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Proclamar Libertação – Volume 13
Prédica: 1 Coríntios 2.1-10
Autor: Werner Kiefer
Data Litúrgica: 2º Domingo após Epifania
Data da Pregação: 17/01/1988

 

1. Considerações gerais

A pregação de Paulo em Corinto desencadeou conflitos que o fizeram refletir sobre o caráter da sua pregação e vivência cristã. Esta atitude aponta para as dificuldades que o pregador(a) sofre quando leva a sério a mensagem do evento da crucificação de Jesus Cristo.

Corinto é uma cidade portuária expressiva no Império Romano. O grande fluxo migratório para a cidade movimentou indústrias artesanais. A migração facilitou o encontro de várias culturas, povos, raças e, consequentemente, o afloramento de cultos até então desconhecidos ao próprio cristianismo.

A migração não é uma exclusividade da cidade de Corinto. É um fenômeno que acompanha a humanidade no seu decurso histórico. A migração é fruto da organização social do trabalho imposta pelo sistema político que privilegia o capital. Este processo tem por consequência o empobrecimento das massas trabalhadoras no campo e na cidade, forçando-as a buscar um novo começo de vida (região amazônica). Todavia é ilusório pensar que na região amazônica tudo é novo. O novo está na paisagem, lugar geográfico. Os velhos problemas, como o da migração, também continuam a vigorar nesta região amazônica. O que difere de imediato no novo, é o grande florescimento de religiões, seitas. O mercado religioso toma-se abundante.

Esta situação do novo, como também em Corinto, decorrente da migração, provoca insegurança e consequentemente a fácil aceitação da religião que somente propõe a salvação d’alma, a cura de doenças, a propagação de ideias que amortecem a violenta realidade social. Estas igrejas têm-se desenvolvido com tamanha facilidade no Brasil, ultimamente, que os seus templos deixam perplexos os não crentes.

A pergunta que surge numa situação tão confusa, de crentes e não crentes, é a de como mergulhar nela para indicar os rumos de Deus que passam pela cruz de Jesus Cristo. Como ser profeta do seu tempo, que tem como eixo da sua fé a cruz?

A fé coloca o cristão também na postura de ouvinte, percebendo assim os mecanismos do sistema político, as ideologias advindas de religiões que sustentam a injusta realidade social brasileira. A igreja que não se deixa renovar, ao deixar-se confrontar com a injusta realidade na qual ela vive, corre o risco de perder o novo da fé, de aliar-se ao mundo e aos seus valores negativos à vida. Cristo é o mesmo, mas o seu recado deve ser dado de forma diferente em cada nova situação social e pessoal confrontada. Por isso a Igreja de Jesus Cristo deverá confrontar-se com a linguagem, ideologias, sistemas políticos do seu tempo, para poder articular-se evangelicamente dentro da sua realidade social.

Na comunidade de Corinto a mensagem de Cristo encontra-se num terreno novo, no qual deverá ser definido com clareza o evento de Jesus Cristo. A carta de Paulo deve ser vista como um documento de luta interna do cristianismo em busca da verdade cristã. (Brakemeier, p. 10). Paulo tem a tarefa de articular o evangelho num contexto social confuso, no qual a cruz recebe ênfase em confronto com as ideias alienantes advindas de correntes filosóficas que também preconizam a salvação.

 

2. O texto

Tomaremos como tradução a versão de A Bíblia de Jerusalém.

Após o surgimento de problemas na comunidade de Corinto, na qual Paulo esteve por mais de um ano, este faz uma avaliação do seu jeito de pregar o evangelho e as implicações práticas para a vida comunitária (vv. 1-5).

Paulo é vocacionado por Deus para ser militante do seu reino sem recorrer à sabedoria da linguagem, a fim de que não se torne inútil a cruz de Jesus Cristo (1 Co 1.17). Entre os coríntios, onde existem categorias de compreensão variadas para entender o evangelho e o uso de retóricas brilhantes para fascinar os ouvintes, o apóstolo Paulo vale-se de uma simplória humildade, para que o Espírito de Deus possa agir no seu falar e agir (v.5). Não toma como princípio básico a retórica para a proclamação do evangelho. Não que Paulo tenha desprezado os artifícios da linguagem no acabamento das suas cartas. Ele estava consciente de que o bom orador pode ofuscar o conteúdo do evangelho, quando se vale exclusivamente do prestígio da palavra (v.1). Os dons da linguagem, a retórica, devem servir ao conteúdo do evangelho e não para a busca de prestígio pessoal.

O apóstolo visa a promoção do reino de Deus. Toma cuidado para não ofuscar o poder de Deus através da autoridade que tem como pregador. Por isso, a sua avaliação passa pela cruz. Os coríntios a rechaçaram, não há lugar para cruz no sistema de compreensão de seu mundo. Paulo a toma como ponto de partida, para o discernimento para a verdade (v.2). A pregação é legítima se aponta para a cruz de Jesus Cristo como evento de libertação. Caso contrário, a pregação será sabedoria humana, apontando para a promoção pessoal.

O presente texto não quer esvaziar o evento da ressurreição de Jesus Cristo. Enfatiza-se a cruz num tom polémico pelo fato de a comunidade considerá-la como fase ultrapassada da fé cristã. A cruz é loucura (1 Co 1.18), escândalo (1 Co 1.23). A comunidade se isola do Cristo crucificado na sua fé, e consequentemente a sua prática remete-se para rixas internas, criação de partidos (1 Co 1.12). Esta compreensão unilateral do evangelho desembocou na marginalização do mais fraco, inclusive na própria celebração da santa ceia (1 Co 11.17ss).

A ressurreição de Jesus Cristo nos assegura alegria, vitória já agora. No entanto, essa alegria nos compromete com a cruz de Jesus Cristo. A cruz liberta e compromete com a nossa realidade histórica com todos os seus males. Ela nos faz olhar para baixo, faz com que nos envolvamos com os desgraçados da sociedade, convidando-os para a participação no grande banquete de Deus (Lc 14.15-24).

A fé leva o cristão a uma atitude de receio e tremor (v.3). Esta expressão refere-se a uma fórmula já usada no AT: Ex 15.16; Dt 2.25; SI 55.5 e aplicada por Paulo (Fl 2.12; 2 Co 7.15). Não podemos extrair do v.3 um perfil psicológico do apóstolo ou das suas limitações pessoais (2 Co 12.7ss). Evidencia-se aqui uma postura daquele que está sob o juízo de Deus, que sabe das suas limitações pessoais e está atento em não transformar o evangelho em sabedoria humana.

A falta de humildade na vida cristã se evidencia também na falta de solidariedade com os empobrecidos da sociedade. Deus deixa de ser Deus onde a comunidade se gloria dos seus bens materiais, dos seus privilégios, de seus dons. A comunidade que não instrumentalizar os seus dons e bens materiais estará negando a cruz de Jesus Cristo.

A postura assumida por Paulo na pregação do evangelho não se caracterizou com esplêndido brilho retórico (v.4). A sua presença na comunidade é tida como fraca (2 Co 10.10). A comunidade certamente assim se expressa pelo fato de seu pastor não compactuar com o seu esquema, utilizando-se da sabedoria de então para a proclamação do evangelho, aparentemente tão aplaudida por ela.

A fé tem a sua base no poder que vem de Deus (v.5). Na cruz revela-se a sabedoria de Deus. Para os coríntios a cruz de Jesus Cristo é um espinho na carne. Ela não impressiona, não tem atos de poder para seduzir a comunidade. Por isso a cruz é tolice, escândalo da pregação cristã. Mas, em contraposição, festejam com todo entusiasmo o Cristo erguido do sepulcro. Os coríntios se entrincheiraram exclusivamente atrás da proclamação da realidade da ressurreição, obscurecendo a cristologia que nos remete sempre de novo para a realidade da cruz.

A sabedoria pode ser usada positivamente para a edificação do reino de Deus (v. 6-9). Poderá ser instrumento na sinalização do reino de Deus e servir à sua causa. Para tal, Paulo nos incentiva a sair das ideias do mundo religioso, usar novas terminologias para clarear o evento Jesus Cristo. Devemos confrontar os valores sociais vigentes com os ao evangelho. Paulo combate os entusiastas cristãos como que com as suas próprias armas e no campo por eles escolhido (Kaesemann, p. 40).

A presente comunidade desenvolve uma cristologia da sofia (sabedoria) comprometida com a busca da perfeição pessoal em detrimento do mais fraco. Os perfeitos (v. 6) verdadeiramente são aqueles que entendem ser a palavra da cruz a sabedoria de Deus. Logo, para Paulo, perfeitos não se refere a uma virtude, obra humana, mas é graça de Deus concedida ao pecador. Somos perfeitos na medida em que a graça de Deus é oferecida a nós e nós a aceitamos. Não se busca a perfeição em si mesma, mas no comprometimento com o evangelho.

Os príncipes deste mundo não podem ser vistos apenas como poderes espirituais (1 Co 15.24-25; Ef 6.12). Foram eles que crucificaram a Jesus (v.8). O evento da crucificação de Jesus Cristo teve um período histórico, no qual aluaram governantes que concordaram com a eliminação, com a morte de cruz de Jesus Cristo. Paulo admoesta a estes poderosos para a transitoriedade de seu poder, estão voltados à destruição (v.6). A crucificação de Jesus é libertação, mas é juízo de Deus para aqueles que pensam e agem como donos do mundo. A história já os está julgando. O sangue daqueles que o derramaram por justas causas, grita por justiça na face da terra. A morte de mártires não é o fim, como pensam os poderosos, mas transforma-se em força na luta por uma sociedade mais justa. A morte transforma-se em vida.

O v. 7 faz um paralelo com os sistemas gnósticos, que ligam Jesus ao mito da sabedoria (Mt 11.19; Lc 7.35). A comunidade embarcou no sistema gnóstico e creem assim ter parte da sabedoria divina. Isto significa que já ressuscitaram com Cristo sem passar pela baixeza da cruz de Jesus Cristo.

A sabedoria não luta contra a razão (v.8). Ela está em conflito com a fé quando se torna um instrumento que não dá espaço para a atuação do Espírito de Deus. Os príncipes deste mundo acham-se fortes, revestidos da sabedoria que lhes dá poder de dominar o mundo conforme os seus interesses. Não compreendem que a sua sabedoria já foi derrotada com a morte e ressurreição de Jesus Cristo. Os poderosos se julgam muito sábios e astutos, crucificando o senhor da glória, e não percebem que, muito contra a sua vontade, se tornam colaboradores na obra salvífica de Deus. Eles não conhecem a sabedoria de Deus, por isto são tolos de crucificar Jesus. (Brakemeier, p. 42)

A citação do v. 9 faz-nos encontrar semelhança apenas com Is 64. Pode-se ter um paralelo com leitura gnóstica, que se orgulha de estar em posse do mistério que olho algum tem visto e ouvido algum tem percebido. Paulo confronta este pensamento com a teologia da cruz, na qual Deus revela a sua sabedoria, outrora oculta.

O mistério da cruz é revelado pelo poder do Espírito Santo (v.10). É o próprio Deus pelo seu poder do Espírito que nos abre os olhos, que nos dá noção de Deus e faz enxergar a sabedoria dê Deus na cruz. (Brakemeier, p. 46) O Espírito é o instrumento da revelação e que não conhece fronteiras, vai até as profundezas, tudo sonda.

 

3. Mensagem

O texto em apreço confronta a nós pregadores(as) com o perigo de esvaziarmos o sentido da cruz de Jesus Cristo. Ela é esvaziada, negada, quando não conhecemos mais as nossas limitações, quando centra-se em nós a preocupação com a imagem que a comunidade tem de nós. A cruz de Cristo é traída quando não apontamos para as injustiças sociais: sofrimento, violência, fome, conflitos, para os irmãos(as) migrantes e favelados.

A cruz torna-se sabedoria humana quando usamos o evangelho, como meio para fazer a nossa imagem, na promoção da nossa autoridade, busca de prestígio. De outro lado, devemos usar os nossos dons, a nossa capacidade intelectual para a proclamação do evangelho com toda força. A nossa preocupação deverá ser a de vincular a comunidade em compromisso com os valores do evangelho. O evangelho deve inspirá-la para a luta por uma sociedade fraterna, onde o reino de Deus seja promovido.

Paulo nos incentiva a usar terminologias novas, sair do mundo religioso. Usar uma linguagem contemporânea onde a cruz de Cristo cause mais impacto na comunidade. Redefinir os valores do evangelho em confronto com os valores tidos assim como normais em nosso meio.

Sempre que for corretamente pregada e vivida, a cruz será tropeço, escândalo, loucura, inversão de valores, ela vira o mundo de cabeça para baixo e nos compromete; desafia, liberta, justifica, por graça, o pecador(a). Na cruz de Jesus Cristo o cristão sabe que aí Deus realizou a sua obra libertadora por excelência e ela nos remete já agora para uma nova vida.

Deus revela a sua sabedoria na cruz. Que decepção para o mundo que revela a sua sabedoria em grandes projetos, quer chamar atenção para a sua grandiosidade através de grandes obras que são frágeis e passageiras. Estas alienam, escravizam, matam.

 

4. Pistas para a prédica

1. Considerando que o referido texto está previsto para o  domingo após Epifania, deve-se dizer que o Cristo nascido em meio à palha também tem cheiro de palha na sua caminhada pela sociedade. Como filho de Deus, revela o poder na fraqueza.

2. Contrastar a fraqueza de Deus com os poderosos, homens e mulheres, que queremos ser. Gostamos de grandes projetos humanos, os admiramos. Nas grandes coisas queremos mostrar o que somos e podemos realizar. Nisto nos identificamos. Porém, a constante migração do nosso povo é sinal evidente de que grandes projetos enriquecem só alguns poucos e empurram muita gente para a periferia, pobreza, para fome e violência, para as novas áreas de colonização. Ali os velhos sistemas de morte continuam a vigorar. A não existência de uma autêntica reforma agrária faz gerar violência em nosso país.

3. A fé que advém do evento de Jesus Cristo possibilita uma nova vida. Porém, essa nova vida é legítima se tem como fundamento a cruz, o eixo que inspira mudanças profundas na comunidade. Sem aceitação da cruz de Jesus Cristo não existe libertação, transformação que vigore e tenha fundamento sólido. Caso contrário, sempre será sabedoria humana, algo passageiro.

4. Num contexto abundantemente religioso poderá enfatizar-se que leis não libertam. Jesus não ensinou um novo código de leis, mas nos deixou um mandamento que ele seguiu até as suas últimas consequências: Amai-vos uns aos outros… (1 Jo 3.23). Leis são sabedoria humana quando visam doutrinar e não dão espaço para a atuação de Deus. Ele revela a sua sabedoria na cruz e não em leis.

A pregação deveria objetivar a concreticidade da mensagem da justificação por graça e fé, que tem a cruz e ressurreição de Jesus Cristo como mola propulsora.

 

5. Subsídios litúrgicos

1. Confessamos a nossa culpa: Ó Senhor, a ti chegamos novamente porque pecamos contra ti e contra os nossos companheiros(as). Vivemos a nossa vida como se fôssemos donos do mundo. Pensamos somente em nós e deixamos que os outros se danem. Nada fazemos para que no nosso mundo haja mais justiça. Perdoa o nosso egoísmo que nos afasta de ti. Perdoa a nossa ganância de querer ter sempre mais terras, dinheiro. Perdoa nossa ignorância com os nossos irmãos(as) que migram sem parar. Perdoa a nossa mania de grandeza. Queremos poder, prestígio, corremos atrás deles como se eles libertassem a nossa vida e nos dessem a vida eterna. Perdoa se usamos os dons que nos deste para a busca de poder.

Senhor Deus, dá-nos o reconhecimento do nosso pecado. A ti chegamos em arrependimento e clamamos a uma só voz: Tem piedade de nós Senhor!

2. Oração de coleta: A tua palavra Senhor, é como o ar que respiramos, o sol que aquece, a chuva que refresca e umedece a terra. Que nesta hora a tua palavra possa ser uma semente e que os seus frutos nos deem prazer e fome por justiça. Que a tua palavra nos mostre o teu caminho, que nos transforme em agentes do teu reino. Dá-nos o teu Espírito para que ele nos possa desinstalar e desafiar na luta por uma sociedade fraterna, comprometida com o Reino de Deus inaugurado em Jesus Cristo. Pedimos-te em nome de Jesus Cristo. Amém.

3. Oração final: Senhor Deus, agradecemos pela vinda de Jesus Cristo até o nosso mundo. Nele mostras o quanto nos amas e queres que todos tenham vida em abundância. Em meio à pobreza e violência sofrida por teu Filho, mostras poder que destrona poderosos. A ti louvamos pelo poder, pelo amor conosco.

Agradecemos-te, Deus, pela comunhão com a tua palavra e com os demais irmãos(as) aqui nesta hora. Que esta comunhão possa continuar na nossa vida diária. Que o nosso culto não termine por aqui. Intercedemos pelos doentes da nossa comunidade, pelos migrantes, pelos sem-terra, pelos sem-casa para morar, pelos desempregados. Que a cruz nos possa comprometer com esta situação de pobreza. Intercedemos pelos governantes. Dá-lhes um coração no qual possa reinar a tua justiça, e não o dinheiro.

Pedimos-te, Deus, ajuda-nos a ter uma fé autêntica, que nos desafie e comprometa com situações que precisam da nossa voz e força. Que a cruz de Jesus Cristo possa desafiar a nossa vida, apontar para os nossos pecados e nos alegrar pela libertação. Que a ressurreição de Jesus Cristo nos cause alegria e mais motivação para ser igreja de Jesus Cristo para valer. Pai Nosso…

 

6. Bibliografia

BRAKEMEIER, G. A primeira carta aos Coríntios. São Leopoldo, 1973 (Polígrafo);
KÄSEMANN, E. Perspectivas paulinas. São Paulo, 1980.

 

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Proclamar libertação é uma coleção que existe desde 1976 como fruto do testemunho e da colaboração ecumênica. Cada volume traz estudos e reflexões sobre passagens bíblicas. O trabalho exegético, a meditação e os subsídios litúrgicos são auxílios para a preparação do culto, de estudos bíblicos e de outras celebrações. Publicado pela Editora Sinodal, com apoio da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB).

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