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Proclamar Libertação – Volume 10
Prédica: João 15.(18) 26-16.4
Autor: Martin Weingaertner
Data Litúrgica: 7º Domingo da Páscoa/Exaudi
Data da Pregação: 19/05/1985

 

1. Enfoque detalhado do texto

Nos caps. 13 a 17 do Evangelho de João, Jesus prepara os discípulos para a sua partida. No contexto desta perspectiva geral o texto acima aborda o ódio que os discípulos sofrerão no mundo. A delimitação da perícope por parte dos liturgos alemães não foi feliz: o tema já inicia no v.18, e a relação entre a cruz de Cristo e a do cristão, abordada a partir dali, não pode, jamais, ser omitida. Por isso o pregador fará bem, se iniciar com 15.18.

1.1 – A origem da cruz dos discípulos

V.18: O sofrimento ao qual Jesus se refere é o sofrimento oriundo do fato de ser discípulo de Jesus. Este é um sofrimento distinto daquele que alguém sofre em consequência do mal que cometem: Não sofra, porém, nenhum de vós como assassino, ou ladrão, ou malfeitor, ou como quem se intromete em negócio de outrem; mas, se sofrer como cristão, não se envergonhe disso, antes glorifique a Deus com esse nome. (1 Pe 4.16-16).

O discípulo que sofre por sua fé é lembrado por Jesus do seu próprio sofrimento: o ódio que os cristãos sofrem são apenas respingos do ódio que Jesus mesmo sofreu. Rm 6.8 também vale inversamente: quem por Jesus tem parte na ressurreição, na vida eterna, participa também na sua morte. É a cruz de Cristo que faz o discípulo ver a sua cruz na perspectiva certa: somente nesta relação nossa cruz te torna um fardo leve (Mt 11.30). Somente enquanto permanecer lembrado disto, o discípulo poderá tomar a sua cruz e seguir a Jesus.

V.19. A razão do ódio do mundo é que este perdeu a posse dos discípulos. Eles já não mais lhe pertencem. E, neste ponto, o mundo tem um faro muito delicado: ele sabe distinguir entre o que é seu e o que já não mais lhe cabe. Obviamente um cristianismo com o qual o mundo simpatiza e que ele, talvez, até reconheça, não é de Cristo. Pois, os discípulos foram tirados por Jesus da esfera de domínio do mundo e por isso o mundo sempre irá odiá-los. Os discípulos servem unicamente ao seu Senhor Jesus e por isto não mais são servis a ninguém.

Em 1947, na Lituânia, uma velha babuchca foi flagrada por soldados ao repartir o seu parco pio com prisioneiros de um campo de concentração próximo de sua casa. Levada à presença do comandante, este a ameaçou prendê-la caso voltasse a praticar tal sabotagem. Ao que ela lhe respondeu: Senhor comandante! Eu sempre reparti o meu pão. Primeiro com os nacionalistas que o czar prendia aqui. Mais tarde o reparti com os bolchevistas que os nacionalistas prenderam. Depois compartilhei-o com os nacionalistas que os comunistas prenderam. Durante a guerra os alemães prenderam os comunistas, que também comeram do meu pão. Agora o reparto com os alemães que vocês prendem aqui. E, se algum dia o senhor tiver que ficar aqui, também consigo repartirei o meu pão.

V.20: Justamente por não serem do mundo e não se sujeitarem ao mesmo, os cristãos são objeto do ódio. Nisto, aliás, não são maiores do que seu Senhor. Se este não teve onde reclinar a sua cabeça, os seus discípulos não devem sonhar com vida burguesa tranquila. Seguindo seu Senhor, hão de assumir a cruz, na qual experimentam a legitimidade do seu seguimento.

Vv. 21-22: A raiz última do ódio do mundo está no fato de que ele não conhece nem reconhece aquele que enviou o Filho. O ódio é fruto da rebelião do mundo contra seu Criador, cujo senhorio não admite. O mundo quer ser autônomo como os lavradores da vinha em Mc 12.1-12. E justamente o envio do Filho comprova sua rebelião (= grilagem) e os priva de toda desculpa. A palavra do Filho faz valer o direito de propriedade do Pai e desmascara o mundo. Desmascarado, este reage com ódio.

Vv. 23-25: Assim o ódio contra os discípulos é respingo do ódio ao Filho e, simultaneamente, também do ódio ao Pai. É rebelião contra o Criador. A obra do Filho no mundo revela o Pai. Com isso, o mundo fica privado de todo subterfúgio, e, sem álibi, só pode odiar sem motivo, tornando-se, pois, indesculpável (Rm 1.20).

1.2 – A defesa dos odiados

Vv. 1 -4: Nesta situação ameaçadora os discípulos realmente correm perigo! Não corriam perigo antes, porque Jesus estava com eles. Isto é: Jesus mesmo era o para-raios no qual o mundo descarregava o seu ódio.

Mas com a sua partida os discípulos mesmos passarão a sofrer tal ódio. A exclusão da sinagoga não foi um ato isolado de arbitrariedade, mas é o ponto culminante do protesto orquestrado do mundo, que em sua cegueira julga estar cumprindo a vontade de Deus. Na atitude de Paulo antes de sua conversão temos um exemplo concreto deste protesto: “Saulo, respirando ainda ameaças e morte contra os discípulos do Senhor, dirigiu-se ao sumo sacerdote, e lhe pediu cartas para as sinagogas de. Damasco, a fim de que, caso achasse alguns que eram do Caminho…, os levasse presos para Jerusalém” (At 9.1-2). E, agindo assim, considerava estar tributando culto a Deus (cf. Fp 3. 4-6).

Vv. 26-27: Neste contexto Jesus anuncia o Consolador! Em grego é usada uma expressão que significa advogado, defensor. Também após a sua partida, Jesus não deixará seus discípulos por conta, mas assume a sua defesa, que procede do próprio Pai. Expostos a este litígio de posse entre Deus e o mundo, os discípulos experimentam defesa concreta e eficaz.

Assim o discípulo ameaçado não precisa agir em defesa própria, mas pode continuar a dar testemunho daquele que é Senhor: somente assim entendemos a atitude do apóstolo Paulo e de Silas (At 16.23ss) que, depois de torturados e presos, louvavam ao Senhor sem fazer uso da oportunidade de fuga que tiveram. Só quem realmente se sabe defendido e guardado por alguém maior do que o perseguidor, pode manter a serenidade de continuar a testemunhar o amor de Deus aos seus torturadores (cf. Estêvão, At 7.60).

Pelo espírito da verdade o discípulo perseguido e odiado é certificado da vitória de Cristo (cf. Ef 1.20-23; Mt 28.18-20), contra as evidências concretas que por ora experimenta. Antes do dia da vinda de Cristo o discípulo crê contra as aparências e evidências. Somente assim permanece inabalável o testemunho. Este provém do Pai e jamais pode ser silenciado e amordaçado.

 

2. Pistas para a pregação

Realmente importa não omitirmos em que contexto Jesus anuncia a vinda do Consolador. Ele não anuncia esta experiência edificante a pseudocristãos, cuja existência se caracteriza pela sintonia com o mundo e pela fuga da cruz. Nem tampouco Jesus o promete a criptocristãos, cujo discipulado se restringe ao foro íntimo. Anunciar o Consolador a pseudo e criptocristãos é privá-los do arrependimento e da submissão a Jesus. A introversão em nossa Igreja não tem defesa, nem o compactuar com o mundo e sua corrupção.

Por isso, devemos deixar bem claro que Jesus fala a discípulos que vivem sob seu senhorio e que dão testemunho público do mesmo. Neste testemunho, porém, tais discípulos, mais do que vitórias.
experimentam derrotas e ameaças. Estas perturbam e confundem atingindo as testemunhas em seu ser. Justamente a estas testemunhas cambaleantes Jesus anuncia o Consolador.

Mesmo restringindo-se a poucos em sua promessa, nossa perícope não deixa de ser um desafio para todos, na medida em que os convida a envolver-se com este Jesus sem receio e temor, visto que ele, como Senhor de todos os poderes, realmente garante a defesa de quem se entrega a ele.

 

3. Subsídios litúrgicos

Uma citação de Lutero: De um livro tu jamais vais orar algo bom. Tu podes ler nele e instruir-te de como deves orar, e te inspirar nele; mas a oração deve brotar livremente do coração, sem qualquer palavra pronta e prescrita, e deve mesmo articular-se em palavras, nas quais o coração arde. (Wa 17 II, 49, 16ss)

1.Confissão de pecados: fazer o balanço da falta de testemunho em sua vida e na vida da comunidade; articular o medo e receio reinantes; a vergonha que nos fez calar precisa ser confessada concretamente; as pessoas e os grupos aos quais ficamos devendo o Evangelho têm nome!

2. Assuntos para a oração final: agradecer pela defesa experimentada; talvez alguém na comunidade poderá compartir uma experiência bem concreta com o Consolador; interceder pelo testemunho dos discípulos; eles têm nomes e tarefas concretas; interceder pelo testemunho não apenas a nível mas também no horizonte universal; encerrar com louvor.

 

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Proclamar libertação é uma coleção que existe desde 1976 como fruto do testemunho e da colaboração ecumênica. Cada volume traz estudos e reflexões sobre passagens bíblicas. O trabalho exegético, a meditação e os subsídios litúrgicos são auxílios para a preparação do culto, de estudos bíblicos e de outras celebrações. Publicado pela Editora Sinodal, com apoio da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB).

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