
“Então, depois de criar o mundo, o que Deus fez?”, perguntou a pequena rã à sua mãe. “Não sei, filho, talvez tenha parado para pensar no que fez. Certa vez, ouvi um Pescador dizer que Deus descansou e que por isso ele não precisava se preocupar com o lixo no rio, pois Deus sabia o que fazia”. A pequena rã ficou quieta e pensativa. Depois de um tempo, perguntou: “Mãe, então Deus não colocou ninguém pra cuidar do que ele criou?”. A mamãe rã, já acostumada às intermináveis perguntas do filho, respondeu, cuidadosamente “Deus encarregou o ser humano de cuidar de tudo, inclusive de nós, as rãs”. Com esta resposta, a rãzinha, surpreendentemente, fechou os olhos e dormiu. Ao acordar, saiu para a sua exploração habitual em busca de conhecimento sobre os inimigos naturais das rãs, o que incluía os humanos, e sobre o comportamento do vento e das águas. Pulou e pulou até encontrar uma árvore caída, onde subiu. As águas namoravam faz tempo as suas raízes até que, sem a sustentação, ela caiu. Não demorou muito, a árvore se desprendeu da margem e se deixou guiar pela correnteza. “Estou mal!”, pensou a rãzinha, que, naquela hora, não conseguiu refletir sobre mais nada, a não ser em se equilibrar no balanço dos ramos e no que mais temia – o inferno sobre o qual a mãe havia falado e que tinha o terrível nome de Rio da Morte. A certa altura, o sol, já alto, havia queimado a sua pele e a força das suas ventosas se esvaiu até que desmaiou. Acordou tonta, enjoada, fraca e assustada. Já tinha anoitecido, mas havia luz por toda a parte. Um cheiro sufocante vinha da água e os galhos carregavam uma infinidade de entulhos que encalharam naquilo que a rãzinha classificou como novo inimigo natural, tão grande era o seu aspecto. No desespero e temendo dar de cara com a própria morte, agarrou-se no concreto daquilo que os humanos chamam de ponte e subiu o mais rápido que pode. Lá em cima, já exausta, mas viva, percebeu que havia cruzado o próprio Rio da Morte. Qualquer coisa, de agora em diante, seria melhor do que a experiência pela qual tinha passado. Mal pensou isso, uma luz enorme veio em sua direção, tão rápida que nem houve tempo de pensar.
Deus, em seu infinito amor, criou o universo e tudo o que nele há. Criou céus e terras, mares e chuva, animais e plantas, envolveu-os em ventos e correntes marítimas e estabeleceu uma precisa inter-relação entre todos eles. Assim, a chuva passou a munir-se do vapor emergido do solo e das águas, as plantas começaram a utilizar-se das abelhas para a sua multiplicação e a terra iniciou um processo de renovação ao absorver tudo que morre. Os mares se tornaram o termostato do mundo com a troca ininterrupta de impressões com os céus e a terra. Nada era óbvio e tudo era extremamente preciso.
Para administrar a sua obra, Deus incumbiu o ser humano. Essa administração deveria ser cuidadosa, tanto é que coube ao homem dar nome às demais criaturas. Ele deveria dominar, ou seja, conhecer profundamente a obra de Deus para administrá-la com o devido cuidado. Passou-se o tempo e o tamanho da tarefa o assustou. Temeroso, pediu ajuda a quem o havia criado e Deus a concedeu, personificando-a na mulher.
| *** | "É preciso deixar do lado de fora o calçado da vaidade
e a veste da arrogância." | *** |
A administração em equipe agregou qualidade ao cuidado, mas não poupou o ser humano de enfrentar um novo desafio. Manter funcionando o equilíbrio estabelecido por Deus exigia dele outro tipo de equilíbrio: a conciliação entre o exercício da incumbência, o cuidado dos que lhe eram próximos e o cuidado de si mesmo.
O cuidado está enraizado no amor, aquele descrito na primeira carta aos Coríntios, no capítulo 13. Embora o amor descarte o egoísmo, o ser humano se cansou e aos poucos colocou a si próprio em um lugar que não lhe cabia, o de proprietário e dono do mundo. Muita coisa evoluiu, porque Deus tem um amor sem medida e uma paciência maior ainda para com as escolhas humanas. A humanidade fez extraordinários avanços científicos e implantou tecnologias para melhorar a vida no planeta. Organizou-se em povos, depois nações, constituiu família e grupos de interesse.
Nem tudo foram flores. O novo papel de dono do mundo expôs a nudez humana. Com a perda da sintonia com seu Criador, emaranhou-se nos galhos das forças de interesse. Espécies, povos e culturas extinguiram-se, outros tantos vegetam atualmente entre vida e morte. Recursos saíram da categoria de ilimitados. Alguns, especialmente aqueles particularizados – por nações, grupos econômicos internacionais e setores da sociedade – geraram desequilíbrios em cadeia, com consequências para os dias de hoje e respingos para o futuro. Outros recursos ainda disponibilizados estão com data de validade vencida, mostrando seu potencial tóxico nas guerras étnicas, nas epidemias, na fome, na segregação e na indiferença.
A nudez se mostra mais cruel na incapacidade do ser humano dominar a sintonia fina que o Criador estabeleceu entre os elementos da sua criação. Ele não consegue ser Deus e nunca conseguirá, pois isto não lhe foi confiado. A sintonia fina, provavelmente, é parte integrante do momento que a Bíblia descreve como ‘descanso’ de Deus, o espaço contemplativo que o Criador abençoa e separa como sagrado no final da criação.
É para o espaço sagrado que Deus nos convida. O preço da entrada ele mesmo pagou, e não foi pouco. Neste espaço, ninguém é barrado, nem rico nem pobre, nem doutor nem analfabeto, mas é preciso deixar do lado de fora o calçado da vaidade e a veste da arrogância.
O espaço de Deus é comunitário, mas também individual. Nele, o ser humano entra em sintonia com Deus e ,com a sua ajuda, saindo da ilusão de que tem o domínio de tudo e tomando para si a tarefa que lhe foi confiada, a tal ponto que pauta todas as suas atitudes pela ética que a Palavra de Deus requer.
Quanto à rãzinha, ela não foi atropelada. Assustada, caiu na margem do rio, onde, em meio ao lixo e à desesperança, encontrou um menino também sem casa e sem pais. Por um bom tempo, apoiaram-se um no outro, cada um falando na sua língua. Hoje, a rãzinha está enorme de tanto mosquito que comeu. O menino, já homem, aparece de vez em quando, acompanhado de outro menino, a quem sempre de novo repete que é preciso cuidar das águas, para que peixes, pássaros, rãs e seres humanos possam viver com dignidade.
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1. A fé cristã entende a vida a partir da ação criadora de Deus. Sendo Ele o doador da vida, não é possível reduzi-la a uma propriedade privada. A vida é concessão, é presente, é dom de Deus. Porque criada e nutrida por Deus, a vida tem uma profundidade insondável. Esta profundidade misteriosa da vida não permite que ela seja transformada em coisa ou objeto que se possa manipular, vender ou comprar. O bem da vida é uma graça que recebemos, mas da qual não podemos dispor. Porque é indisponível, a vida não pode ser consumida irresponsavelmente nem pode ser descartada levianamente. A vida é um bem sagrado. O testemunho da Escritura aponta para esta sacralidade da vida e nos convida a assumirmos uma atitude de profundo respeito, pois Deus viu que o que criou era ‘bom’, ‘muito bom’ (Gn 1.10, 12, 18, 21, 25, 31).
2. Contudo, a bondade da criação não reside no fato dela ser boa em si mesma. A bondade da criação repousa sobre o amor transbordante de Deus. Mesmo depois da queda, Deus continua amando a sua criação e a tem sob o seu governo. A prova maior deste amor é o fato de Deus ter enviado o seu Filho, Jesus Cristo, para a salvação de todas as pessoas e para a redenção do universo.
3. O pecado é a real tragédia do ser humano e de toda a criação, que é marcada pela morte. O pecado rompeu definitivamente a relação entre Deus e o ser humano, entre o ser humano e os outros seres da criação e a relação dos seres humanos entre si. Cada qual se transforma no inimigo do seu semelhante. Contudo, Deus e o mundo não são inimigos. O mundo não é propriedade do diabo, mas permanece sendo a boa criação de Deus, ainda que profundamente marcada pelo pecado.
3.1. De fato, há uma fraternidade na tragédia e na esperança entre todos os seres vivos. Na tragédia, porque a criação como um todo sofre a realidade da morte, que também se mostra na destruição dos seres vivos (Rm 8.20, 22-23), mas há também uma solidariedade na esperança, porque todos aguardam pela realização do Reino de Deus, que significa a superação da morte e do sofrimento (Rm 8.19, 21, 24-25).
3.2. Entretanto, isso não dispensa o cristão de assumir a sua tarefa de ser um bom administrador, cuidando da boa criação de Deus (Gn 2.15). Somos chamados à responsabilidade, ou seja, devemos responder pelos nossos atos diante do Deus vivo e verdadeiro. Muitas pessoas cristãs ficam inquietas com as notícias de que a ciência já dispõe de instrumentos técnicos para viabilizar a clonagem de seres humanos. Isso assusta também a opinião pública e muitos cientistas.
3.3. A Igreja de Jesus Cristo tem o seu compromisso de afirmar a dignidade da vida humana. Falar isso somente é possível na medida em que afirmamos que a vida é um dom de Deus. A visão corrente na mídia – de que somente a qualidade de vida é critério para definir a dignidade da vida – parte do pressuposto de que a ausência de dor e de sofrimento é o critério maior para determinar a dignidade da vida humana. O prazer de viver é o imperativo categórico da sociedade de consumo e o sofrimento é considerado uma condição inaceitável.
Manifesto da IECLB sobre o Cuidado pela Vida – Bioética. Leia o texto completo em www.luteranos.com.br.