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Proclamar Libertação – Volume 14
Prédica: Miquéias 6.6-8
Autor: Marlon Ronald Fluck
Data Litúrgica: 22º Domingo após Trindade
Data da Pregação: 22/10/1989

 

1. Comentários exegéticos

No contexto do capítulo 6, Miquéias havia descrito a dureza do povo de Israel: povo ingrato diante de Javé. O Deus de Israel tem promovido atos de libertação na história do seu povo, mas a isso se tem respondido com rebeldia. Javé recebe, então, a oportunidade de falar e passa a perguntar: O que fiz eu para te deixar tão enjoado? A rebeldia de Israel mostra quão rapidamente foi esquecida a misericórdia e a bondade de Deus. Agora — depois de agudizado o contraste entre libertação e rebeldia — é o momento de dar a palavra à comunidade de Israel:

Vv. 6s: Israel tenta agora descobrir formas de se aproximar do Deus que, com suas práticas, conseguira irar. O alvo primeiro é o de pacificar Javé. Como demonstrar humilde prostração diante do Deus majestoso? A nação israelita tenta apelar para a aplicação de princípios comerciais à relação povo-Javé. Tenta aplicar princípios parecidos com aqueles das indulgências da Idade Média. Busca-se comprar a paz com Deus através de atos religiosos. Nessa transação comercial aplicam-se somas cada vez maiores, a fim de poder arrematar o produto procurado. São propostos bezerros de um ano como forma de ganhar o favor de Deus. Essa era uma oferta de elevado valor qualitativo. A isso se segue a proposta de troca por milhares de carneiros, o que se constitui em algo ainda mais valioso no que tange a uma valoração quantitativa. Para não deixar dúvidas no que respeita ao interesse no produto da transação, propõe-se a permuta por dez mil riachos de azeite. As ofertas para Javé tornam-se cada vez mais caras em cada pergunta subsequente (Smith, 1959, p. 126).

Através das perguntas retóricas, percebe-se que às colocações ouve-se uma resposta negativa: Nada disso satisfaz; o sacrifício não é o que Javé mais deseja; há ofertas que são muito mais aceitáveis. Diante da negativa de Javé, o zeloso da religião tenta dar sua última cartada. Pode-se vislumbrá-lo a refletir sobre um Javé contabilista que, com sua calculadora em punho, tenta administrar seu monopólio da paz espiritual, ganhando o maior lucro possível com o seu negócio.

Javé deve querer meu último e maior tesouro!, pensa o transgressor. Faz, então, sua última proposta: Darei o meu primogénito pela minha transgressão! A disposição de sacrificar aquilo que o israelita via como sua própria semente dê vida no mundo sinaliza um auto martírio, acerca do qual dever-se-ia dizer:

Uma concepção meramente formal, externa e mecânica de religião não dá origem e nem sustém o costume do sacrifício humano. Na verdade, é um grau máximo de zelo religioso. É a expressão de emoções religiosas de homens que agonizam, desejando a bênção divina e que estão dispostos a entregar os tesouros mais queridos de seu coração, a fim de assegurar tal benção. O profeta, aqui, reconhece esse fato, e suas palavras, portanto, refletem uma indiscutível profundidade de simpatia e carinho para com essas pessoas. Mas, a prática nasce de uma ideia totalmente errónea do caráter de Deus e, portanto, de forma nenhuma pode agradar a ele (Smith, 1959, p. 126).

Todos os aparentes sinais de humilde prostração são descartados. Nem o fruto do corpo serve como meio de superar a queda em pecado. O que Javé quer praticado é aquilo que é bom:

V. 8: Se, anteriormente, tudo o mais foi potencialmente negado, agora, uma nova gama de possibilidades se abre. O grande problema é que Israel está viciado no oposto: injustiça, opressão, falta de afeição (vide 2.1, 2, 8; 3.2, 3, 9ss; 6.10ss) (Keil, 1954, p. 497). O que Javé realmente quer é justiça praticada, amor misericordioso e viver humilde. Sinais da falta disso eram as fraudes comerciais (6.11) e as ameaças de violência feitas pelos ricos contra os pobres (6.12), bem como também a catastrófica situação nacional (descrita em 7.1-6).

A afirmação da centralidade de justiça, amor e humildade

liga ética com piedade, dever para com os homens com dever para com Deus e faz de ambos fatores coiguais em religião. Nesse respeito, antecipa o famoso dito de Jesus (Mt 22.34-40), e marca um grande abismo para com a religião popular dos tempos do próprio profeta. (…) faz da religião uma experiência interior, que determina toda a esfera da atividade humana. Religião torna-se não meramente uma ação, mas também e principalmente, caráter, (Smith, 1959, p. 127s).

 

2. Comentários homiléticos

A partir do texto podemos questionar-nos acerca de critérios utilizáveis para refletir sobre a relação com Deus. O objetivo é o de auxiliar a comunidade cristã a se aperceber das formas que, por vezes, utiliza para tentar negociar com Deus. Exemplos é que não faltam: promessas, autoflagelação, esmolas, contribuições para as comunidades, presentes para os pastores, campanhas a favor dos pobres, etc. Tudo isso pode se tornar meio de mercadejar as questões religiosas.

O primeiro critério que transparece no texto é o da riqueza. Como já vimos, os oferecimentos são cada vez mais valiosos. Evidentemente, em termos de vida religiosa, é também possível tentar projetar status social. Aqui ensina-nos muito o exemplo da viúva pobre (Mc 12.41-44), que não só entrega coisas, mas muito mais: a própria vida, o que tipifica um caráter novo. O mesmo poder-se-ia dizer acerca dos talentos pessoais colocados a serviço da vida da igreja de Cristo. Se a disponibilidade ao serviço não vier acompanhada de algo a mais, tudo isso pode ser meio de projeção pessoal. A riqueza como critério pode transparecer não somente no pensamento de que dando bastante para a igreja se consegue aplacar a ira de Deus, bem como não somente em que pelo tempo que se dedica às atividades da comunidade cristã, deve-se conseguir algo de Deus, mas também em que o tempo que alguém se entrega à meditação na Palavra e à oração pode, às vezes, ser usado como alegação a favor da autojustificação. No entanto, a riqueza crescente investida (v.6) apenas sublinhou a completa ineficiência desse critério.

O segundo critério que transparece é o do sacrifício. Mesmo o ato de dar o que temos de mais precioso em nós mesmos (no caso do v.7, o próprio filho: prolongamento ou fruto do meu corpo) não significa nada caso nos falte o essencial: a transformação de nosso caráter, nossa natureza. O culto sacrificai sem a motivação oriunda do Espírito Santo permanece circunscrito ao âmbito do mero esforço humano, sem a fé. Deus não quer meramente a transformação de nossas ações. Ele também quer um novo caráter. Sem o amor nada serei e nada me aproveitará (1 Co 13.2s). Espiritualidade não é para constar no rol das obrigações, nem ser ingrediente adocicante da ritualística cristã. É, isso sim, expressão de uma vida em comunhão com Deus, dependente dele e comprometida até às últimas consequências.

O terceiro critério que transparece é o da totalidade da existência. Justiça praticada, amor misericordioso e humildade vivida: haveria ingredientes mais abrangentes para descrever a totalidade de uma existência articulada a partir de Javé? Aqui não haveria discrepância entre espiritualidade e compromisso com o cotidiano, entre fé e vida, entre piedade e ética. Tudo seria de Deus e para Deus. Encontrou-se, finalmente, o verdadeiro equilíbrio. Os elementos constantes no v. 8 demonstram a ineficácia das progressivas tentativas esboçadas nos vv.6s. Deus abre o acesso para todos. Já não valem mais os critérios da riqueza e do sacrifício. Eles até soam como obstáculos para a verdadeira existência totalitária (integral) em Deus. O critério da totalidade da existência teve sua manifestação mais densa na própria pessoa do Deus-homem: Jesus Cristo. Nele os ingredientes (justiça, amor e humildade) não se digladiavam e excluíam, mas sim se complementavam mutuamente. Uma autêntica espiritualidade latino-americana teria de, hoje, resgatar tais ingredientes também.

 

3. Subsídios litúrgicos

1. Confissão de pecados: Senhor, perdoa-nos por aquelas situações em que deixamos de colocar a totalidade de nossa existência à tua disposição. Perdão porque a consequência disso é injustiça, desamor e orgulho. Oh! Deus! Tu sabes como nossa nação vive uma situação desse tipo. Queremos ser instrumentos para transformação, mas continuamos a pecar, apesar de nossa boa vontade. Tem piedade de nós, Senhor!

2. Oração de coleta: Torna-nos, Senhor, pessoas transformadas: Pessoas que seguem aquilo que é bom aos teus olhos. Ajuda-nos a praticar a justiça, amar intensamente o nosso próximo, principalmente o pobre, a viúva e o órfão, e ser humildes diante de ti. Faze-nos sementes do Reino em meio à nossa sociedade e comunidade. Em nome de Cristo, amém!

3. Oração final: Agradecimento pelo fato de que status social não vale diante de Deus; louvor por ser Deus alguém que se envolve com a totalidade de nossa existência; pedir que Deus ensine a comunidade local a viver a radicalidade daquilo que é bom, que ele ensine sua igreja a viver o equilíbrio evangélico.

 

4. Bibliografia

KEIL, Cari Friedrich. The twelve minor prophets I. In: KEIL, C F & DELITZSCH, F. Biblical Commentary on the Old Testament. Gran’d Rapids, 1954;
PAPE, Dionísio. Justiça e esperança para hoje; a mensagem dos profetas menores. S. Paulo, ABU, 1982;
SMITH, John Merlin Powis. A critical and exegetical commentary on the books of Micah, Zephaniah and Nahum. In: DRIVER, Samuel Rolles et alii. The International critical commentary on the Holy Scriptures of the Old and New Testaments. 4. ed. Edinburgo, 1959. p. 3-363.

 

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Proclamar libertação é uma coleção que existe desde 1976 como fruto do testemunho e da colaboração ecumênica. Cada volume traz estudos e reflexões sobre passagens bíblicas. O trabalho exegético, a meditação e os subsídios litúrgicos são auxílios para a preparação do culto, de estudos bíblicos e de outras celebrações. Publicado pela Editora Sinodal, com apoio da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB).

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