| Natal |
| Agora é definitivo, Deus cuida da gente! |

É amplamente conhecida a metáfora do homem que pisou em um formigueiro e desejou pedir desculpas às formigas, mas constatou que só poderia fazê-lo caso se transformasse em uma formiga. A metáfora parece vir de Billy Graham, Evangelista vinculado à Igreja Batista nos Estados Unidos da América e conhecido mundialmente. Ela consta em seu livro ‘Em paz com Deus’ (3ª edição, Editora Record, 1995, p. 87-88) e pretende ilustrar o significado da revelação de Deus, através de Jesus Cristo, ao mundo. Fica fácil de fazer a comparação: assim como as formigas não compreendem o pedido de desculpas de um homem, pois não se comunicam pela linguagem humana, assim a humanidade não compreende o amor de Deus, pois Deus é Deus e o humano é humano. Através da obra salvadora de Jesus Cristo, que ‘tornou-se carne e habitou entre nós’ (João 1.14), a mensagem divina do amor foi, porém, traduzida para a linguagem humana.
A metáfora tem, no entanto, um claro limite: mesmo Deus falando com a humanidade por meio do homem de Nazaré, ela continua carente da sua graça, pois, como formula Lutero, ‘por nossa razão ou força, não conseguimos crer em Jesus Cristo’ (Catecismo Menor). Em outras palavras, as formigas não mudariam de atitude após receberem, em sua própria linguagem, a mensagem de amor do homem tão compadecido por elas. Atitude de formiga é inerente à natureza de formiga, por isso o amor demonstrado às formigas ficaria sem resposta, mesmo comunicado em linguagem própria delas. Assim também os humanos continuam pecando e carecendo da glória de Deus, apesar de conhecerem a vontade de Deus revelada em Jesus de Nazaré. Como diz o apóstolo Paulo aos Romanos ‘Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus; sendo justificados gratuitamente pela sua graça, pela redenção que há em Cristo Jesus’ (Rm 3.23-24). A questão é: somos justificados gratuitamente pela sua graça e não porque finalmente aprendemos a nos justificar por Deus ter nos ensinado em uma linguagem que conhecemos muito bem, a vida terrena.
Para que serve, então, a metáfora? Ela nos comunica o imenso cuidado que Deus tem por nós. Para compreendê-lo, vamos fazer um exercício e modificar o seu sentido, contando que o Jardineiro sentiu vontade de se tornar uma formiga para pedir a elas que parassem de cortar suas lindas flores. Neste caso, ela estaria ensinando que Deus se tornou gente em Jesus Cristo para nos dizer que não devemos destruir o planeta, matar o nosso irmão e a nossa irmã, enfim, que não devemos praticar o mal ou simplesmente que não devemos pecar. Esta, porém, não foi verdadeiramente a motivação do homem da metáfora. O sentido é que o tal homem tinha pisado no formigueiro e viu que as formigas entraram em apuros. Agora, ele queria comunicar que não era essa situação, a situação de viver em apuros, a sua vontade. Queria dizer para as formigas que o pensamento dele não era de destruição. Falando da relação de Deus com a humanidade, o profeta Jeremias o formula assim ‘Porque eu bem sei os pensamentos que tenho a vosso respeito, diz o SENHOR; pensamentos de paz, e não de mal, para vos dar o fim que esperais’. (Jr 29.11)
Aí está o ponto que coloca o Natal na perspectiva do cuidado de Deus. O Natal do nosso Senhor Jesus Cristo é a definitiva palavra de Deus, dita em linguagem e em carne humana. Deus se dirige à humanidade de tal forma que impossibilita a exclusão, pois acontece entre a maior glória – os anjos cantam – e a maior dor – o menino não tem espaço para nascer. Assim Deus proclamou definitivamente que cuida da humanidade em todas as dimensões da vida, mesmo quando ela especialmente se sente em apuros e em tudo vê motivos para supor que foi pisada por Deus com uma enorme botina esmagadora, o menino de Belém mostra o contrário.
O Plano Missionário da IECLB é justamente fundamentado assim ‘Desde o começo da história de Deus com o mundo, seu olhar sempre foi de bondade, misericórdia e compaixão. O olhar amoroso e apaixonado de Deus para com o mundo inicia com a criação. Começa com o seu gesto que dá forma, ordem, luz e vida ao caos e à escuridão que cobria o universo, inicia com o seu ato de amor que cria homem e mulher à sua imagem e semelhança. Ao longo da história, Deus sempre tenta restabelecer a harmonia da criação, quebrada pela desobediência humana. É em Cristo Jesus que Deus revela o seu maior e mais belo gesto de amor a todas as pessoas’. (Missão de Deus – Nossa Paixão, Plano de Ação Missionária da IECLB – Texto-Base, p. 30-31).
O cuidado de Deus que celebramos no Natal abarca tudo o que pode estar entre os fenômenos do coral de anjos no céu e do zumbido de moscas no sub-humano e fétido ambiente da estrebaria. A partir daí, não existe mais a possibilidade de, em nossas Comunidades, acontecer algo que não esteja nesse leque de amor e cuidado aberto por Deus no Natal de Jesus. O amor e o cuidado de Deus se movimentam entre a Festa de KERB e a Casa Mortuária, entre o ambiente agradável da Igreja do centro e o assento seboso do ônibus da periferia, entre a tarde alegre do chá servido no salão comunitário e o quarto do hospital com o doente terminal, entre a fiel, participativa e solidária família e o aproveitador de bênçãos e benefícios comunitários que se mantém na Igreja pela pechincha anual.
A Igreja que aceita o Natal do nosso Senhor Jesus Cristo como critério da sua pastoral tem diante de si um leque de ação que vai do céu à estrebaria. Não precisa mais investir na construção de imagens e monumentos em madeira, cimento ou bronze para Deus, pois o seu rosto tornou-se definitivamente humano no filho de José e Maria, assim como já fora com Adão e Eva.
Jogral – É Natal, Deus me achou!
Material: uma mesa; uma tira com 12 bonecas pequenas recortadas em cartolina, dobrada de tal forma que as bonecas fiquem em pé, uma vela grande, uma vela pequena, uma tesoura e pessoas que narram a história.
Narrador 1: a primeira ação de Deus que temos notícia nos mostra todo o cuidado que Ele tem por nós. A terra era vazia, sem forma, escura. Era uma bagunça só.
Narrador 2: Deus criou a luz e colocou ordem no caos. (acender a vela grande sobre a mesa).
Narrador 1: deu-nos a terra (apontar para a mesa) com animais, árvores, flores, alimentos para comer, ar para respirar e tudo era muito bom.
Narrador 3: neste lugar bom aqui na terra, Deus nos deu a oportunidade de viver (devagar, colocar bonecas na mesa).
Narrador 2: como Deus não gosta de dependência (pegar a tesoura e, sobre os bonecos, fazer o gesto de cortar os fios das marionetes), ele nos escolheu para tomar conta da terra e de todas as suas criaturas. Começamos a andar com pernas próprias e inventamos de tudo.
Narrador 3: cada vez que algo não dá certo, cada vez que algo de ruim acontece (separar uma boneca da tira, rasgando a emenda nas mãos), sentimos vontade de devolver tudo para Deus e reclamamos ‘por que Ele fez isso comigo?’
Narrador 1: mas Deus nos deu a possibilidade de escolher (mostrar que uma boneca pode cair).
Narrador 2: quando tudo vai bem, sentimos vontade de ir adiante, ensaiamos novos passos, esquecemos de olhar ao redor e nos aventuramos sozinhos (as bonecas caem da mesa para o chão).
Narrador 3: nós caímos e ficamos assim separados da luz de Deus. Pecado é interromper o contato com Deus. Vejam, as bonecas estão no escuro, na sombra. A luz de Deus, a verdade, não chega a elas. Adão e Eva tiveram que sair do jardim do Éden, da presença de Deus. No escuro, nas trevas, não é fácil achar o caminho de volta e encontrar novamente a luz.
Narrador 1: então, o que Deus fez? Ele enviou seu filho Jesus a nós (acender a vela pequena na vela grande, ‘procurar’ as bonecas e colocá-las sobre a mesa).
Narrador 3: a Bíblia chama Jesus Cristo de A Luz do Mundo. ‘O povo que andava nas trevas viu a grande luz, e aos que viviam na região da sombra da morte, resplandeceu-lhes a luz’ (Is 9.2).
Narrador 2: quando celebramos o Natal neste ano de 2009, o fazemos para lembrar que Jesus procurou as pessoas que caíram, procurou a humanidade que se afastou dele. Desde então, ele cuida de nós bem de perto.
Narrador 1: não precisamos procurá-lo em imagens fenomenais, em acontecimentos extraordinários. Ele se tornou simplesmente gente como nós. Hoje, ele procura por nós. Ele vai nos encontrar, também se estivermos na sombra.
Narrador 3: por isso dizemos: ‘Neste Natal, façamos como Deus, viremos gente!’
O Pastor Leonídio Gaede e a Catequista Marlene Zizemer Gaede, residentes em Teutônia/RS, são casados e atuam na IECLB desde 1983. Concluídos os estudos na Faculdade de Teologia, o P. Leonídio foi enviado para Erval Seco/RS, onde assumiu as funções pastorais na Paróquia Evangélica Martin Luther, pela qual também Marlene foi contratada como Professora Catequista. Muito cedo, houve o despertamento do casal para a questão da Saúde Comunitária, baseado na observação da falta de cuidados básicos em muitos casos. Marlene passou a trabalhar com grupos de mulheres, nos quais eram tratados assuntos desde a higiene pessoal e a alimentação integral e natural até o uso responsável de chás caseiros e medicação prescrita. Na década de 1990, criaram o Retiro de Desintoxicação e Jejum, cuja idéia se espalhou e continua hoje acontecendo em diversas regiões do País. Por meio de cursos, prepararam-se no decorrer dos anos para atuação na área da abordagem corporal associada ao aconselhamento pastoral e à orientação culinária. Hoje, Marlene atua no Projeto de Saúde Comunitária desenvolvido pelo Centro de Apoio ao Pequeno Agricultor (Capa) em parceria com o Sínodo Vale do Taquari, onde também o P. Leonídio atua como Coordenador do serviço de formação contínua.