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Proclamar Libertação -Volume 23
Prédica: Apocalipse 1.9-20
Leituras: Atos 5.12, 17-32 e João 20.19-31
Autor: Sílvia Beatrice Genz
Data Litúrgica: 2º Domingo da Páscoa
Data da Pregação: 26/04/1998

 

Quando recebi a indicação dos textos para o PL me alegrei, pois estudar e saber um pouco mais sobre o Apocalipse é um desafio. Comecei a pensar na ênfase a ser dada nesse estudo. Optei em ler e olhar para aquela literatura que não faz apenas uma análise do texto em si, mas que também traz alguns subsídios sobre a situação da época em que o livro surgiu.

O livro do Apocalipse impressiona e causa medo, porque muitos falam sobre o mesmo o que ele não é. O Apocalipse usa símbolos e mitos para relatar a situação das comunidades, nas origens do cristianismo. O Apocalipse mostra como os cristãos ficaram firmes na sua fé em Jesus, o único Senhor, que venceu a morte.

Quando lemos a respeito do Apocalipse sentimos que estamos diante de uma situação específica: a realidade concreta de perseguição. O contexto histórico do Apocalipse é o enfrentamento econômico, político, cultural, social e religioso da comunidade cristã com o Império Romano. O Apocalipse surge na Ásia Menor, no final do primeiro século. Ele aparece, pois, no meio do fervo da perseguição e massacre de cristãos. Nessa situação, é preciso resistência e esperança. O Apocalipse leva a comunidade cristã a reconstruir sua esperança e sua consciência. Inspirado pelo Espírito, o autor do Apocalipse estuda e discerne o passado para tirar consequências e ensinamentos para o presente.

Pesquisadores dizem que para situar o Apocalipse é preciso estudar o imperial, instrumento de poder do Império Romano.

 

1. O culto imperial

Ocupemo-nos da dominação religiosa imposta ao povo pelo Império Romano, que exigia de todos os cidadãos a adoração do imperador como sendo um deus. Templos e altares foram erguidos nas províncias romanas em honra ao imperador, pois ele era considerado o senhor, um deus todo-poderoso, assim definido pelo Império e sustentado pela classe dominante. Os intelectuais romanos eram, na sua maioria, ateus e hostis à religião.

Há notícias de que no ano 29 foi levantado um templo a Júlio César. Já o imperador Augusto não permitiu que templos fossem a ele dedicados. Ele abriu espaços, no entanto, para religiões, deuses e deusas do passado, bem como ao surgimento de novas divindades. No dia do nascimento de uma nova divindade era realizada uma grande festa. A palavra euangelía era usada para anunciar essa boa notícia.

A Ásia, provável localização das sete comunidades citadas no Apocalipse (1.4; 1.11), fora invadida há séculos pelas religiões orientais, fato que ajudou a aumentar o número de divindades.

Relacionado a esse tema, ainda queremos citar algo a respeito da era do imperador Domiciano (81-96), período em que provavelmente o Apocalipse foi escrito. Alguns exegetas dizem que o livro pode ter sido iniciado já no período de Nero (54-68), quando ocorreram grandes perseguições aos cristãos. Domiciano assumiu com mais seriedade a religião do Estado que o imperador anterior. Ele se autodenominava de senhor, kyrios em grego, dominus e deus em latim. Eram essas as inscrições cunhadas nas moedas orientais da época. Em Éfeso, por exemplo, era comum o culto ao imperador Domiciano.

Também chegou a existir um templo particular com uma gigantesca imagem de Domiciano, o que demonstra a forte veneração prestada ao imperador, exigida, aliás, por ele mesmo. Domiciano era um administrador eficiente e perseguiu os cristãos aplicando uma violência terrorista. Dá para imaginar, pois, o choque que isso representou para os cristãos. Por um lado, o poder romano, que exigia o culto ao imperador. Por outro lado, a fé dos cristãos, que dirigiam-se em culto a Jesus Cristo, Filho de Deus. O culto ao imperador significava, para eles, um choque frontal com sua fé. Isso talvez nos ajuda a entender porque o Apocalipse fala tanto em celebração e em imagens celebrativas. Cristãos celebram afirmando que Deus é o Senhor, que Jesus Cristo é o Filho de Deus e o ressurreto vivo, presente com o Espírito. Já o Império Romano, com todo o aparato de força e poder de dominação em suas mãos, proclamava o imperador como senhor.

 

2. O texto

V. 9: Eu, João, é uma forma profética usada no AT, provavelmente conhecida da comunidade. O autor do Apocalipse se identifica com a comunidade. Ele coloca-se e está na mesma situação da comunidade, e concretamente a ela ligado. Sua posição teológica é firme na realeza e na perseverança em Jesus.

João fala de um lugar concreto, a Ilha de Patmos. Ele está lá por causa da Palavra de Deus e do testemunho de Jesus. Provavelmente ele estava exilado, preso, por não concordar com a ideologia do poder romano. A Palavra de Deus e o testemunho de Jesus são o conteúdo do Apocalipse, e a causa da morte violenta de muitos da comunidade, conforme lemos em Ap 6.9; 20.4.

V. 10: No dia do Senhor – nesse dia a comunidade reúne-se para celebrar a ressurreição e presença de Jesus Cristo. Nesse dia, em especial, João sente-se bastante ligado à comunidade. Pablo Richard diz que ele tem essa visão durante a Eucaristia, pela liturgia, conforme 1.4-8 e 22.17-20. Movido pelo Espírito Santo, João recebe uma mensagem nesse dia. Ele ouve uma voz forte, como uma trombeta, instrumento que produz som em alto volume.

V. 11: O pedido é escrever num livro o que o autor vê estar acontecendo com a comunidade e com ele próprio por causa da Palavra de Deus. A dominação romana não se deu apenas com palavras e agressões, mas com morte (6,9). João recebe a ordem de escrever um livro às sete igrejas de Éfeso, Esmirna, Pérgamo, Tiatira, Sardes, Filadélfia e Laodiceia. Cito aqui Rottmann (p. 65), que faz uma excursão para dentro da situação das sete comunidades mencionadas:

1) Éfeso, aquela igreja onde durante mais ou menos 30 anos o apóstolo morava e onde estava em atividade apostólica, com campo na província da Ásia, provavelmente em toda a sua extensão. João certamente conhecia pessoalmente todos os membros dessa igreja: conhecia seus problemas, suas fraquezas, vitórias e derrotas. 2) Esmirna, com sua congregação quase modelar e que estava sofrendo, porém, na graça do Senhor, ao mesmo tempo vencendo. Lá é uma das duas igrejas que em sua carta não recebe repreensão alguma. 3) Pérgamo, a igreja naquela cidade rica e que, no entanto, já viu a morte de mártir de um de seus líderes fiéis, Antipas (2.13). 4) Tiatira, a cidade de Lídia, que com sua casa foi o primeiro fruto do trabalho missionário do apóstolo Paulo na Europa, onde em Filipos, depois de ser balizada, dava hospedagem a Paulo, Silas e Timóteo (At 16,11-15). 5) Sardes, onde a igreja estava sob fortes pressões, tensões e tentações. Os poucos fiéis necessitavam muito de encorajamento espiritual. 6) Filadélfia, com aquela igreja que, desde que recebeu essa carta e pelo seu conteúdo, serviu de modelo de uma congregação de pouca força, porém de profunda fidelidade. 7) Laodiceia, aquela igreja tão abastada em bens terrenos, porém tão empobrecida espiritualmente e à beira de se perder completamente… Ah! João conhecia todas elas, e quanto mais o Senhor da Igreja…

Cada comunidade com suas características, problemas e dificuldades… que entendemos, pois algumas dessas questões estão presentes nas comunidades de hoje. Sabe-se que havia outras congregações, embora somente sete fossem citadas.

V. 12: João ouviu uma voz, mas não viu quem falou. Viu, no entanto, sete candelabros de ouro. Nesse versículo aparece a explicação do significado dos sete candelabros, que são as sete comunidades para as quais João deve escrever. Nas mensagens percebe-se que as comunidades são conhecidas. Jesus está presente nas igrejas e dirige uma mensagem específica a cada uma delas como força para suportarem a perseguição do Império. Ele anima para uma vida de fé e resistência.

V. 13: No meio dos candelabros aparece alguém, o Filho do homem, que João sabia tratar-se de Jesus. Alguns comentaristas se referem a citações em Daniel, que têm o mesmo estilo e são conhecidas das comunidades. Dn 7.13, por exemplo, fala que na visão surge alguém como o Filho do homem.

No texto, o Filho do homem usa vestimentas significativas: uma longa túnica, como um sacerdote; um cinto de ouro, mas na altura do peito, como um rei. Só Jesus é rei e Senhor. Ele é o centro, e não o imperador. O candelabro, um lampadário com muitas ramificações, pode lembrar-nos da Igreja: há muita luz e lá no meio está o Senhor. A Ele devemos prestar culto. Ele é a luz.

V. 14: A descrição continua. Não podemos entrar em todos os detalhes, mas chamar a atenção para os olhos, que são como chama de fogo, que perpassam tudo. Nada ficará oculto.

V. 15: O Senhor todo-poderoso vence e supera todas as forças.

V. 16: Aqui mais uma vez há referência ao número 7. O número 7, no Apocalipse, significa plenitude. Por isso, muitos comentaristas pensam numa plenitude eclesial e universalizam essas mensagens como sendo abstratas, dirigidas a toda a Igreja, de todos os tempos. Isso contradiz o sentido do texto. Se João escolhe sete igrejas e não dez ou mais, que certamente existiam na região, é para dar plenitude e caráter universal a uma realidade concreta. A universalização não nega o caráter real e concreto de cada comunidade. São comunidades realmente existente (Richard, p. 96).

V. 17: João caiu morto, mas logo sentiu o carinho, o consolo, a força, a vida quem vem daquele que diz Eu sou o primeiro e o último, o Senhor de tudo e de todos.

V. 18: Eis que estou vivo, são palavras para relembrar paixão, morte e ressurreição de Cristo, e afirmar: Cristo vive. Aqui pode-se fazer uma relação com o Evangelho de João, uma das leituras indicadas. O Cristo vivo, o Senhor sobre a vida tem as chaves. Ele é o Deus que age, que envia e pede para anunciar o que se viu e o que se experimentou.

V. 19: Escreve, fala sobre os acontecimentos de agora e os que ainda vêm, e envia essas informações para as sete comunidades. O agora refere-se à presença corporal e histórica de Jesus nas comunidades e isso significa força que dele emana, tal qual olhos como chama… É preciso muita força, pois a realidade é cruel, o momento histórico é de perseguição aos cristãos até a morte. A respeito das coisas que devem acontecer podemos ler nos capítulos posteriores. O v. 19 reafirma o que é dito no v. 11.

V. 20: Aí aparece uma explicação: as sete estrelas são os anjos das sete igrejas, e os sete candelabros são as sete igrejas.

 

3. Conclusão e ideias para a reflexão no trabalho pastoral

3.1. Os textos indicados

Temos a indicação de três textos que se relacionam entre si. O tema não pode deixar de ser Jesus Cristo, o Filho de Deus, morto e ressurreto e Senhor sobre a vida. Jesus Cristo é Deus em ação. Ele envia e pede para que se anuncie.

3.2. Apocalipse, um livro de resistência e denúncia, celebração e testemunho da esperança

O Apocalipse é um livro de resistência frente ao poder do Império Romano, frente à injustiça e à opressão. É um livro que sublinha a fé e submissão à vontade de Deus. Denuncia todo o sistema e o culto ao imperador.

O Apocalipse é um livro que aponta para a celebração cm várias passagens. O texto estudado tem referência direta com a celebração, pois a visão de João se dá no dia do Senhor, dia em que a comunidade se reúne e tem forte relação com a vida litúrgica, a contemplação. O texto anterior (1.4-8) tem forte conotação eucarística (tratar-se-ia de uma oração eucarística?).

O dia do Senhor é dia de celebração. Em Ap 22.17 está presente a ideia do momento da Eucaristia. A Igreja possui Jesus Cristo inteiramente; Jesus possui a comunidade, conhece a comunidade e nela está presente. Eucaristia é a presença real de Cristo, é certeza, é afirmação de que Cristo morreu e ressuscitou. Ele vive!

Testemunho de esperança é a própria ordem do Filho do homem. Escreve, diz a ordem, fala dos acontecimentos de agora e dos que virão. O texto assegura a presença de Deus, que fala: Não temas! Eu sou o primeiro e o último, o vivente!

 

4. Olhando para a realidade

Assim como naquela época pessoas tipo João falaram e escreveram, denunciaram o poder autoritário de imperadores e governantes, temos hoje pessoas que questionam e denunciam as injustiças existentes ao nosso redor. Cito, a seguir, um texto escrito pelo colega Breno Schumann, falecido em acidente automobilístico em 1972, quando tinha 34 anos de idade. O artigo foi escrito em 1967 e publicado no Centro Ecumênico de Informação (CEI). Era uma época difícil, em plena ditadura militar. Gostaria de citá-lo na íntegra, o que não é possível. Trago, portanto, algumas linhas do artigo Existência cristã na realidade política:

… é a perversão de uma ordem, assim que a injustiça passa a ser considerada justa e legal, a opressão é integrada nas estruturas jurídicas e a violência se torna sinônimo de poder. Neste caso, o Estado estará desrespeitando flagrantemente a vontade de Deus. Que poderá ou deverá fazer a Igreja?

– Qual é a nossa posição em relação aos sem-terra?

– Qual é a nossa posição frente ao salário mínimo, que comprovadamente não é de sobrevivência?

– Qual é a nossa posição frente à violência…?

 

5. Conversando com a comunidade sobre o texto

A reflexão a partir do texto leva-nos à ideia de escrever sobre a história da comunidade, a registrar fatos como:

– O sofrimento e as dificuldades em época de revolução.

– A história de perseguição e prisão de descendentes de alemães na época da Segunda Guerra Mundial.

– As dificuldades que as comunidades tiveram que enfrentar no início de sua constituição, tais como: construções, locomoção, falta de pastores, e, de modo especial, sobreviver num país onde o catolicismo era a religião do Estado.

– Como é possível resistir em meio a uma situação de perseguição e de morte por causa do evangelho?

– O que move as pessoas a suportarem e permanecerem firmes na fé? – Deveríamos celebrar a Eucaristia (Santa Ceia) neste culto?

Observação: No PL VII, p. 65ss., e PL XIII, p. 133ss., você encontrará estudos sobre o mesmo texto.

 

6. Bibliografia

LOHSE, Eduard. Die Offenbarung des Johannes. Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1966. (NTD);
RICHARD, Pablo. Apocalipse, reconstrução da esperança. Petrópolis: Vozes, 1996;
ROLOFF, Jürgen. Die Offenbarung des Johannes. 2. ed. Zürich: Theologischer Verlag, 1987;
ROTTMANN, Johannes H. Vem, Senhor Jesus: Apocalipse de S. João. Porto Alegre: Concórdia;
RUIZ, José M. Gonzáles. Apocalipsis de Juan: el libro del testimonio cristiano. Madrid: Cristiandad, 1987.

 

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Proclamar libertação é uma coleção que existe desde 1976 como fruto do testemunho e da colaboração ecumênica. Cada volume traz estudos e reflexões sobre passagens bíblicas. O trabalho exegético, a meditação e os subsídios litúrgicos são auxílios para a preparação do culto, de estudos bíblicos e de outras celebrações. Publicado pela Editora Sinodal, com apoio da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB).

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