O princípio “somente a graça” declara que não há qualquer possibilidade de participação da pessoa em sua justificação. Não é o esforço nem o mérito pessoal que contam. A pessoa é justificada por méritos alheios, ou seja, pelos méritos de Cristo. Deus aceita as pessoas sem exigência prévia e sem requerer uma compensação posterior. Nada precisamos e, na verdade, nada podemos fazer para obter o amor e o perdão de Deus. A dádiva divina é recebida sem merecimento ou pagamento.
O esforço para merecer a justificação pode gerar dois efeitos perversos. O primeiro é o sentimento de angústia diante da incapacidade de fazer tudo o que é seria necessário, pois nunca conseguiremos fazer o suficiente. A pessoa que vive atormentada pelo peso da incapacidade não consegue ser feliz. A outra consequência maléfica da busca por merecimento é a tentação de se envaidecer com as boas ações e pretensas virtudes. Quem se vangloria de seus feitos facilmente cai na arrogância, julgando-se melhor do que as outras pessoas.
A percepção de incapacidade e a vanglória manifestam uma espiritualidade centrada na pessoa, não em Deus. Ora, se a pessoa precisa fazer por merecer, ela acaba se tornando autora da sua justificação. A partir da ótica bíblica e da compreensão da Reforma Protestante, entendemos que Deus nos liberta da necessidade de fazer algo em troca. Não há justificação por merecimento e produtividade. É Deus quem faz tudo.
Não podemos acumular pontos diante de Deus, nem trocar méritos por benefícios. No reino de Deus não há distinção entre aquelas pessoas que mais trabalham e menos trabalham. Todas terão a mesma recepção e os mesmos benefícios. Mas, por que praticar o bem, se não ganharemos nada em troca e não teremos tratamento diferenciado? Esta lógica de mercado, baseada em vantagem e lucro, não é compatível com a fé cristã. Nossa ação provém do reconhecimento da graça divina. A partir da graça recebida, a pessoa agradecida dispõe-se a servir e a viver de acordo com a vontade de Deus.