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Proclamar Libertação – Volume 1
Prédica: Atos 17.16-34
Autor: Wilhelm Bösemann
Data Litúrgica: 4º Domingo da Páscoa/Jubilate

 

1. Preliminares

1) A perícope esta prevista para o Domingo Jubilate, dia em que no ano de 1976 será comemorado o Dia das Mães. Esta coincidência provavelmente, de acordo com os costumes locais, obrigará o pregador a decidir-se em favor de um outro texto. A inclusão de considerações em torno do Dia das Mães numa prédica sobre Atos 17,16-34 significaria necessariamente um desviar-se da mensagem central da perícope.

2) Para a interpretação do texto Atos 17.16-34 a questão da historicidade é secundária. Antes se trata da questão teológico missionária: Como pode a mensagem de Cristo ser anunciada a um gentio que desconhece as sagradas escrituras do Antigo Testamento? Qual é o ponto de partida para um pregador ou missionário se, aparentemente, está faltando toda base para a compreensão da mensagem de Cristo?

 

2. O texto

V. 16-21: Na sua segunda viagem missionária Paulo chega a Atenas, cidade que naquela época tinha em torno de 5 mil habitantes. A presença de Paulo em Atenas, o centro filosófico do mundo grego, cidade de grandes pensadores como Péricles e Platão, significa um confronto entre a mensagem de Cristo e o paganismo helenístico. Passando pela cidade, Paulo vê o grande número de ídolos. Esta observação provoca nele uma revolta. Ele não pode concordar com o fato que os cidadãos de Atenas colocam no lugar do único Deus um grande numero de daimonia (parece significativo que no v. 18 não é usado theoi“!). Paulo veio a Atenas para falar de Jesus e da ressurreição. Consequentemente surge uma discussão entre ele e os representantes de duas escolas filosóficas, os epicureus e os estoicos. Os dois grupos reagem de maneira diferente a pregação de Paulo: Que quer dizer esse tagarela? (esse conversador). Os outros estão interessados, presumindo que Paulo seja representante de daimonia até então não conhecidos por eles. Eles gostariam de ouvir mais sobre a nova doutrina. Por isso Paulo é levado para o monte chamado Areópago, antigamente local do foro e de discursos públicos. Paulo não se nega de ir junto, e sim, aproveita a oportunidade para anunciar aos cidadãos de Atenas o verdadeiro Deus.

V. 22-31: Como ponto de partida Paulo escolhe a extraordinária religiosidade dos seus ouvintes. Ele fala de um altar que, por causa da inscrição, chamou a sua atenção: Ao Deus Desconhecido. Esta inscrição lhe dá o tema para a sua pregação. O termo theos em vez de daimonia (v. 18) e a forma do singular em lugar do plural (questões muito discutidas entre os exegetas) fazem com que Paulo possa identificar o DEUS DESCONHECIDO com o Deus da Bíblia. Ele pressupõe que os gentios não estão sabendo quem é este DEUS, aparentemente um entre muitos, não o Deus de todos os deuses. Mas a inscrição esta aberta para o conceito cristão do Deus universal. Esta abertura Paulo aproveita e, portanto, o tema da sua pregação na realidade não é O Deus Desconhecido, e sim O Deus universal (veja Calwer Predigthilfen , Vol. 8, pág. 239). Este tema agora é desenvolvido a partir do v. 24: O Deus Desconhecido é o Deus que fez o mundo e tudo o que nele existe. Ele é o Senhor do céu e da terra. Usando o termo kosmos, ele se serve de um dos termos gregos mais centrais, interpretando assim aos seus ouvintes pagãos a passagem Is 42.5. Além disso, a palavra tudo é usada de maneira acentuada: Deus fez tudo o que existe no mundo (24), todos receberam a vida dele (25) e ele fez toda a raça humana para habitar sobre toda a face da terra.

Este Deus não se deixa prender em templos (24), ele não se deixa trabalhar (manipular) pela arte e imaginação do homem (29). Deus não se deixa medir com medida humana, ele e universal. Mas como Deus universal ele está perto de cada um, nele vivemos, e nos movemos, e existimos (27s).

Depois desta sua interpretação de Is 42.5 (e, com isso, do primeiro Artigo do Credo Apostólico), Paulo chega ao objetivo, ao alvo de sua pregação: Se Deus é o Senhor do kosmos, então ele também e o juiz do kosmos. A consequência é que todos em toda parte (30) devem arrepender-se, devem voltar para ele. Esta verdade é fundamentada pela ressurreição de Jesus (cujo nome não é citado). Ele, Jesus, a quem com a sua ressurreição foi dada toda a autoridade no céu e na terra, proclama o que outrora (nos tempos da ignorância) estava oculto: que ele há de julgar o mundo com justiça (31). Neste citado (Sl 96.13) o acento não está na palavra julgar (em contraposição a salvar), mas sim na reivindicação senhorial que Deus faz e realiza com a ressurreição de Jesus. A ressurreição de Jesus revela que Deus é o Senhor do mundo e possibilita a fé no Deus universal. Isto significa , ao mesmo tempo, que é exigido o arrependimento universal. Ele é possível, porque Deus não levou em conta os tempos da ignorância (Compare Calwer Predigthilfen, vol. 8).

V 32-34: As reações à pregação de Paulo diferem: uns escarneceram (zombaram dele); outros gostariam de ouvir mais sobre o Deus universal e sobre o “varão ressuscitado; alguns poucos se juntam a Paulo e creem.

 

3. Meditação

O centro da perícope é, como vimos, a pregação de Paulo sobre o tema: O Deus universal. Esta pregação só é compreensível com base na ressurreição de Jesus. Deus é o Deus universal, porque, com a ressurreição, Jesus foi entronizado por ele como Senhor do mundo. O senhorio de Jesus é também a razão das viagens missionárias de Paulo e da sua estada em Atenas. Toda a humanidade deve saber que o ressuscitado é o Senhor do mundo. Toda missão da igreja tem a sua razão na universalidade de Deus.

Uma meditação sobre esta perícope pode partir do fato que toda a humanidade, hoje talvez mais do que nunca, está em busca de algo que possa dar segurança, uma base firme para uma união universal. E isso numa época em que as distâncias entre os povos e os continentes se tornam cada vez menores. A técnica faz com que nos aproximemos de uma civilização e cultura mundiais. Este desenvolvimento não é nada negativo, não é contra a vontade de Deus. A universalidade já foi prevista pelo criador na criação: de um só fez toda raça humana (26). Desde a criação a humanidade era uma.

Apesar da universalização através da técnica e das ciências, a humanidade permanecerá desunida, no entanto, enquanto não venerar um Deus, uma verdade, uma justiça. O nosso problema talvez não sejam tanto os ídolos, mas, como os atenienses, também a humanidade de hoje é, a seu modo, acentuadamente religiosa. Não faltam construções filosóficas, ideológicas e religiosas que prometem a comunhão e a união universal, justiça e paz. A comunhão, porém, não será estabelecida através de sistemas filosóficos e ideológicos nem religiosos. Ela acontecerá unicamente por meio daquele Senhor que, desde a Páscoa, é o Senhor de toda a humanidade, e não por pensamentos humanos. Deste fato parte a missão mundial da igreja. Ela não propaga pensamentos humanos, nem a si própria. Ela não tem a sua motivação na perdição do homem. Ela quer somente uma coisa: anunciar que o Ressuscitado é o Senhor e que somente nele a humanidade pode encontrar a comunhão e união desejadas.

Reconhecer que Jesus é o Senhor do mundo é arrepender-se, é renunciar aos outros deuses. Os gentios de Atenas prenderam Deus em santuários trabalhados pela arte e imaginação do homem. A cristandade corre o perigo de prender Deus em sistemas doutrinários e formas culturais. Por isso ela deve perguntar-se se não vale também para ela o chamado para o arrependimento.

 

4. A prédica

O Domingo Jubilate cai na época pós-pascal. A perícope oferece uma boa possibilidade para o pregador de falar mais uma vez sobre a ressurreição de Jesus, mais precisamente: sobre o significado da ressurreição para a humanidade.

A introdução deveria conduzir o ouvinte da sua isolação interna para o horizonte universal da mensagem de Cristo. A seguir poderia ser mostrado que a humanidade constantemente (religiosamente!) está à procura de algo que dê segurança, uma base firme para todos (nacionalismo, socialismo, religiões), procura essa, porém, que sempre será em vão, que inclusive esta provocando o contrário do procurado e esperado: a desunião. A mensagem da ressurreição de Jesus liberta o homem da tarefa de ainda ter que criar antes a comunhão. Ela já existe em Jesus, o Senhor do mundo, possibilitando e exigindo fé. O caminho que leva a união é o arrependimento, não uma atividade ferrenha (arrependimento = reconhecer que Deus fez de Jesus o Senhor do mundo).

Pode ser lembrada a segunda estrofe do hino Deus é castelo forte e bom: A minha força nada faz, sozinho estou perdido … Esta renúncia também para nós hoje é uma lição difícil. – Então pode ser falado do fato que Paulo se dirige com a sua prédica aos habitantes de uma cidade pagã: Missão é uma consequência necessária desta mensagem (Compare Calwer Predigthilfen, vol. 8, pág. 243s).

 

5. Bibliografia

BREIT, Herbert & GOPPELT, Leonhard: eds. Calwerpredigthilfen, Stuttgart, Calwer Verlag, vol. 8, pág. 238ss;
SOUCEK, J. B.: Meditação sobre At 17,6-34. In: Götinger Predigt-Meditationen. Göttingen, Vandenhoeck & Ruprecht, 1964, caderno 2;
HAENCHEN, Ernst. Die Apostelgeschichte. In: Kritisch—exegetischer Kommentar üb;er das Neue Testament. Göttingen, Vandenhoeck & Ruprecht, 1961;
STÁHLIN, Gustav. Die Apostelgeschichte. In: Das Neue Testament Deutsch. Göttingen, Vandenhoeck & Ruprecht, 1962;
VERBAND der Ev. Pfarrervereine in Deutschland e. V., ed. Deutsches Pfarrerblatt. Ano 70, pág. 45.

 

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Proclamar libertação é uma coleção que existe desde 1976 como fruto do testemunho e da colaboração ecumênica. Cada volume traz estudos e reflexões sobre passagens bíblicas. O trabalho exegético, a meditação e os subsídios litúrgicos são auxílios para a preparação do culto, de estudos bíblicos e de outras celebrações. Publicado pela Editora Sinodal, com apoio da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB).

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