modo que múltiplas ocupações estão voltadas para uma comunidade, para promover corpo e alma, da mesma forma como os membros do corpo servem todos um ao outro.”
(Obras Selecionadas, volume 2, p. 284).
Justamente por haver somente um corpo, não se pode concordar com a divisão em estamentos. Ao dizer que o clero está em um estamento e as demais pessoas em outro, pressupõe-se a existência de dois corpos. Isto contraria o princípio bíblico do único corpo de Cristo.
Um só Batismo, um só evangelho e uma só fé
Além da concepção de igreja como um corpo, Lutero destacou outros três itens na argumentação contrária à divisão entre estamento espiritual e estamento secular: temos um Batismo, um Evangelho, uma fé e somos cristãos iguais, porque é só Batismo, Evangelho e fé que tornam as pessoas espirituais e cristãs (Obras Selecionadas, volume 2, p. 282).
Lutero não apenas combateu uma pretensa divisão, mas afirmou a igualdade, garantida pelo mesmo batismo, mesmo evangelho e pela mesma fé.
Qual é a função do sacerdócio geral?
Na compreensão luterana, o sacerdócio tem a função de serviço. Aqui percebemos uma mudança significativa: não é a mediação que caracteriza o sacerdócio, mas o serviço. E o que significa este serviço?
O serviço do sacerdócio nada mais é do que o testemunho e a vivência do evangelho de Jesus Cristo. Isto cabe a toda pessoa batizada. Por isso também se chama sacerdócio geral de todas as pessoas que creem.
Ao proclamar e vivenciar a palavra de Deus, a pessoa batizada assume participação na obra que Deus realiza no mundo. Este aspecto está bem retratado no documento Nossa Fé – Nossa Vida, que é o Guia Comunitário da IECLB. Ali nós lemos:
“Quem realiza a obra de Cristo no mundo?
Todos nós, como membros da Igreja de Cristo, somos sacerdócio real, representantes de Deus, encarregados por ele mesmo de proclamar e viver a boa-nova da salvação em Cristo no ambiente em que vivemos.”
Jesus resumiu todos os mandamentos no amor a Deus e às pessoas (Marcos 12.28-31). Este amor cristão encontra na diaconia – que significa serviço – sua expressão máxima. Na prática do amor, da diaconia, as obras de Cristo são realizadas e o sacerdócio geral é exercido.
Para a vivência do sacerdócio geral não são necessários dons ou habilidades especiais. Evidentemente, há pessoas que possuem dons e habilidades diferentes. Uma pessoa tem o dom da música, outra tem o dom de falar com desenvoltura, outra tem o dom de ouvir, de liderar, de realizar trabalhos manuais, e assim por diante. Os vários dons são colocados em prática sempre a serviço.
O sacerdócio geral é obrigação?
Deus chama cada pessoa para proclamar e vivenciar a palavra de Deus. Mesmo assim, é equivocado chamar o sacerdócio geral de obrigação. Antes, o sacerdócio geral é uma responsabilidade de toda pessoa batizada porque o batismo nos insere no Corpo de Cristo. E, em um corpo, cada membro recebe e coopera com o corpo.
Deus nos inclui no Corpo de Cristo por amor. Foi por causa do amor de Deus que recebemos a justificação. Em Jesus Cristo, Deus absorve a nossa injustiça e nos dá a sua justiça, concede o perdão e nos torna pessoas justas. É isto o que chamamos de “justificação” na teologia luterana. Portanto, o amor de Deus é a origem do sacerdócio geral.
A pessoa que reconhece o que Deus fez por ela, não permanece de braços cruzados. Em resposta aos braços estendidos na cruz, se coloca a serviço de Deus e das outras pessoas. E não faz isto por obrigação ou para conseguir algo em troca, mas porque já recebeu, gratuitamente, a justificação. O sacerdócio geral é resposta ao amor de Deus, é serviço de gratidão a partir da fé.
Para refletir: como posso exercer o sacerdócio geral na comunidade e em outros ambientes (no trabalho, na família, na relação com outras pessoas)?
Texto: Pastor Dr. Emilio Voigt
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