Ultimamente, multiplicam-se as notícias sobre desastres ambientais provocados pela ação do ser humano. O vazamento de óleo de um poço perfurado no fundo do mar, a poluição de rios por dejetos industriais, deslizamentos de terra por ocupação de áreas impróprias para fins residenciais, o efeito estufa, o avanço dos desertos, isto e outras coisas causam apreensão e inspiram temor. A natureza está agonizando. Todo o mundo sabe que a preservação do meio ambiente é condição da sobrevivência humana, mas as medidas preventivas são tímidas e pouco eficientes. Falta determinação do que a cúpula de Copenhague em 2009 tem sido um triste exemplo: as nações ‘desunidas’ não conseguiram chegar a um acordo sobre a redução da emissão de gás carbônico na atmosfera. O que fazer?
Usar e devastar são coisas diferentes
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O ser humano, em desacordo com o mandato de Deus, se comporta como tanque de guerra em um parque de flores |
A consciência cristã tem razões especiais para se mostrar sensível ao problema. Deus presenteou o ser humano com o jardim do Éden para cultivar e guardá-lo (Gn 2.15). O Éden é o nosso planeta, a nossa habitação, a terra da qual provém o pão nosso de cada dia. Também depois da queda do ser humano, o mundo permanece sendo a maravilha do Deus criador a ser tratado com o devido respeito. É coerente, pois, exaltar esta obra magnífica como o faz o autor do Salmo 104. A natureza é um sistema fantástico que deve necessariamente provocar admiração e reverência e ela não é nossa. Ao Senhor pertence a terra e tudo o que nela se contém (Sl 24.1). Este mundo, portanto, tem dono. Não pertence a quem dele se apropria. Quando cultivamos a terra ou manipulamos a vida, mexemos em propriedade divina. Isto não significa que ela seja intocável. Deus nos concedeu este jardim e as suas riquezas para usufruto. Desde sempre, os povos arrancaram da natureza o seu sustento e não existe alternativa, mas usar e devastar são coisas diferentes. O ser humano permanece responsável diante de Deus pelo bem-estar da criação.
Infelizmente, tal consciência ainda não foi desenvolvida. O ser humano, em desacordo com o mandato de Deus, se comporta como tanque de guerra em um parque de flores. Produz destruição em massa. A reversão desse quadro exige uma nova mentalidade. Poderíamos descrevê-la como a mudança da depredação para o cuidado. Talvez seja oportuno lembrar que Deus, ao amar o mundo, não ama somente as pessoas, ama toda a criação. Não é possível isolar o ser humano na biosfera. Sem os demais seres viventes, a fauna e a flora, a vida humana se inviabiliza.
Já muito cedo, entidades cristãs alertaram para essa verdade. Cabe destaque ao ‘Processo Conciliar de Mútuo Compromisso para a Justiça, a Paz e a Integridade da Criação’, desencadeado pelo Conselho Mundial de Igrejas (CMI) em 1983. Embora não fosse de modo algum a primeira iniciativa nem a única em favor da natureza ameaçada, foi a que causou maior impacto. Chamou atenção a estreita correlação que há entre justiça social, paz e preservação do meio ambiente. Injustiça é uma das grandes causadoras da destruição ambiental, pois a luta pela sobrevivência força os excluídos a desconsiderar leis ecológicas. Enquanto isso, o luxo peca por desperdício. Da mesma forma, é óbvio que a guerra castiga não somente a população, como também a natureza. O cuidado com o meio ambiente, pois, requer o simultâneo empenho por justiça e paz.
O combate à destruição do meio ambiente exige o mutirão planetário
As iniciativas do Conselho Mundial de Igrejas acusam ser a proteção ao meio ambiente uma causa essencialmente ecumênica. Isto no sentido mais amplo da palavra. Os danos causados à natureza revertem em prejuízo de todo o mundo. Ninguém consegue proteger-se das consequências fatais do mau trato dado ao meio ambiente. Toda ‘ecumene’, isto é, toda ‘terra habitada’ é atingida. Logo, não se pode ‘nacionalizar’ ou ‘regionalizar’ os problemas ambientais. Certamente, a Amazônia pertence ao território brasileiro. Simultaneamente, porém, é patrimônio da humanidade. Seu desmatamento terá enorme impacto sobre o clima do planeta. Outros exemplos poderiam ser aduzidos. Questões ambientais já não podem ser privatizadas. Por isto mesmo as Igrejas procurarão a cooperação com entidades seculares na defesa da integridade da criação desde que haja sintonia de propósito.
Consequentemente, o combate à destruição do meio ambiente exige o mutirão planetário. Ninguém tem a permissão de se excluir. São vários os agentes, cada qual com papel específico e, todavia, essencial. O imperativo se dirige em primeiro lugar a cada pessoa individualmente. Devemos fazer a nossa parte. Menciono a seleção do lixo orgânico do reciclável, o uso racional dos recursos como energia e água, além do aproveitamento responsável dos alimentos. O nosso exemplo vai educar os outros. Queremos uma cidade limpa, com os esgotos desentupidos, a salvo dos vândalos que gostam de demolir o patrimônio público. Há muito o que o indivíduo pode fazer em prol do meio ambiente imediato. Mesmo assim, o seu poder é limitado. Trocar o automóvel pela bicicleta certamente faz sentido. Entretanto, não vai passar de um sinal, enquanto diariamente milhares de novos carros são lançados nas estradas. O esforço individual, pois, deve ser acompanhado por outras iniciativas.
Penso na agricultura, que deve evitar o excesso de agrotóxicos, restringir a monocultura, preservar a biodiversidade. Penso na indústria, que não pode descuidar da remoção do lixo que sobra dos seus produtos, bem como das substâncias poluentes que usa. Penso, sobretudo, na política. Cabe-lhe legislar em assuntos de proteção ambiental e controlar a execução das diretrizes. Lamentavelmente, interesses partidários, econômicos e pessoais por demais vezes se sobrepõem aos ‘interesses da natureza’. Da mesma forma, falta não raro o bom senso. Ninguém mais planta araucárias por ser proibido derrubá-las. Não faz sentido um código florestal que paradoxalmente se reverte em prejuízo da preservação de espécies nativas e, de um modo geral, do verde dos nossos campos e das nossas florestas.
O bom senso requer planejamento de longo prazo com respeito às energias limpas, por exemplo. Há que se dar-lhes prioridade na pesquisa, nos subsídios e no aproveitamento, ainda que, por ora, em termos de rentabilidade, não consigam concorrer com as energias fósseis. A obsessão do lucro imediato poderá revelar-se como fator de estrago ambiental irreversível. É preciso investir hoje para evitar perdas futuras. Algo análogo vale para as políticas demográficas. O espaço de vida é limitado. A projeção é que dentro de pouco tempo o planeta terá nove bilhões de habitantes, algo que a natureza é incapaz de suportar, desde que se queira assegurar a toda pessoa um mínimo de qualidade de vida. Entrementes, planejamento familiar se transformou em necessidade ambiental. Quem se opõe à política demográfica, coopera na aniquilação das bases de uma vida humana condigna. Deus exige o gerenciamento sensato e responsável da sua criação, a que pertence também a adequação populacional.
Sinônimo de preservação ambiental é a ‘sustentabilidade’, que designa a visão de um mundo que também no futuro oferece condições de vida. Temos a obrigação de garantir aos nossos netos um mundo habitável. A fé cristã deve este alerta à sociedade. Não pode conformar-se com uma vida à custa das gerações futuras nem à custa da natureza. Sustentabilidade é palavra mágica, promessa de uma revolução no espírito da nossa época. Infelizmente, trata-se de uma meta distante, ainda não de fato assumida. A economia prioriza a ‘lógica do mercado’ em detrimento da ‘lógica do meio ambiente’. Falta uma concepção de economia sustentável. Os governos apostam no crescimento para garantir empregos, lucros e impostos. Somos animados a consumir mais para lubrificar a máquina econômica e sair do buraco da crise. Enquanto isso, os ambientalistas insistem em frear o consumo por amor à natureza. Então, o que devemos fazer? Consumir mais para acelerar a economia ou desistir de consumir para preservar o nosso meio de vida? Qual será a solução para essa contradição? Não há sustentabilidade à vista.
A tarefa de cuidar do jardim do Éden é complexa. Exige multiplicidade de iniciativas. O que anima é que a consciência da urgência está em crescimento. Ecologia é preocupação recente e já trouxe alguns resultados, embora insuficientes. Importa não esmorecer. O amor à criação de Deus e também a
responsabilidade que temos com o futuro da humanidade não o permitem.
P. em. Dr. Dr. h.c. Gottfried Brakemeier estudou Teologia no Brasil e na Alemanha, foi ordenado Pastor da IECLB em 1964, doutorou-se na área do Novo Testamento em Göttingen, na Alemanha, de 1968 a 1984 foi Professor na Escola Superior de Teologia, exerceu a Presidência da IECLB de 1985 a 1994, a Presidência do CONIC de 1986 a 1990 e a Presidência da Federação Luterana Mundial (FLM) de 1990 a 1997, voltando à docência na EST em 1995 e aposentando-se em 2002