Cuidar da criação de Deus
Saindo da passividade
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A Igreja é o corpo de Cristo, o Redentor, constituído de membros com funções diferenciadas. Isso é elemento fundamental da confissão cristã. Esse corpo de Cristo transcende as barreiras confessionais e institucionais.
Igreja também é a associação de pessoas na forma de uma pessoa jurídica, sob o nome de Comunidade, Paróquia, Sínodo, Igreja Nacional (IECLB). As duas concepções andam juntas.
No jeito tradicional de pensar dos membros das Comunidades de confissão luterana, ‘Igreja’ é a própria IECLB. Para o presente texto, também se comunga desta concepção quando se coloca a pergunta se Existem argumentos bíblicos e teológicos para tirar a Igreja e os membros da passividade diante das questões do meio ambiente?
Primeiramente, deve-se dizer que, na atualidade, há sinais inequívocos de crises ambientais provocadas pela atuação dos humanos em suas interferências no meio ambiente e derivadas das formas e modo de organização. Há muitas manifestações particulares de tais crises ambientais: poluição das águas e do ar, desertificação, lixo militar e atômico, etc.
A emissão de gás carbônico em elevadas proporções acarreta consequências nefastas, como chuva ácida e o efeito estufa. Este último resulta em um gradativo aumento da temperatura no planeta. São as causas antrópicas, isto é, originadas pela ação humana sobre o ambiente. Quanto maior for a população mundial e maior a sua sede de consumo, maiores serão as intervenções no ambiente!
Seria, porém, equivocado atribuir todas as catástrofes ambientais à ação do homem. Os recentes terremotos no Haiti e no Chile, justamente por sua repetição em determinados lapsos temporais, são, provavelmente, exemplos da organização autônoma da natureza. São fenômenos condicionados às características próprias do ambiente em determinados lugares.
Para sair da passividade em relação às questões ambientais, fundamentalmente deve-se partir para a reflexão e a ação. As duas coisas devem andar juntas. Tanto faz por onde começamos, mas alguns passos ou momentos podem ser sugeridos.
*Um dos primeiros passos para uma eventual e esperada superação da letargia é o reconhecimento dos sinais da crise ambiental, especificamente aqueles derivados da ação humana. Trata-se de um exercício de sensibilidade, que depende do nível de consciência de cada pessoa. Trata-se também de perceber em que medida eu, como indivíduo integrante de um todo maior, contribuo para aumentar ou diminuir tais crises. A constatação do apóstolo Paulo em sua Carta aos Romanos pode servir de alerta Toda a criação, a um só tempo, geme e suporta angústias até agora (Romanos 8.23).
*Em segundo lugar, trata-se de perceber a si mesmo como integrante de uma rede maior de relações de produção e consumo. A própria necessidade de sobrevivência impõe ininterrupta intervenção sobre o ambiente. Os humanos alimentam-se de outras formas de vida para a sua própria manutenção. As intervenções, contudo, podem ser diferentemente moduladas. A ‘pegada humana’ sobre o ambiente pode ser mais pesada ou mais leve. Depende do modo como se pisa. No fundo, depende do exercício da sabedoria.
*Como membros da Comunidade evangélico-luterana em sentido amplo, comungamos de um ponto fundamental do credo cristão de que o mundo que habitamos resulta da ação criadora e amorosa de Deus (ver a interpretação de Martim Lutero ao Primeiro Artigo do Credo Apostólico).
*Trata-se, pois, em terceiro lugar, de falar mais concretamente desta dimensão da fé. Deus é o criador e o mantenedor. Os humanos são criaturas juntamente com os demais elementos da criação. Todos os elos da criação têm dignidade própria. Ao homem, Deus conferiu dignidade especial de ‘imagem e semelhança’. Atribuiu, também, responsabilidades. Até algum tempo atrás, era absolutamente comum dizer ou ouvir, também na Igreja, que o homem é o centro e o sentido de toda a criação, pois ele teria a função de ‘dominar e sujeitar’ o mundo criado (Gênesis 1.26-28). Isso constitui a chamada concepção antropocêntrica. Hoje, essa afirmação vem caindo em desuso, reforçando-se mais a noção também profundamente bíblica de que o ser humano deve ser ‘mordomo da criação’. A sua tarefa fundamental deve ser a de ‘cultivar e guardar’ (Gênesis 2.15). O ‘cultivar’ implica necessariamente em intervenção sobre o ambiente natural, produzindo ou retirando dele os elementos para suprir as necessidades e os desejos dos homens. O ‘guardar’ é um exercício de responsabilidade e cuidado. Trata-se de um mandato que exige a sabedoria de perceber-se integrante do todo da criação com a tarefa de zelar para que a natureza se mantenha, para além do tempo presente, em suas próprias bases ecossistêmicas. Pode-se aqui falar do ‘princípio responsabilidade’ como elemento fundamental da ética, como foi proposto pelo Filósofo judeu-alemão Hans Jonas. O cuidado do homem com o ambiente deve, hoje, incluir também as gerações futuras.
*Há várias passagens na Bíblia em que a dimensão do cuidado dos humanos pela integridade da criação é destacada: Êxodo 20.10-11 (descanso da terra, dos pobres e dos animais), Deuteronômio 20.19-20 (contra o desmatamento desmedido), 22.6-7 (pássaros e ninhos), 23.13-15 (saneamento básico), Salmo 104 (natureza perpassada pelo espírito divino), Jó 38-42 (complexidade da criação). De tais textos, quase nunca se fala na igreja. Em Êxodo 23.10-11, é proposto que ao homem é legitimamente concedido cultivar a terra e recolher os seus frutos. Trata-se da atividade da produção, mas o ritmo produtivo e explorador deve ser temporalmente limitado a seis anos, devendo o sétimo ano ser um tempo de pousio ou ‘descanso sabático’. O texto indica três finalidades: a) primeiro é dito que a própria terra deve poder descansar. Isso é estranho ao nosso modo de pensar, pois estamos acostumados com a ideia de que a terra deve somente servir para satisfação das nossas necessidades (e desejos), b) em segundo lugar, os pobres devem poder colher o que nascer por conta própria no sétimo ano, tendo uma provisão extra além da sua limitada alimentação usual e c) em terceiro, indica-se que os animais do campo devem poder comer do que sobrar. Explicitamente, incluem-se os animais do campo dentro de um ciclo ecológico. Três seres ameaçados em sua existência devem ser contemplados no modo de se organizar a vida em sociedade: a terra, os pobres e os animais. Isso é o que se pode chamar de uma ‘visão ecológica’ da vida. Os interesses são limitados pela integridade da vida e da criação.
*Por trás do texto do descanso sabático está uma estrutura de tempo que marca a nossa existência, mas que, hoje, é constantemente desrespeitada, a saber a estrutura da semana de sete dias. Hoje, a Medicina já reconheceu que a pessoa que não observa tempos de descanso em meio às jornadas de trabalho adoece mais e, em geral, morre mais cedo. No ritmo de vida do mundo moderno, há certamente exigências que nos obrigam a trabalhar mais. Porém, observar tempo de pausa pode ser uma boa fonte de investimento em sua própria vida, economizando dinheiro que seria gasto com Médicos e remédios!
*Além da tarefa de zelador, cuidador ou mordomo da criação, o ser humano é constantemente chamado ao exercício da misericórdia. Há muitas narrativas da prática e do ensino de Jesus Cristo que podem ser lembradas, mas é a parábola do Bom Samaritano (Lucas 10.25-37) que se presta muito bem a essa indicação, obviamente com uma interpretação expansiva. A história é conhecida: um homem maltratado está deitado à beira do caminho. Duas pessoas passam e desviam do caminho. Um terceiro passante, ‘vendo-o, compadeceu-se dele’ (v.33). A expansão quase alegórica consiste em substituir o ‘homem ferido’ pela ‘natureza maltratada’. Esta geme, em dores, em correntes de exploração humana, aguardando a redenção e a manifestação plena dos filhos de Deus. Assim, natureza e humanidade estão incluídas no plano redentor de Deus para toda a sua criação.
*Saber que toda a criação faz parte da obra criadora e redentora de Deus remete os humanos ao seu lugar legítimo como elos ou elementos de uma rede cósmica maior. Isso pode abrir
possibilidades para a admiração e o louvor a Deus, conduzindo a um viver em que a vida é entendida como dádiva e, como tal, pode ser vivida, em gratuidade, em confiança na presença e no amor gratuito de Deus. O cuidado com o ambiente pode e deve ser hoje uma resposta ao amor redentor de Deus. Com o criador, podemos ser cuidadores e mantenedores, ajudando a salvaguardar a dignidade de vida das gerações futuras.
P. Haroldo Reimer é Doutor em Teologia, Pastor voluntário da Comunidade Evangélica de Confissão Luterana em Goiânia, Professor titular da PUC Goiás e Pesquisador bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPp
O cuidado com o ambiente pode e deve ser hoje uma resposta
ao amor redentor de Deus. Com o criador, podemos ser cuidadores e mantenedores,
ajudando a salvaguardar a dignidade da vida das gerações futuras.
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