Um lugar especial para compartilhar alegrias, tristezas, fazer amizade, tirar dúvidas de fé, celebrar. Um espaço onde os estudantes podem se abrir, falar das saudades de casa, das dificuldades de se adaptar nos estudos, das dificuldades financeiras. Também é um lugar onde se aprende a ter confiança nas outras pessoas, na certeza de que tudo que é compartilhado no grupo ficará no grupo.
O Grupo de Convivência que é acompanhado pelo professor Verner Hoefelmann – Foto: Ingelore S. Koch Estas são algumas definições de estudantes que integram um dos seis Grupos de Convivência da EST, centro de formação de obreiros e obreiras da IECLB, em São Leopoldo (RS). A atividade teve início em março de 2006, visando os alunos do primeiro e do segundo ano do bacharelado em Teologia, e está sob a coordenação geral da diaconisa e psicóloga Ms. Hildegart Hertel, como voluntária, e da pastora Ms. Iára Müller, da Pastoral da EST. Três grupos são de alunos que ingressaram na EST em 2006 e outros três reúnem estudantes que entraram neste ano. Os encontros são quinzenais e cada grupo é acompanhado por um professor ou uma professora e um colega veterano.
O pastor Dr. Emilio Voigt, coordenador da Educação a Distância da EST, o pastor e professor Ms. Verner Hoefelmann e a professora Ms. Selenir Gonçalvez Kronbauer acompanham os três grupos do primeiro ano; os pastores e professores Ms. Osmar Witt e Dr. Rodolfo Gaede e a pastora Iára Müller atuam junto aos do segundo ano.
Pastora Iára Müller e seu grupo do 2º ano, na sala da Pastoral – Foto: Joana Haar Karam
Reunir os estudantes novos, em grupos pequenos, para trabalhar mais intensamente a sua espiritualidade, é um desejo antigo na EST e atende também expectativas das comunidades IECLB. Muitos ex-professores defendiam esta idéia, expõe Hildegart Hertel.
Mas, por muito tempo, esta idéia ficou no desejo, até que a demanda veio das próprias comunidades e instituições onde os estudantes passam a atuar depois de concluir os estudos de Teologia. Notou-se um déficit entre o crescimento cognitivo/objetivo e emocional/subjetivo dos recém-formados para assumir as tarefas que os esperam na base da IECLB.
Estas constatações foram refletidas e estudadas durante o ano de 2005 na EST, por professores, representantes dos sínodos da IECLB, profissionais liberais e estudantes veteranos. Decidiu-se, então iniciar, em forma de projeto piloto, a experiência de pequenos grupos com um coordenador e um estudante que já tem vários anos de caminhada na EST.
Questões como sigilo, vocação, história de vida de cada um e assuntos emergentes são tratados quinzenalmente, mas o mais importante é que o grupo torna-se muito afinado entre si, criando uma capacidade de se sentir bem e de ser um impulso para a vida na EST, testemunha a pastora Iára. No início e no fim de cada semestre os seis grupos se reúnem em atividade conjunta, preferencialmente fora da EST, para celebrar e se divertir.
Professora Selenir Kronbauer (2ª da esq.) e seus pupilos de convivência do primeiro ano – Foto: Erivelton S. Demari Os professores envolvidos e os estudantes veteranos também precisavam ser preparados para essa tarefa que não é fácil, pois demanda conhecimento de dinâmicas de grupo e bem-estar pessoal em colocar questões pessoais diante do grupo, agrega Iára. Assim, professores coordenadores e estudantes veteranos passam por sessões de grupo também, entre eles mesmos, antes de fazerem os grupos com os estudantes de primeiro e segundo ano. Com isso se quer ter uma coerência no aprendizado de vida de grupo, no ser sigiloso e no preparar-se para compartilhar.
Na visão da pastora, se o estudante for muito interessado, no fim dos dois anos de experiência terá material, dinâmicas e textos para muito trabalho em grupo, pois as sessões são sempre dinamizadas e bem pensadas.
“Com toda essa instrumentalização, penso que os estudantes saem aprendendo muito sobre como ser sigilosos e éticos, pois são confrontados nos grupos com temas, textos bíblicos que os desafiam a pensar além da sala de aula. Cresce um clima de amizade e confiança que torna o grupo um espaço diferenciado na EST”, expressa Iára Müller. Ela diz notar que os estudantes que ingressaram nesse projeto piloto de Grupos de Convivência, instalado em 2006, na Teologia, “é um grupo afetivo, solidário, interessado em trabalho voluntário, criativo e muito participativo na vida da EST”.
“Caminhar junto, passo a passo, não se faz sem um profundo comprometimento com a causa. É isso que dá para sentir nos professores, alunos veteranos, como alunos novos. Para que mudanças aconteçam é preciso arriscar e amar”, ensina a psicóloga.
DEPOIMENTOS DO 1º ANO – Para Joel Sandro Frederico, o Grupo de Convivência “é como uma árvore no deserto, um refúgio, uma ajuda nas angústias”. No entender de Beatriz Regina Haacke, “é uma ajuda na questão da espiritualidade, um sentimento que aquieta”. Para Gislaine Rodrigues, é um grupo que faz bem, e suas meditações podem ser aproveitadas também fora do grupo. “É um momento só meu. Onde posso me reabastecer”, declara Eliana Fehlberg.
Na sala da convivência, um dos grupos do 1º ano com o professor Rodolfo Gaede – Foto: Ingelore S. Koch Para Ettiene Mittanck, a presença do professor faz muita diferença, pois se pode falar no grupo o que não se fala em sala de aula. Dá oportunidade de compartilhar diferentes opiniões sobre temas já abordados, como sexualidade, sofrimento. “É um grupo de espiritualidade, onde se pode ter confiança nas pessoas… e me ajudou a perceber mais claramente por que estou aqui e isso foi muito importante”, expressa Ettiene. Para ela, esse convívio é uma ajuda em sala de aula e fora dela, e leva a entender por que a colega age desse ou daquele jeito. Para Ettiene, o convívio e os cantos no grupo compensam a falta e a saudade que sente de sua comunidade, onde era orientadora de Culto Infantil e liderança jovem.
Valmiré Martin Littig percebe o Grupo de Convivência como oportunidade para interagir com os colegas, de ter um encontro que alivia a saudade da família, de aprendizado, de perder um pouco a timidez, de criar confiança nos colegas.
O grupo do 1º ano que é acompanhado pelo pastor Emilio Voigt (3º da dir.) – Foto: Ingelore S. Koch Lenira Kloss não esconde que o início do semestre foi muito difícil, de muita saudade. A convivência com colegas e amigos é que ajudaram a diminuir a saudade e as dificuldades. “O Grupo de Convivência é um lugar onde se fala tudo. Onde a gente se sente bem à vontade. O mais importante é poder falar e ser ouvida”, testemunha. Ela debita à saudade e às dificuldades financeiras as notas “não tão boas no Grau ‘A’”, mas tem esperança que tudo vai melhorar. “Não é por acaso que estou aqui. Desde a 5ª série eu quero ser pastora. Vim para me arriscar. Por enquanto está dando para ficar”, declara a capixaba da Paróquia de Rio Ponte-Domingos Martins. Ela já se alegra em poder rever a sua família na viagem do Coral da Faculdade de Teologia ao Espírito Santo, em julho.
DEPOIMENTOS DO 2º ANO – Para Gleidson Fritsche, o Grupo de Convivência é um espaço onde a convivência é maior do que no dia a dia. É um lugar especial para compartilhar alegrias, tristezas, dificuldades, na certeza de que tudo ficará no grupo. “Há um voto de silêncio que não pode ser quebrado”, ressalta. Gleidson aponta também para o fato de nem todos os alunos que ingressaram em 2006 e 2007 estarem participando da atividade, e reforça que “não se pode obrigar os colegas a aceitar o trabalho do grupo”.
Professor Osmar Witt (dir.) reúne grupo do 2º ano em sua casa – Foto: Ingelore S. Koch “Um lugar onde os estudantes podem de fato se abrir e confiar nas pessoas”, é como o Grupo de Convivência é visto por Jean Fernando Bork. É um lugar de amigo para amigo, que favorece a amizade, uma amizade que se estende para os outros estudantes e fortalece a espiritualidade na EST, agrega Jean. “É um lugar de sigilo e, ao mesmo tempo, de confiança entre todos os grupos”. Jean lamenta que haja estudantes que não integram os grupos estarem criticando este trabalho. “É nossa responsabilidade passar o espírito dos grupos aos outros colegas”, acrescenta.
Grégori Rogê Santos vê os encontros do grupo como aquele lugar onde podem ser discutidas dúvidas de fé e, ao mesmo tempo, haver espaço para descontração, piadas, brincadeiras, louvor, de aproximação entre professor e aluno. Quebra também o preconceito de que professor é professor e mostra que não há diferença entre professor e aluno. O grupo favorece a integração, aponta Gregori. Ele assegura: “O déficit de espiritualidade que pode haver na EST é preenchido nos grupos de convivência”.
Erivelton Schwantz Demari ingressou na EST em 2004, é um dos veteranos num dos grupos dos novatos e acha a experiencia fabulosa. “Trocamos experiências de vida e fé com aqueles que estão chegando na EST. São olhares para a vida da forma como a comunidade vê. É enriquecedor. Há comprometimento e muito dialogo. Somos solidários com as perguntas e respostas”, testemunha. (Texto: Ingelore S. Koch)