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Conforme vamos ouvindo as pessoas que atendemos, ou com quem convivemos, ou que se expressam pelas mídias sociais, vemos irem tomando forma atitudes que, além de não ajudar, correm o risco de piorar as coisas para pessoas já fragilizadas.

A primeira atitude é a do profeta: a pessoa assume o lugar de alguém que está entendendo tudo o que se passa, e passa a divulgar seu entendimento particular da situação como uma verdade última, definitiva, e na maior parte das vezes destrutiva.

Vemos nesse grupo os religiosos de várias denominações apontando em nossos pecados a origem de toda essa tragédia, apelando a um deus vingativo e furioso que estava apenas esperando o momento para matar idosos, crianças e pecadores para que nos lembremos dele.

Ou os fanáticos políticos mostrando como os desmandos dos poderosos da vez nos trouxeram até aqui. Nesse caso, a culpa também é nossa: escolhemos os políticos errados.Tivessemos votado de outra forma e não estaríamos nessa.

O que caracteriza esse tipo de profeta é que todas suas explicações se apoiam no que fizemos de errado, na nossa CULPA como razão necessária e suficiente que dá vuma racionalidade para todo esse sofrimento, a NOSSA CULPA.

É evidente que, mais do que para nós fortalecer de alguma forma, esse tipo de discurso se serve do sofrimento para mais uma vez fazer a propaganda do profeta ou de suas idéias.

Vemos ainda o perfil do Herói: pronto a se sacrificar, pronto a usar seus poderes para nós salvar, ele nos conta segredos que podem salvar nossas vidas, ou despreza os riscos de forma arrogante, acreditando que nem mesmo o vírus pode atravessar sua armadura de machice, dignidade, santidade ou coisa que o valha.

Políticos ensandecidos e seus cordões de figurantes bem pagos posam para fotos de festas e outros tipos de aglomeração, onde zombam do que é mortal para nós, mortais.

Com o risco de fazer com que se exponha ainda mais a imensa fatia de miseráveis que lhes garante os salários.

Esse é um momento onde temos que intensificar o que sabemos fazer de melhor: sejamos humanos.

Nós, humanos, temos nos grupos nossa maior força. Facamo-nos companhia, do jeito que for, ao vivo ou pela internet: fiquemos juntos, troquemos informações, rezemos, contemos piadas, tomemos café, mandemos mensagens de amor, enfim, estejamos juntos!

Lembremos um ao outro o que é ser humano: façamo-nos companhia, cuidemos uns dos outros.


Dr. Maurício Garrote – Médico e Psiquiatra, membro na Paróquia do ABCD