A sociedade contemporânea alijou-se de seu próprio tempo e lugar, pois negou-se à solidariedade com o seu espaço social em que habita, disse o teólogo luterano Vitor Westhelle, na palestra que abriu, ontem à noite, o I Congresso Internacional da Faculdade EST sobre Religião e sociedade: desafios contemporâneos.
Em uma de três teses apresentadas na abertura, Vitor caracterizou a contemporaneidade como uma atitude, que implica a ousadia de encarar o lado obscuro do real. Fazem falta, nessa sociedade marcada pela irresponsabilidade, cronistas que saibam ver no escuro, o lado oculto do que vem à superfície, defendeu.
Crônica intitula dois livros do Antigo Testamento. Em hebraico, dabari himim (palavras coletadas) significa prestar contas dos eventos do dia, das coisas reais do que sucede independente de sua aparente relevância.
O teólogo brasileiro reportou-se à escritora indiana Arundhati Roy, uma das incentivadoras do Fórum Social Mundial, que reivindicava: Temos de encontrar uma maneira de forçar que os fatos reais voltem ao noticiário.
Essa é uma característica que define o nosso tempo e é controlado por um sistema global em que a responsabilidade, por sistêmica necessidade, não faz parte das coisas que contam. Eis porque necessitamos de cronistas que nos contem essas histórias e que sejam acessíveis, afirmou o palestrante.
A ambiguidade, destacou o reitor da Faculdades EST, professor Oneide Bobsin, está presente tanto na religião como na ciência e na política. A ciência, afirmou, empalhou a religião e tirou dela verdades que ela nunca disse. O nosso esforço, nesse congresso, será de não insistir no que a religião nunca quis dizer, admoestou.
A religião, frisou o reitor da EST, tem uma função terapêutica na sociedade, pois se não fosse por ela os hospitais e as prisões estariam ainda mais lotados.
Na presença do prefeito municipal, Ary Vanazzi, e do secretário de Estado da Cultura, Luis Antonio de Assis Brasil, representando na abertura o governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro, Oneide sugeriu, em tom de chiste, que o Estado pagasse imposto às igrejas, pois elas prestam um serviço que não é reconhecido.
Mais de 330 teólogos, pesquisadores e estudantes, de quatro continentes acorreram a São Leopoldo para esse I Congresso com o intuito de analisar, nas palavras do coordenador do evento, o teólogo suíço Rudolf von Sinner, o rico e perigoso potencial que as religiões dispõem de poder contribuir para a convivência pacífica entre os povos.
Ao falar em nome dos nove teólogos sul-africanos presentes no Congresso, o professor de Teologia Sistemática da Universidade da África do Sul, Rothney Tshaka, lembrou que o seu país, assim como o Brasil, tem um fosso entre ricos e pobres. Ele destacou a importância do evento como um espaço para perguntar que papel a religião desempenha num país com tantos problemas.
Na abertura do encontro, von Sinner anunciou a realização do II Congresso Internacional, que a EST sediará de 8 a 12 de setembro de 2014.