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1782 – ano em que o homem resolveu retificar o que Deus havia feito torto
Difícil acreditar que houve um tempo em que São Paulo era inundada e os paulistanos simplesmente pulavam de alegria. Mais do que isso: a metrópole de hoje nunca existiria se não fossem as enchentes constantes do Rio Tamanduateí – que traziam uma enorme fartura de peixes para a região e justificavam a localização da maior aldeia tupiniquim às suas margens – São Paulo, situada em um agradável planalto com cerca de duas milhas de extensão, é banhada por dois riachos, que, na estação das chuvas, quase a transformam em ilha, resumiu bem o Mineralogista inglês John Mawe, em registro do século 19.
Para especialistas, São Paulo precisaria mudar de mentalidade para reverter os efeitos da urbanização desordenada em seus rios – que sofrem com interferências diretas desde 1782, quando foi feita a primeira vala de desvio do Rio Tamanduateí para retificar um trecho. ‘Teremos uma hora de discutir a descanalização e a desretificação dos rios e teremos de fazer parques no entorno. Os rios são grandes termômetros da qualidade de vida na cidade. Quando não conseguimos coletar o lixo, tratar o esgoto ou fazer o manejo das águas, isto revela a condição de São Paulo como metrópole’, afirma João Jorge da Costa, Coordenador do Instituto de Engenharia.
Na enorme cidade de São Paulo, os prédios são altos e retos. As avenidas, largas e retas. Os rios Tietê e Pinheiros, originalmente sinuosos, formando piscinas naturais na época da cheias, hoje são retos. Uma coisa, no entanto, entortou: viver aqui.
A história de 456 anos de São Paulo está intimamente ligada aos rios, mas a cidade os despreza. O maior símbolo desse desprezo é o poluído e segregado Tietê, o rio das marginais congestionadas, o Tietê que alaga o Jardim Pantanal, que recebe o esgoto sem tratamento da região metropolitana. O Tietê que dificilmente terá a sua vida devolvida. O rio com quem a cidade ‘briga’ desde o século 19. O Tietê que une e separa bairros, cidades e vidas.
A noção de ‘Panema’
Das populações ‘pobres’ e ‘primitivas’ da Amazônia, aprende-se a reconhecer um laço de parentesco com o meio ambiente. Na compreensão deles, um caçador ou pescador fica ‘empanemado’ se abusar de uma espécie, caçando além do necessário para o seu consumo. O mesmo ocorre se sujar um ribeirão ou não tiver respeito e cuidado ao distribuir a carne da caça e do peixe na comunidade. Se fizer de qualquer jeito, o caçador ou pescador ficará azarado: passa a errar a sua pontaria ou perderá o seu peixe nas próximas tentativas de valer-se dos seres vivos que com ele compartilham águas e matas e lhe servem de alimento.
A fonte desse equilíbrio não são discursos demagógicos, afirmações dos poderosos ou as estatísticas reveladoras da diminuição de florestas ou geleiras. Para as pessoas simples da Amazônia, devemos considerar a reação desta ou daquela espécie animal ou curso d’água que, numa relação com o caçador, vinga-se dele, fazendo com que fique ‘azarado’. Faltou em Copenhague a concepção de uma natureza que cobra respeito, porque Deus também deu a ela certa ‘personalidade’ que exige reverência.
Fossem os seus líderes ‘caboclos’ ou ‘índios’, haveria a consciência dos efeitos devastadores da violenta ruptura promovida pelo individualismo que não sabe dizer ‘não, obrigado’, e que sempre procura ir em linha reta buscando atalhos – não sustentáveis – em nome do poder e da produção, que desconsideram o limite em nome da vantagem e do resultado de visão curta.
Hoje, um planeta enfermo dá sinais daquilo que os ‘selvagens’ conhecem: que não somos senhores privilegiados deste mundo, mas atores entre outros. Se o nosso individualismo coletivo nos faz ignorar o limite em nome dos nossos atalhos e retificações, o retorno das diferenças e dificuldades – a desreretificação – nos diz que temos que aprender a lidar com as coisas e situações sinuosas. Não por ideologia ou religião, que forçam perigosos atalhos – esses grandes motivadores das transformações sociais –, mas porque estamos ‘suicidando’ o planeta. Para o bem e para o mal, somos interdependentes. Estamos amarrados e encurralados, a exemplo do que ocorre com as pessoas no trânsito de São Paulo.
O que determina o impacto de uma catástrofe?
Os grandes desastres naturais distribuem-se por igual pelo globo terrestre. O que não se distribui por igual é o número de mortos: os países com um PIB per capita maior apresentam uma perda de 1,8 pessoas para 9,4 mortes nos países pobres. No Haiti, o terremoto com 7,1 graus na escala Richter trouxe devastação inimaginável e dezenas de milhares de mortos. Em 1989, um terremoto com 7,l graus na escala Richter provocou 67 vítimas nos EUA.
A única maneira de encarar o sofrimento é reconhecer que sempre estamos sujeitos a riscos. Não dá para saber quando a ciência será capaz de prever a data exata de um grande terremoto, mas já se sabe com boa precisão onde eles serão e qual a sua probabilidade. Estas informações são largamente ignoradas na maior parte do mundo.
As ciências da Terra têm conseguido progredir muito nas últimas décadas, mas a sociedade ainda não sabe aproveitar o conhecimento que elas produzem. Hoje, o máximo que se faz é dizer ‘este lugar é perigoso’, mas, com o tempo e por necessidade, as pessoas esquecem e acabam morrendo soterradas. As pessoas não gostam de pensar nisso, porque é assustador. Presumem que, se não pensarem, não vai acontecer. O que determina o impacto de uma catástrofe é o quanto o cidadão e a sociedade se preparam para ela.
A tragédia na cruz e o depois…
A crucificação de Jesus de Nazaré teve forte impacto na época e Sua paixão, graças a Deus, não teve memória e pernas curtas. Teve ‘um dia seguinte’ carregado de força e significado. Houve a ressurreição, um poder que envolveu os seguidores e as seguidoras, que, para além da falta de forças para reagir e do consequente encolhimento da vida, fez com que eles falassem aos quatro ventos Não precisa ser assim!
Existe um poder que é maior do que a força contundente que alimenta as tragédias! Existe uma força que quer atuar em nós. Uma força que nos dá respaldo para tirarmos o nosso pé da cova e com os dois pés firmarmos os nossos passos no caminho da vida.
Sentir o que Jesus sentiu provocará constrangimento em nós toda vez em que se fizerem ouvir as conhecidas ‘crenças’ que afirmam Não tem jeito não! É assim mesmo! Experimentar o que Jesus experimentou provoca indignação, inconformismo e uma incontrolável vontade de agir concretamente. Não serão ações precipitadas e impensadas. Não iremos optar pelos atalhos das ideologias e teologias simplesmente, que acabam sempre reconstruindo as coisas nos moldes anteriores.
A pior forma de sair de uma tragédia é valer-se dos mesmos padrões e comportamentos que levaram a ela. Afirmar a morte e a ressurreição de Cristo significa buscar a superação do que é determinado pelas ‘velhas crenças, comportamentos e interesses’.
Apegar-se ao poder da morte e ressurreição de Cristo significa seguir por um caminho que não admite o encolhimento da vida. Experimentar o poder da ressurreição de Cristo significa percorrer o caminho tortuoso desretificado da perseverança, da criatividade, da vivacidade que, diante da tragédia, volta a afirmar a vida.
Daremos ouvidos às notícias ruins que poucos querem ouvir e assim exercitaremos um compasso de espera que é vigilante, respeitoso e presente. Estaremos autorizados a olhar uns para os outros com lágrimas e sorrisos, cuidar e promover a vida.
Quaresma
Que Deus nos ajude a distinguir, também na nossa querida IECLB, entre o que é essencial e o que é secundário. Que esta época da Quaresma nos leve a fazer jejum não só em relação ao que comemos, mas também em relação às idéias, emoções e ações retificadoras com as quais alimentamos a nossa fé e ação.
A noção de ‘panema’ precisa ser trabalhada. Os alagamentos em São Paulo, as barreiras nas encostas e a terra fértil levada pela enxurrada levam a um estado de ‘panema’. Como iremos reagir? ‘Ehrfurcht’, esta profunda reverência e temor diante do Deus, dos seres vivos e da natureza em geral pode ser um caminho promissor.
A terra é de Deus e tudo que nela existe (Salmo 24.1) é um tema que marcou profundamente a caminhada das Comunidades da IECLB e que agora precisa ser retomado em um horizonte ainda mais amplo, desafiador e urgente.
As tragédias nos ensinam ao menos duas coisas. Primeiro: que o conhecimento e as pretensões humanas têm limites e que existe muito sobre o mundo que ainda não sabemos. Porém, não é por isso que devemos atribuir o que não sabemos a atos sobrenaturais. Nossa ignorância deve abrir caminho ao conhecimento e não à superstição. Segundo: aprendemos que a vida – e aqui estamos nos incluindo – é extremamente frágil e deve ser protegida a todo custo. Nosso planeta, apesar de demonstrar fúria ocasionalmente, é a morada viável que Deus nos deu. Devemos tratá-lo com o respeito que merece.
Pastor Hermann Wille, 27 anos de pastorado, Mestre em Ciências da Religião (PUC/SP), atualmente está na coordenação da ação pastoral na Comunidade de Santo Amaro, no Programa Comunitário da Reconciliação e na direção do Instituto de Estudos e Práticas Interdisciplinares – PRAXIS, em São Paulo, que atua concretamente na preservação de uma área de 40 mil metros quadrados junto à Represa Billings, um dos mais importantes reservatórios de água para a população da Grande São Paulo.