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Proclamar Libertação – Volume 20
Prédica: Lucas 3.15-17, 21-22
Leituras: Isaías 42.1-7 e Atos 10.34-38
Autora: Elaine Neuenfeldt
Data Litúrgica: 1º Domingo após Epifania
Data da Pregação: 08/01/1995

 

1. Contexto

O Evangelho de Lucas foi escrito em torno de 85-90 d.C. Seu autor é, provavelmente, de origem gentílico-cristã, de formação helenística. As pessoas destinatárias do evangelho são cristãs vindas do paganismo. A realidade é caracterizada por grandes contrastes sociais e por uma sociedade dividida. Percebe-se isto pelos temas desenvolvidos em todo o evangelho: a cidade, símbolo do poder opressor e repressor; povo doente e marginalizado; pão, comida, banquete e fome; mulheres marginalizadas.

A cultura grega, com a qual o evangelho é confrontado, é marcada pela divisão entre trabalho manual e trabalho intelectual. O trabalho manual, desprezado, é feito pelos escravos. O trabalho intelectual, honroso, é reservado aos detentores do poder. Os homens livres controlam a política, a economia e a religião na sociedade organizada cm cidades (polis). Os escravos constituem aproximadamente a metade da população.

Com este pano de fundo, o Evangelho de Lucas tem por objetivo levar ao mundo helenístico a mensagem cristã através da exposição da história de Jesus e confirmar a solidez desses ensinamentos. O evangelho procura evidenciar o conteúdo da pregação de Jesus. Com a paixão, morte e ressurreição de Jesus, a salvação de Deus se manifesta e se torna visível.

 

2. Meditação

O texto previsto para o le domingo após Epifania manifesta e torna concreta a missão de Jesus Cristo.

Vv. 15-17: o batismo com água e o batismo com Espírito

Aqui o texto faz referência a João Batista, que anuncia o arrependimento e o juízo, preparando o caminho àquele que há de vir. João prega o batismo de prosélitos com água. Anuncia o juízo e chama ao arrependimento, no sentido radical de mudar de vida (dar meia volta, mudar de direção). Esse batismo com água é um sinal da misericórdia e da graça de Deus que perdoa. As pessoas que buscam esse batismo mostram a sua disposição de transformar suas vidas, converter-se e produzir frutos. Só o rito do batismo de nada vale. João enfatiza a necessidade de produzir frutos. Esta ênfase leva as pessoas a se confundirem: não seria João, porventura, o próprio Cristo? João esclarece, contudo, que ele prepara o caminho para aquele que há de vir, mais poderoso, que balizará com espírito e com fogo.

Enquanto João prepara e propõe o arrependimento, em Jesus se dá o cumprimento do anúncio da Boa Nova: o reino de Deus está a irromper!

Já os profetas anunciavam que o Espírito cria um novo coração (Ez 36.25), ou seja, um novo ser humano, um novo povo. Balizando com Espírito, Jesus cumpre a profecia e possibilita essa nova opção. João reconhece a superioridade daquele que há de vir, não sendo ele digno sequer de amarrar-lhe as sandálias. O Messias que vem trará o juízo de Deus: limpa a eira com a pá e recolhe o trigo ao celeiro. Já a palha ele queimará com fogo inextinguível. O trigo é fruto produzido, é grão que vira alimento, mas a palha é vazia, seca, não serve para mais nada, a não ser queimar e desaparecer.

O batismo com Espírito Santo, mais poderoso, provoca e capacita para a radical transformação da vida. Diante do juízo, se oferece a possibilidade de dar meia volta, para produzir frutos. A oferta da nova vida se torna concreta e visível em Jesus. O Espírito que queima como fogo capacita e impulsiona o ser humano. O fogo lembra a destruição, o poder de queimar, a ira, mas também simboliza a purificação, o novo que brota após a destruição.

Aqui na região norte do Mato Grosso, a cada época de seca o cerrado sofre queimadas, destruindo grande quantidade de plantas e pequenos animais. Com as primeiras chuvas, contudo, surgem entre os galhos pretos de carvão e das cinzas novos brotos e folhas verdes. O que parecia morto brota com a chuva. Parece que é a vida que insiste em renascer em meio ao fogo e à destruição.

Com o anúncio do juízo se estabelece a diferença entre João e Jesus. Com o batismo com água, João quer provocar o arrependimento e propõe uma vida que produza frutos. Com o batismo com Espírito Santo, Jesus capacita o sei humano a renascer, a brotar o novo em meio à morte. Jesus é o portador da vida.

Vv. 21-22: o batismo de Jesus

Ao lermos o texto poderíamos imaginar a cena do batismo de Jesus da seguinte maneira: Jesus em pé dentro do rio e João jogando água sobre a cabeça dele. Porém o verbo baptismenai (v. 21) significa tomar banho de imersão, submergir-se. Em Lc 3.7 está presente a ideia de que as pessoas bali/adas se submergiam na presença de João. Também é importante destacar que, de acordo com o v. 21, o batismo de Jesus acontece num batismo coletivo — ao ser todo o povo batizado, também o foi Jesus. Aqui João ocupa a função de testemunha, como no batismo de prosélitos. Ao participar de um evento batismal coletivo, com água, Jesus reconhece e dá validade a esta forma de batismo. O batismo de Jesus se dá com o povo, de uma forma comunitária, como alguém que não se distingue das outras pessoas. Não que Jesus necessite do batismo de arrependimento, mas com o seu batismo ele se faz igual às outras pessoas, participa de suas experiências de vida. O Espírito Santo mostra, contudo, que a proposta de Jesus vai além, indica o escolhido de Deus, o Filho que dá prazer.

Somente Lucas menciona que Jesus orou por ocasião de seu batismo. A oração aqui lembra o momento de reflexão diante da grandiosidade do ato do batismo. Ele orou num momento de decisão, para clarear a sua missão. Assim Jesus também orou no Getsêmani, num momento de extrema reflexão em sua vida.

O v. 22 menciona que o Espírito Santo desceu sobre Jesus em forma corpórea, como uma pomba. O Espírito Santo é comparado com uma pomba como uma maneira de materializá-lo. Se considerarmos a destinação do evangelho — a cultura helenística —, esta hipótese se torna mais coerente. O Espírito não se transformou em pomba, mas como uma pomba desceu manso e sussurrante, indicando o Filho amado.

Esta comunicação de Jesus com o Espírito Santo significa que Jesus agora é o mensageiro de Deus. Com este ato se efetua a missão profética do Filho de Deus. O Espírito define o caráter da missão de Jesus: O Espírito do Senhor está sobre mini, pelo que me ungiu para evangelizar os pobres, enviou-me para proclamar a libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos (Lc 4.18).

Deus sente prazer nesse ato. Deus se manifesta/revela em Jesus quando este é batizado. Tu és o meu Filho amado, em ti me comprazo! Com o batismo Jesus também se revela a nós, seres humanos. Faz-se gente como a gente. Desce até nós. E neste gesto Deus sente satisfação. Cristo assume a sua missão com o batismo e capacita o ser humano para transformar sua vida. Com o batismo de Jesus Deus honra o nosso batismo como pessoas fracas e pecadoras, pois possibilita uma mudança radical, no sentido de gerar sinais concretos de amor e partilha entre as pessoas balizadas.

 

3. Pistas para a prédica

Como sugestão de tema da prédica aponto para o Batismo e suas consequências na vida prática das pessoas cristãs.

— O batismo que João anuncia mostra a necessidade do arrependimento. Prepara o caminho para o juízo.

— No batismo de Jesus, ele mesmo assume um compromisso. Ele se faz semelhante a nós, reconhecendo a necessidade do arrependimento. Esse gesto capacita as pessoas que são batizadas a assumirem o compromisso de produzir frutos. Com o batismo Deus escolhe/apresenta seu Filho amado, e agora Jesus assume sua missão.

— A atualização do Batismo como compromisso de conversão (no sentido de mudar nas relações humanas) e nossa resposta ao dom. O batismo como dom, sinal do Reino, que faz participar da comunidade do Espírito Santo. Questionar as consequências do viver como pessoas balizadas — buscar situações concretas da comunidade, na família, ele. Se com o batismo com Espírito Santo Jesus nos capacita a vivermos uma nova vida, até que ponto assumimos este compromisso?

— Falar também do prazer de Deus ao revelar o seu Filho a nós pelo batismo no Espírito. Deus se manifesta prazeroso com o compromisso do Batismo, pois envolve o seu povo.

 

4. Bibliografia

JEREMIAS, Joachim. Teologia do Novo Testamento. São Paulo, Paulinas, 1980;
MOSCONI, Luis. Leitura segundo Lucas. Pistas para uma leitura contemplativa, espiritual e militante. São Leopoldo, CEBI, 1991;
LUTERO, Martinho. Um sermão sobre o Santo, Venerabilíssimo sacramento do Batismo. In: Comissão Interluterana de Literatura, comp. Obras selecionadas. São Leopoldo, Sinodal/Concórdia, 1987. v. l, p. 413-424.

 

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Proclamar libertação é uma coleção que existe desde 1976 como fruto do testemunho e da colaboração ecumênica. Cada volume traz estudos e reflexões sobre passagens bíblicas. O trabalho exegético, a meditação e os subsídios litúrgicos são auxílios para a preparação do culto, de estudos bíblicos e de outras celebrações. Publicado pela Editora Sinodal, com apoio da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB).

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