A Reforma Protestante atribuiu à Bíblia a autoridade máxima na igreja. Dito de outra forma: o discurso e a prática da igreja precisam ter seu alicerce na Bíblia. Martim Lutero fez questão de traduzir a Bíblia ao alemão para que as pessoas tivessem acesso direto ao texto bíblico. Com a tradução da Bíblia, o conhecimento das Escrituras deixou de ser privilégio de poucas pessoas.
Lutero estava convicto de que cada pessoa, a partir do estudo bíblico, seria capaz de compreender as questões básicas da fé. Também poderia avaliar o que é correto e o que é incorreto a partir da fé. Mas, para a correta compreensão da Escritura Sagrada, é preciso compreender o seu “espírito”. De acordo com Lutero, o espírito da Bíblia é aquilo que promove a Jesus Cristo, ou seja, aquilo que fala da sua obra, que edifica a fé, que aponta para o amor de Deus. Com este critério, é possível exercer crítica a textos da Bíblia que apontam para orientações contrárias.
Há passagens que revelam a mentalidade e o conhecimento de uma determinada época, como Josué 10.13, que pressupõe que o sol gira em torno da terra. Ao assumir a tese de que a terra gira em torno do sol, Galileu Galilei (1564-1642) foi condenado à prisão domiciliar pela igreja. Hoje, sabemos que Galileu estava certo. Este exemplo alerta para o perigo de leituras fundamentalistas da Bíblia e reforça a necessidade de um critério de leitura e interpretação: o testemunho do amor de Deus revelado em Jesus Cristo.
Na compreensão luterana, a Bíblia se caracteriza pelo contraste entre lei e evangelho. Lei é o que Deus exige de nós, e evangelho é o que Deus faz por nós. A lei ensina o que precisamos e o que não devemos fazer. Confronta-nos com nosso pecado e nossa incapacidade de praticar os mandamentos. O evangelho, por outro lado, revela a graça de Deus. Enquanto a lei faz o diagnóstico da doença, o evangelho é o próprio remédio. Ele acolhe e perdoa. Para a compreensão adequada da vontade de Deus é preciso diferenciar e ouvir as duas coisas: a denúncia da lei e o anúncio do evangelho.