Encontro online reuniu diferentes grupos de trabalho para dialogar sobre evangelização relacional e vitalidade comunitária.
No último dia 8 de abril, os Grupos de Trabalho (GTs) sobre Evangelização, Profissão de Fé, Vitalidade Comunitária e Formação de Novas Comunidades tiveram um encontro que conectou a realidade brasileira com experiências transformadoras dos Estados Unidos da América. A convidada especial foi a pastora Maristela Freiberg, que atua há mais de 25 anos na Evangelical Lutheran Church in America (ELCA), no Sínodo de Nova Jersey. O grupos de trabalho foram criados e são acompanhados pela Secretaria de Missão da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB).
Vitalidade além das estruturas
Sob o tema “Vitalidade Comunitária”, a pastora Maristela destacou que a verdadeira evangelização é um processo de presença e acompanhamento. Não é algo que uma pessoa “possui” e transmite a outra. Evangelismo Relacional significa sair da postura de “olhem para nós”, para uma postura de “como podemos estar com as pessoas”, afirmou. Nesse modelo, a igreja se entende como co-criadora com Deus, guiada pelo Espírito Santo e por valores como escuta mútua, relações profundas, coragem para conversas cruciais e compromisso com a diversidade, equidade e inclusão.
Ao relatar a formação da comunidade em Newark a partir de um pequeno grupo latino, Maristela explicou que o objetivo não é apenas atender imigrantes ou um público específico, mas formar uma comunidade de culto, convivência e formação cristã. A experiência evidenciou que a vitalidade não nasce da autossuficiência, mas da capacidade de se relacionar profundamente com o bairro, os vizinhos e o contexto.
Práticas que geram vida
A vitalidade comunitária, segundo a experiência da ELCA, se materializa em ações concretas e, muitas vezes, criativamente disruptivas. Pastora Maristela listou práticas que têm revitalizado comunidades:
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- Dinner church (Igreja na mesa): Encontros em torno da comida, onde sem compartilham também histórias, orações e bênçãos.
- Círculos de cuidado: Apoio mútuo para mães solo e cuidadoras.
- Caminhadas comunitárias: Sair para caminhar, observar o contexto e, após, refletir em conjunto.
- Presença cotidiana: Estar em parques, escolas, cafés, bares e sorveterias. Isto significa: estar onde o povo está, vendo, ouvindo e percebendo os desafios.
A pastora enfatizou a necessidade da “disrupção criativa”, ou seja: ter a coragem de provocar o desconforto necessário para a transformação. Literalmente se faz necessário, em muitos momentos, desalojar pessoas de suas posições e entendimentos.
Enfrentando conflitos e polarização
Em um contexto mundial de polarização política, Pastora Maristela foi incisiva: comunidades vitais não fingem unanimidade. Algumas comunidades passaram a nomear explicitamente seus valores e regras de convivência para enfrentar divergências sem silenciar diferenças. No atual cenário de medo, deportações e tensão social, a igreja tem a tarefa de apoiar, proteger e orar, sustentando mutuamente seus membros.
Outro aspecto central do debate foi a metodologia de discernimento e ação. Maristela apresentou um ciclo de escuta (a Deus, a si, à comunidade e aos vizinhos), experimentação, reflexão e partilha. Neste processo, nenhuma experiência é um fracasso se houver aprendizado. Foi reforçada, com isso, a importância de incluir no planejamento eclesiástico a possibilidade do erro. A igreja precisa recuperar a prática de experimentar sem medo de falhar. Isso é profundamente luterano: somos, ao mesmo tempo, pessoas santas e pecadoras, concluiu Maristela, ecoando a teologia da reforma.
O encontro foi encerrado com oração pedindo coragem para testemunhar o amor de Cristo em meio ao medo e à tensão social. Ficou clara mensagem de que a vitalidade não é um destino, mas um caminho de escuta, presença e ousadia.