Proclamar Libertação – Volume 37
Prédica: 1 Reis 17.17-24
Leituras: Lucas 7.11-17 e Gálatas 1.11-24
Autor: Kurt Rieck
Data Litúrgica: 3º Domingo após Pentecostes
Data da Pregação: 09/06/2013
No evangelho previsto, Lucas 7.11-17, encontramos o episódio da ressurreição do filho da viúva de Naim. Que força é essa que permite a ressurreição dos mortos? Aqui o protagonista é Jesus. A cura tem o propósito de chamar as pessoas para honrar a Deus. Nem todos os que são curados voltam-se a Ele. O texto indicado da Epístola de Paulo aos Gálatas – 1.11-24 – aponta para a força missionária do apóstolo, que vai além das fronteiras para anunciar Jesus e seus feitos. O agir de Paulo acontece em decorrência do chamado de Deus. A revelação do Filho de Deus é transcendente, e é essa experiência que move o apóstolo Paulo. Toda a conversão que Cristo operou na vida de Paulo permitiu a glorificação do nome de Deus.
O que Elias experimentou corre nesse mesmo trilho. Esse profeta presenciou a força de Deus capaz de ressuscitar um jovem que havia falecido. Por que Deus permite que ocorram fatos dessa ordem?
O texto de prédica faz-nos olhar para o personagem Elias, que se encontra vivo na lembrança dos judeus, embora passados 900 anos de história. Seu ministério profético é registrado em 1 Reis 17, 18, 19, 21 e 2 Reis 1 e 2. No pensamento hagádico judaico (hagadá = narrativas que revelam o espírito da lei), Elias é visto como paralelo de Moisés.
Nas andanças de Jesus, pensaram que ele era o profeta Elias, fato relatado em Mateus 16.14, 11.14, Marcos 8.28, 6.15 e Lucas 9.19. Que homem é esse que tantas vezes foi resgatado na história da cristandade, conforme Lucas 4.25 e 26, Romanos 11.2 a 4 e Tiago 5.17 e 18. Elias é um personagem enigmático, um homem de ação, um milagreiro carismático, que se situa na tradição da profecia do êxtase.
Elias prediz uma grande seca e, orientado pelo Senhor, vai para a fronteira com o Jordão, sendo alimentado pelos corvos. Segue para Sarepta, onde ganhou de comer da viúva que partilha o resto que tinha. Desse ato de fé brotam farinha e azeite, que saciam a fome dela e de todos os de sua casa. O profeta foi assistido em sua fome pela misericórdia da viúva. Um milagre aconteceu. Depois de um momento glorioso, vem uma catástrofe: o filho da viúva falece.
É indescritível a dor de uma mãe que vê seu filho falecer. Surgem duas perguntas, que relacionam culpa e morte. A primeira busca uma autoanálise: “Que fi z eu, ó homem de Deus?”. Onde está a minha culpa, indaga a mãe. A segunda pergunta dirige o olhar ao profeta: “Vieste a mim para trazer à memória a minha iniquidade e matar o meu filho?”. Pelo que Elias já havia feito, estava claro para a viúva de Sarepta que ele era um homem de Deus, mas ela não conseguia aceitar que Deus pudesse permitir tal tragédia. Seria Elias esse profeta que mexeu com seu passado, o culpado pela morte de seu filho?
De pronto, Elias tomou uma atitude. Levou o menino para o quarto onde estava hospedado, deitando-o em sua cama. Então se pôs a orar. Elias julga ser Deus o culpado por essa morte. Joga o seu corpo sobre o corpo do menino e roga pedindo a Deus: “Ó Senhor, meu Deus, faze com que esta criança viva de novo” (v. 21). Deus atende a oração. Elias leva o filho até a mãe e diz: “Veja! O seu filho está vivo!”. A palavra aqui utilizada é nefesh, que pode significar alma, respiração, alento, força vital. O fato extraordinário fez a viúva reconhecer que Elias era um homem de Deus.
O texto faz-nos detectar três ênfases:
1 – A relação culpa e doença (v. 18). Não se trata de uma colocação abstrata. A viúva dirige-se a Elias de forma direta. Seu filho havia morrido. Ela joga sobre Elias a causa de tamanha desgraça: “Que fiz eu, ó homem de Deus?” (ARA). “Homem de Deus, o que o senhor tem contra mim?” (NTLH). “Que há entre mim e ti, homem de Deus?” (BJ).
Num primeiro momento, a pergunta brota de uma necessidade existencial, relacionada ao comportamento da viúva em relação a seu passado. Num segundo momento, ela aponta para Elias e diz: “Tu vieste” (ARA). Trata-se de um encontro de Deus com a viúva, que se deu por intermédio de Elias, que promove o
reconhecimento de culpa e transporta a causa da doença para pecados cometidos no passado. Num terceiro momento, interagem as palavras culpa-castigo-relacionamento. A mãe tem a culpa, o filho recebe o castigo e o profeta está relacionado aos fatos.
2 – O poder da oração. A oração é proferida, não pela viúva, mas sim pelo profeta, envolvido numa cena ousada. Elias reivindica uma atitude de fé: “Elias clamou ao Senhor” (v. 21). Somente Deus poderá devolver a vida.
3 – A elaboração de um credo. Ela não disse: “Tu, Elias, és um homem com poderosa força de Deus”. Disse (v. 24) sim: “… que a palavra do Senhor na tua boca é verdade” (ARA). “Deus realmente fala por meio do senhor!” (NTLH). Faz parte da oração uma ação. A mulher reconhece que o Deus anunciado pelo profeta é confiável.
Há um fato gerador. Ocorre uma experiência transcendente. A história anuncia o senhorio de Deus sobre a morte. Brota uma sincera fé.
Ressurreição é tema em outras passagens da Bíblia. Episódios semelhantes encontramos em 2 Reis 4, quando o profeta Eliseu faz viver o filho da sunamita.
Nos evangelhos, encontramos relatos em que Jesus é o agente da ressurreição: Lázaro em João 11, a filha de Jairo em Mateus 9.23-26 e o filho da viúva de Naim em Lucas 7.11-17. Os apóstolos seguiram esse legado. Pedro faz Tabita reviver, conforme Atos 9.36-43. Paulo restabeleceu a vida do jovem chamado Êutico, relato que encontramos em Atos 20.7-12.
As pessoas mencionadas não ressuscitaram no mesmo sentido que Cristo. Não há qualquer indicação de que tais pessoas tivessem recebido de volta alguma vida diferente daquela que antes já possuíam.
Recomendo a leitura da exegese feita por Elaine Gleci Neuenfeldt, que se encontra no PL 29, p. 192. Veja a semelhança dessa história com a de Eliseu, descrita em 2 Reis 4.
Que grande choque é para uma mãe saber que seu filho faleceu. É fundamental colocar-se no lugar das pessoas que experimentam o luto, a perda, a morte.
Com palavras a seguir, Lutero participa a seu amigo Justo Jonas (1493-1555), em 23 de setembro de 1542, a morte de sua filha Madalena de 13 anos: “Creio que ficaste sabendo que minha filha Madalena renasceu para o reino eterno de Cristo. … Pois os olhares, palavras e gestos da filha obediente e respeitosa ao extremo, quando viveu e quando morreu, se prendem ao fundo de nossos corações, de maneira que nem mesmo a morte de Cristo pode tirar esse pesar como deveria. E o que é a morte de todos em comparação com a de Cristo? Por isso agradeça a Deus em nosso lugar. Pois ele realmente fez uma grande obra em nós e glorificou sobremaneira nosso corpo. Ela tinha – como sabes – um caráter suave e amável, sendo querida para com todos. Louvado seja o Senhor Jesus Cristo que a chamou, escolheu e glorificou. Tomara que eu, todos os meus e todos os nossos tenhamos por sorte uma morte assim. É o único que peço a Deus, ao Pai de todo consolo e de toda misericórdia.” (WA Br 10, 149, 20-34, apud JUNGHANS, p. 92 e 93).
Sempre haverá uma reação frente a algo indesejado. A indignação provoca uma reação. Busca-se por explicações. A crise é sempre uma grande chance. Deus revela-se por meio da dor, colocando-se de forma misericordiosa ao lado dos que sofrem, expressando seu amor incondicional. O sentido maior não está em procurar um culpado. Na dor, o ser humano reconhece sua pequenez e volta-se ao Pai, ao Criador, àquele que é Senhor sobre tudo e todos.
A oração cava um canal ao reservatório de recursos ilimitados de Deus para os pequenos tanques de nossa vida. A cumbuca vazia foi preenchida. Deus responde aos que clamam. Elias orou, clamou e com fé buscou que Deus revertesse a indignação daquela mãe que lhe deu de comer, permitindo que ele próprio pudesse estar vivo.
Qual é o espaço que se tem para discutir um milagre num mundo técnica e cientificamente desenvolvido? Muito oportuno é o lançamento do livro “O segredo do milagre”, de Gottfried Brakemeier, do qual cito: “Na sociedade secularizada do século XXI, a fé defronta-se com crescente descrença. O despertar da razão crítica ‘desencantou’ o mundo, descartando qualquer interferência sobrenatural nos processos naturais. … Consequentemente, a crença em milagres passa a ser considerada incompatível com a racionalidade moderna. Pessoa esclarecida não acreditaria em milagres” (p. 11).
Transita numa outra frequência um segmento social em busca de milagres e prosperidade. A massa populacional procura isso nas religiões. Não faltam denominações dispostas a vender modernas indulgências. Inventam-se objetos de todas as ordens para instrumentar uma pseudofé.
À luz do evangelho de Jesus Cristo, seguimos a escola da comunidade terapêutica, que entende a igreja de Cristo como ponto elementar do agir de Deus. Buscamos cultivar vínculos, valorizar os laços oriundos da fé no Trino Deus. Nesse ambiente, não no “circo”, acontecem inúmeros milagres. A fé mantém pessoas de pé em meio a inúmeras enfermidades. O agarrar-se nas mãos de Deus faz muitos voltarem a caminhar. Sim, milagres existem e acontecem diariamente. Mas não fazemos deles um fenômeno milagreiro.
Nos milagres, revela-se a soberania divina, a autoridade do Deus criador de que Jesus é portador (cf. Mc 1.27; 4.41 etc.). Logo eles excedem as possibilidades humanas. Enquanto o ser humano esbarra nos limites de sua finitude, “para Deus tudo é possível (Mc 10.27)” (Brakemeier, p. 20). “Milagre evangélico é somente aquele que for percebido como apelo de Deus, como um chamado, como uma palavra. Enquanto um fenômeno extraordinário não sensibilizar a pessoa, ainda não foi reconhecido como sinal” (Brakemeier, p. 21).
Confessar significa entrar em conciliação, concordar sobre uma base comum. Da boca da viúva brotou esta confissão: “Agora eu sei que o senhor é um homem de Deus e que Deus realmente fala por meio do senhor” (1Rs 17.24, NTLH). Confissão é a resposta da igreja decorrente da reflexão que faz a partir da Palavra. Confissão de fé é ponto de partida onde nós nos introduzimos na comunidade cristã. Eu creio… Naquilo que creio está o meu coração. “Pois onde estiverem as suas riquezas, aí estará o coração de vocês” (Mt 6.21 NTLH).
Fiquem atentos às informações armazenadas de seus estudos e prática ministerial. Sempre há um exemplo colhido da vivência ou dos livros que se encontram à disposição.
No caminho, a sós, compartilhado por ninguém,
quando, ao orar, nos fogem os pensamentos,
quando trevas como sopro frio me envolvem,
queiras tu achar-me em meus tormentos.
Quando a alma qual luz desnorteada
entre o gerar e o perceber bruxulear,
queiras tu ao meu lado estar.
Quando tua mão não conseguir pegar,
toma, Senhor, as minhas em tua mão,
vem da minha alma te apiedar,
a bom termo conduzir-me então.
(Oração do Campo de Concentração, in: BRAUN, Joachim. Entre o consolo e as lágrimas, Editora Sinodal, 1986).
Conheça o motivo do choro. Lembro do livro “Eu vi as tuas lágrimas – Amparo e consolo no sofrimento”, de Vera Cristina Weissheimer (Sinodal).
Na oração, expressamos sentimentos de esperança e amor. Na oração, entregamos a Deus nossas preocupações. A comunidade que ora está atenta ao clamor do outro.
Grandes milagres acontecem diariamente bem perto de nós. Perceba-os. Cite-os.
A razão, o sentido, o propósito para o qual existimos aponta, a partir da fé, numa só direção: que o nome do Trino Deus seja glorificado.
Uma oração: Entre as orações de entrega incondicional que mais impressionam cito a de Blaise Pascal (1623-1662), filósofo e matemático francês, inventor da máquina de calcular: “Eu não peço nem por saúde nem por doença, nem por vida nem por morte, mas peço que tu uses tanto a minha saúde como a minha doença, tanto a minha vida como a minha morte para o teu louvor e a minha salvação. Só tu sabes o que é bom para mim; tu és Senhor soberano, faze o que quiseres. Dá-me e tira de mim! Senhor, eu sei que só sei uma coisa: que para mim é bom seguir-te e que me faz mal ofender-te. Não sei o que me é mais útil: a saúde ou a doença, a riqueza ou a pobreza, ou todas as coisas do mundo. Essa é uma questão que está acima das forças de pessoas e de anjos e que está escondida no mistério de teus planos, que eu quero adorar e não sempre entender. Amém”.
Uma palavra que remete à bênção: “… podemos esforçar-nos para abrir nosso pensar, alargar os nossos horizontes, de modo que estejamos abertos para
algo mais: quem crê pensa mais longe” (Helmut Thielicke, Crer – Informações sobre a fé, p. 91).
Cantos:
HPD 478 – Logo de manhã
HPD 206 – Quão bondoso amigo é Cristo
HPD 166 – Dá-nos olhos claros
HPD 248 – Ontem, hoje e para sempre
BRAKEMEIER, Gottfried. O segredo do milagre. São Leopoldo: Editora Sinodal, 2012.
BREIT, Herbert; WESTERMANN, Claus. Calwer Predigthilfen, Band 6. Stuttgart: Calwer Verlag, 1971.
JUNGHANS, Helmar. Temas da Teologia de Lutero. São Leopoldo: Editora Sinodal, 1981.
Proclamar libertação é uma coleção que existe desde 1976 como fruto do testemunho e da colaboração ecumênica. Cada volume traz estudos e reflexões sobre passagens bíblicas. O trabalho exegético, a meditação e os subsídios litúrgicos são auxílios para a preparação do culto, de estudos bíblicos e de outras celebrações. Publicado pela Editora Sinodal, com apoio da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB).