P. Décio Weber, formado em Teologia pelas Faculdades EST, em São Leopoldo/RS, exerceu o Ministério Pastoral nas Paróquias de Ibirama/SC e Marechal Floriano/ES. Pastor Vice-Sinodal no Sínodo Centro-Campanha-Sul, atua na Paróquia Martin Luther de Vera Cruz/RS
Deus nos ama incondicionalmente
No encontro do Ensino Confirmatório, estávamos refletindo sobre a formação do povo de Israel, a vida sofrida na escravidão do Egito, o clamor dirigido a Deus em orações e o ouvir misericordioso de Deus que, sob a liderança de Moisés, interveio na história e libertou o povo do amargor da escravidão. Amarguras fazem parte do viver cotidiano. Por mais que cuidemos, circunstâncias dolorosas atingem o nosso viver.
Enquanto conversávamos, desafiei os adolescentes a provar o gosto de uma verdura, o agrião. No início, o pessoal estava relutante, mas, um a um, os adolescentes foram provando o amargo sabor daquela verdura. Relacionamos este gosto com a escravidão do povo israelita. Lembramos da libertação e da esperança por vida nova que a libertação proporcionou.
Distribui balas, relacionando às coisas doces e agradáveis que também acontecem em nosso viver. Quando estávamos finalizando esse momento de reflexão, chegou um adolescente que estava atrasado. Oferecia ele uma folha de agrião. Ele hesitou em pegar. A turma, aos gritos, pressionou para que ele experimentasse. Em contrapartida, ofereci uma barra de chocolate, a qual ele prontamente aceitou. Fui vaiado e chamado de desonesto. ‘Não é justo o que você fez, Pastor. Nós tivemos que provar o agrião e ele não’ , vociferou um Confirmando mais exaltado.
Sim, não é justo o amigo, a amiga ou colega receber o doce sem fazer por merecer. Esta foi a reação espontânea naquele grupo de adolescentes. Provavelmente, esta seria a mesma reação em um grupo de pessoas adultas, idosas, homens ou mulheres, pois esta reação é a reação natural em meio à sociedade na qual vivemos: se tu queres, faça por merecer. Caso contrário…
O merecimento conduz o nosso jeito de ser e pontua a forma das pessoas se relacionarem. Não é de hoje que o ser humano assim procede. Já nos tempos bíblicos, o agir das pessoas era marcado pelo merecimento. O rigoroso cumprimento de leis e tradições produzia amargos sofrimentos na vida de pessoas, especialmente das mais humildes.
Inúmeras são as passagens bíblicas em que Jesus contrapõe o merecimento ao amor gracioso. Eu, porém, vos digo Ninguém tem mais amor pelos seus amigos do que aquele que dá a sua vida por eles (Jo 15.13). O exemplo maior do amor gratuito e incondicional de Deus por nós vem da cruz e é para a nossa salvação (Rm 5.8).
Animados e animadas pelo Tema do Ano da IECLB, queremos, pela graça de Deus, promover o amor incondicional com aqueles e aquelas que Deus deixa sob o nosso alcance.
Paz e bem!
Para refletir, leia Mateus 20.1-16

P. em. Oziel Campos de Oliveira Junior, membro da Comissão do Novo Hinário e da Diretoria do Conselho Nacional de Música da IECLB, trabalha como Evangelista, visitando Paróquias da IECLB, e na composição e divulgação de músicas novas que têm o conteúdo do Evangelho. Autor do texto a convite do Sínodo Centro-Sul Catarinense
Buscar o bem em gratidão
Tive um Professor de Teologia, Dr. Roy Harrisville, que afirmava: ‘o Evangelho desmonta a gramática da vida’. Assim compartilhava a sua compreensão de que o ‘Evangelho é diferente de tudo o que se conhece no planeta Terra’. Tudo o que existe no mundo, os relacionamentos, as religiões, as filosofias, o comércio, a compreensão de si mesmo e dos outros, etc…, enfim, tudo acontece a partir de uma compreensão de troca, de merecimento.
A criança, desde cedo, é ensinada que, se passar de ano, ganha uma bicicleta. Ao operário, é dito: ‘se você produzir mais, vai ganhar um abono’. A religião ensina: ‘se você fizer sacrifícios, se você fizer a sua parte, Deus vai fazer a parte dele e vai lhe recompensar’. Tudo parece mesmo funcionar a partir dessa lógica. Aprendemos que ‘é preciso fazer a nossa parte para merecer, que nada é de graça’.
Quem vive a partir dessa compreensão de vida, vive preso a uma ‘camisa de força’ – e muito apertada! Dentro dessa lógica, vão sobreviver: os ‘fortes’, os ‘sadios’, os ‘bonitos’, os ‘inteligentes’, os ‘ricos’, etc. Mesmo assim, viver dentro dessa camisa de força é angustiante, pois a sobrevivência ali vai depender de um desempenho impecável, de uma ferrenha competitividade, de esperteza…
Nessa compreensão de mundo, aparece o Evangelho, que significa Boas Novas. Ao notar o que o Evangelho diz, as pessoas levam o maior susto, pois é algo radicalmente diferente de tudo! A presença da graça é, em primeiro lugar, a presença do próprio Deus. Ao se fazer humano, ao armar entre nós a sua barraca, Deus, na pessoa de Jesus, nos mostra o que realmente é graça! Jesus vem ‘desmontar a gramática da vida’ como nós a conhecemos, anunciando uma opção de vida totalmente diferente de tudo o que, até agora, considerávamos como única opção, a opção ‘da troca e do merecimento’.
O que é, então, essa graça? A graça cristã pressupõe o que Deus faz pelo ser humano. Ele o ama, por isso envia Jesus para morrer na cruz pelos pecados, ou seja, ao morrer, Jesus leva sobre si todo o nosso pecado, toda a nossa culpa (Isaías 53.4-5).
Ao aceitarmos o fato que isso aconteceu por nós, somos presenteados com uma compreensão de mundo em que somente os mais privilegiados se tornam bem-sucedidos. A linha vermelha que passa a nos orientar na compreensão do mundo, dos outros e de nós mesmos, passa a ser a graça de Deus.
A graça passa, então, a ser a medida de todas as coisas do cristão, nos informando sobre a maneira que vivemos a nossa vida. A partir da graça de Deus, recebida, por meio da fé, pelo Evangelho, nos tornamos livres, sem a preocupação conosco, para ir ao encontro do próximo, para cuidar da natureza. Então, nos tornamos encorajados para denunciar toda injustiça que nos cerca e que assedia o nosso país e o nosso mundo.
Para refletir, leia Gálatas 5.1-6