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Proclamar Libertação – Volume 23
Prédica: Apocalipse 12.1-6
Leituras: Jeremias 31.15-17 e Mateus 2.13-18
Autor: Martin N. Dreher
Data Litúrgica: Dia dos Pequenos Mártires

 

1. Caminhando ao longo do texto

O v. 1 fala de sinal. Sinal é mais do que visão. Todos podem vê-lo; aponta para algo visível! Somos lembrados do que se lê em Is 7.1 Is. O mesmo versículo fala do sol, de sua luz. Somos lembrados do divino, do celeste. Depois vem a lua. Ela carrega a mulher. O número doze parece estar apontando para as tribos de Israel.

No v. 2 aparecem as dores de parto. O termo aparece mais vezes na Bíblia e sinaliza as aflições escatológicas, as dores do final dos tempos.

Já o v. 3 nos confronta com o dragão. Ele é o inimigo de Deus, vermelhão, com sete cabeças, como todo dragão babilônico, e dez chifres, como já Dn 1.7-24 o descreve. O v. 4 lembra Dn 8.10.

No v. 5 temos citação do Salmo 2.9. Com ela, a criança está sendo caracterizada como o Messias, o qual, segundo 19.5; 1.5 e 2.27, é Jesus. Quando lemos sobre o arrebatamento da criança, não podemos ficar pensando em algum acontecimento particular da história de Jesus de Nazaré. O autor do texto pensa em categorias cósmicas.

O v. 6 traz números: 1.260 dias. Trata-se de, aproximadamente, três anos e meio. ((T. 11.2s. e 12.14.) Só posso aventar, aqui, uma suposição: será que o autor está pensando na fuga da comunidade cristã primitiva para Pella, em Gileade? (Leia Mt 24.16,20.) Nesse caso a palavra deserto não estaria muito correta. O texto não diz quem vai sustentar a mulher durante este tempo. Também não especula. Nós também não o fazemos.

 

2. Contemplando

Pensei num racionalista lendo o texto. Ri dele. Imaginei-o procurando explicação lógica para cada um dos detalhes. Vi como ele pretende interpretar cada um dos detalhes. Imaginei-o confrontado com contradições. Fiquei com pena dele: não vê a beleza das cores, não sente a dramaticidade, não acompanha os movimentos.

Com isso não estou dizendo que aspectos do texto não possam ser encontrados nas descrições e nos livros sagrados de muitas religiões. Podem. Não creio, porém, que seja importante agora.

Pensei no psiquiatra lendo o texto. Diz ele que nossos sonhos têm a ver com o que vivenciamos e com aquilo que nos passou pela cabeça. Estamos no mundo dos sonhos. Na linguagem que é peculiar ao sonho são expressos temores, medos, esperanças, expectativas, esperanças, discussões com problemas, desejos. A situação do visionário não é distinta da do sonhador. Consciente, desperto, ele experimenta e concebe, tem materiais para suas visões. Toda a problemática das situações que o visionário vivência e com as quais se digladia movem a visão, colocam-no em movimento. Quem quer interpretar uma visão tem que partir dessa constatação. Não pode partir de critérios dogmáticos e procurar colocar o visto no esquema do dogma. É só meditando que a gente consegue chegar a compreender textos como o que temos em Ap 12.1-6. Só o poeta e quem tem sensibilidade para a poesia podem penetrar o texto sem destruí-lo, sem feri-lo, sem despedaçá-lo.

Sei que estou em meio a um trabalho exegético e que o dogma também deveria aparecer, mas… não quero destruir a imagem, dissecando e entregando-a morta ao leitor. Agora, também não o estou convidando a partir para a psicologia ou para a estética e deixar a teologia de lado. Quero que fique evidente que não estou lendo o texto para explicar psicologicamente o que um visionário viu há muito tempo em Patmos. Até que daria um estudo interessante, um artigo para revista especializada. O que me interessa aqui, porém, é o que Deus quer dizer à sua Igreja. O que me interessa aqui não é nem psicologia, nem estética, mas revelação. O visionário que se encontrava em Patmos tem temores, desejos, dores, e… consolo. Não se sabe só. Deus falou. Ele vive dessa certeza. E sabe: Deus fala de muitas maneiras. Deus fala na Sexta-Feira Santa. Deus fala com a clareza das palavras de Paulo. Deus fala através da linguagem do mito, da visão. O que nos interessa aqui não é a experiência visionária, mas a palavra de Deus nessa experiência. Do mesmo modo, não me interessa o tipo de madeira com que foi feita a cruz de Jesus – não sei se foi eucalipto ou angico! O que interessa é a palavra de Deus na cruz.

Vamos contemplar… Já vi muitas gravuras apresentando a mulher da visão. São belas. Nenhuma delas, porém, conseguiu reproduzir as cores e a beleza, o movimento do visto. A visão, então, tem que ter sido muito mais grandiosa do que o que foi posto no papel para ser parte do capítulo 12 do Apocalipse. O palco é o céu, melhor, no céu, junto ao céu. Ali aparece um grande sinal. A mulher dá à luz o messias. O mundo todo espera, aguarda. O brilho insuportável do sol envolve a mulher como se vestido fosse. Quase não se consegue ver os contornos. Tudo é luz. A luz é tanta que o visionário talvez mais suspeite do que veja tratar-se de uma mulher. Mas há nuances no brilho da luz. Ali onde deveriam estar os pés da mulher o brilho não é mais dourado, mas prateado. A lua. Sobre a cabeça da mulher há uma coroa, com 12 estrelas, 12 pontos luminosos. Será que realmente deu para contá-las em meio a tanta luz? O 12 é um símbolo forte. Doze são as tribos de Israel (21.12,14,21).

Célere, tudo muda. Antes era o brilho da luz. E como é importante a luz nos textos joaninos! Pegue depressa a chave bíblica para constatá-lo! E, agora, os grilos da mulher, em dores de parto, parindo. É um pesadelo? Mudança brusca de cena? Tudo está tão próximo nessa mulher: glória celeste e, ao mesmo tempo, gritos de dor, berros de criatura com medo. Li o pesadelo aumenta: além das dores de parto aparece a ameaça na forma do dragão vermelho. Ele tem sete cabeças e dez chifres. É terrível demais para imaginá-lo. Mas ele tem cara, que nos é desvendada no cap. 17 (7,9,10,16,18). Ele é uma cidade, construída sobre sete colinas: Roma! Ela e suas aliadas são aquela velha cobra, chamada diabo ou satanás, que engana todas as pessoas do mundo (12.9). Vendo o que o visionário vê, tremo, pois o dragão é tão poderoso que o seu poder chega ale o céu (arrasta do céu a terça parte das estrelas e as joga sobre a terra, v. 4) e espera a criança nascer para devorá-la. Ele está ali, plantado, esperando. A mulher não pode se mover, tem dores, medos e… bate o desespero diante do dragão. Ele quer a criança. Seu objetivo: devorá-la. A criança só tem um nome: o Messias, Jesus. O visionário verifica: Roma teme o Messias. Deus, porém, arrebata a criança, antes que o dragão a pegue. A mãe consegue fugir para o deserto.

 

3. Interpretando

Paro de contemplar e interpreto. Quem é a mulher? É a mulher que dá à luz o Messias. Parece ser Maria. Mas ela também é a mãe de muitos outros (o dragão ficou furioso com a mulher e foi combater contra o resto dos descendentes dela, os que obedecem aos mandamentos de Deus e são fiéis à verdade revelada por Jesus – 12.17). Quem é a mulher? Maria, a Igreja?

Para entender, lembro que todo o Apocalipse é uma única e grande discussão com o culto ao Imperador. O poeta Marcial louvava Domiciano, dizendo que seu rosto era reprodução do céu; seus traços eram os de Júpiter. O próprio Domiciano considerava seu trono sé dos deuses. Forçava seus súditos a lhe fazerem sacrifícios. Ele tinha a seu filho como criança divina. Quando a criança faleceu, no ano de 83, foi proclamada deus. Domícia, sua mãe, foi declarada mãe de Deus. Uma moeda mandada cunhar por Domiciano mostra a criança arrebatada ao céu, brincando com os sete planetas. Esse brincar simboliza o seu poder celeste, que é reproduzido pela inscrição na moeda: desde o céu governa o Divino César, Filho do Imperador Domiciano.

Contra essa heresia o Apocalipse se volta. Sua linguagem é figurada, mas clara: o Filho de Deus é um só – Jesus Cristo! O divino Senhor (= César) é o Filho de Deus! Domiciano não é Deus, é um embuste! Leiam-se, agora, os versículos 10-12, que não pertencem à nossa perícope, mas que a elucidam. Leia-os em voz alta:

Agora chegou a salvação de Deus. Agora Deus mostrou o seu poder como rei! Agora o Messias que ele escolheu mostrou a sua autoridade! Porque o acusador dos nossos irmãos, que estava diante de Deus para acusá-los dia e noite, foi jogado fora do céu. Os nossos irmãos o derrotaram por meio do sangue do Cordeiro e da verdade que anunciaram. Eles estavam prontos para dar a sua vida e morrer. Portanto, ó céu e todos vocês que vivem nele, alegrem-se! Mas ai da terra e do mar! Pois o Diabo desceu até vocês c ele está cheio de raiva porque sabe que tem somente um pouco mais de tempo.

As comunidades da Ásia Menor padeceram terrivelmente sob Domiciano. Sentiram a radicalidade que há entre o brilho da luz celeste e a miséria que pode ser a vida da Igreja. Souberam o que é experimentar o brilho do Natal e a miséria da perseguição. Juntamente com o grande testemunho de sua experiência que é o Apocalipse, elas não eliminaram perseguição e sofrimento, mas aguentaram a tensão da luz natalina e da experiência do deserto. O dragão procurou destruir a mãe e sua criança. Agora, o dragão procura destruir a mãe, a comunidade de Jesus Cristo. Mas Deus cuida para que ela sobreviva em segurança. Deus protege a sua Igreja ante as fauces do dragão romano, do monstro Domiciano. Deus leva sua Igreja para o deserto. Será o deserto do primeiro amor (Os 2.16)? Será fuga da primeira comunidade para Pella, antes da destruição de Jerusalém? No passado, Deus carregou Israel com asas de águia; nos dias do Apocalipse ele carrega a sua Igreja. O mesmo ele segue fazendo também hoje. A comunidade deve ter a certeza de que as portas do inferno não prevalecerão sobre ela. Essa é a promessa de Deus. Deus já tomou sua decisão a respeito da Igreja. A criança da manjedoura não foi vencida por Roma. Ela vive desde a manhã da páscoa. A comunidade reunida em torno da manjedoura não será vencida, mesmo estando no deserto. O tempo do deserto é de apenas três anos e meio, e não de sete, nem de setenta vezes sete anos. O dragão só tem um pouco mais de tempo.

Depois da pregação fico com vontade de cantar: Deus é castelo forte e bom e Alma bendize, o Senhor poderoso da glória. Ali tem asas fortes e vitória sobre o inimigo que quer devorar a criança e nossas esperanças.

 

4. Bibliografia:

– KRAFT, Heinrich. Die Offenbarung des Johannes. Tübingen: J. C. B.Mohr, 1974;
– ROLOFF, Jürgen. Die Offenbarung des Johannes. Zürich: Theologischer Verlag, 1984;
– STAUFFER, Ethelbert. Christus und die Cäsaren. 4. ed. Hamburg: Friedrich Wittig, 1952.

 

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Proclamar libertação é uma coleção que existe desde 1976 como fruto do testemunho e da colaboração ecumênica. Cada volume traz estudos e reflexões sobre passagens bíblicas. O trabalho exegético, a meditação e os subsídios litúrgicos são auxílios para a preparação do culto, de estudos bíblicos e de outras celebrações. Publicado pela Editora Sinodal, com apoio da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB).

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