A fé e nada mais
‘Deus é amor’. Este é o fio condutor que atravessa a Bíblia do começo ao fim. Esta afirmação vai sendo desdobrada em diversas formas e acontecimentos desde o povo de Israel até Jesus e as primeiras comunidades cristãs retratadas no Novo Testamento. O amor de Deus por sua criação e criatura jamais foi posto em dúvida. Acontece, porém, que, muitas vezes, ele foi soterrado por ritos, exigências e prescrições. Assim, durante séculos, seguir o rito das celebrações era mais importante que o amor de Deus proclamado. O cumprimento de exigências financeiras, mais importante que o perdão. A observação de prescrições de dias santos e jejuns, mais importante que a prática do amor nascido de Deus.
O próprio Lutero sofreu com essa realidade. Ele conheceu os ritos, as exigências e as prescrições e, como poucos, tentava obedecer tudo à risca, mas, em meio a tudo isso, ele via o amor de Deus cada vez mais distante. Seu sofrimento se condensava na pergunta ‘Como vou conseguir um Deus gracioso?’ Em outras palavras: como eu chego ao tão falado amor de Deus? Dito ainda de outra forma: como eu, pobre diabo, posso me ‘apropriar’ do amor de Deus?
A resposta a estas perguntas estava – e está – na Bíblia. Seguramente, Lutero já tinha lido aquela passagem, mas em uma das leituras ‘lhe caiu a ficha’. O justo viverá por fé. No estudo da Bíblia, Lutero vinha descobrindo que justo não é aquele que é o certinho, mas sim aquele que é perdoado, amado por Deus, que é justificado por Deus em seu amor e, justamente por tudo isso ser a forma do amor de Deus se manifestar, só há um jeito de se ‘apropriar’ dele: a fé. Amor não pode ser conquistado, ele somente pode ser aceito como um presente gratuito e imerecido. Este ato de aceitar se chama fé. Aceito o presente que Deus me dá: perdão, reconciliação e nova vida. Por isso o justo viverá por fé!
A experiência de viver pela fé é a experiência da liberdade para a vida em direção aos outros. Se já não é preciso investir tempo e energia para conquistar os favores de Deus, posso investir na vida dos outros e na vida da criação por causa e motivado pelo amor de Deus. É por isso que Lutero afirmou que, pela fé, somos livres de tudo e servos de todos.
Para refletir, leia Romanos 1.17b.
P. Harald Malschitzky
(Fonte: Jornal Evangélico Luterano, Número 692, Jan.-Fev. 2007, p. 10)