Dando seqüência à série de matérias especiais em comemoração aos 60 anos da IECLB, nesta edição o P. Rolf Droste, Pastor emérito da IECLB, que ingressou no pastorado em 1956, foi Pastor de Comunidade, Diretor da Casa Matriz de Diaconisas, Secretário Geral da IECLB (1986-1994), Diretor Geral da Luterprev e, atualmente, Presidente da Obra Gustavo Adolfo (OGA), vai apresentar recortes do tempo anterior à constituição da IECLB em 1949, para mostrar que também se pensava nos irmãos na fé além da própria área geográfica.
Quando, em 1868, se constituiu o primeiro Sínodo na Província do Rio Grande do Sul, de vida efêmera, constava no esta- tuto que se buscariam contatos com o Sínodo do Rio da Prata, Buenos Aires, com as Conferências Pastorais e Comunidades de outras Províncias do Brasil. Um projeto audacioso para a época. Quando o P. Rotermund convidou para a Assembléia de fundação do Sínodo de 1886, ele escreveu a todos os ministros ordenados nas Comunidades evangélicas ale mãs no Brasil. O estatuto previa a filiação de Comunidades fora da Província do Rio Grande do Sul.
No tempo pré-sinodal, as Comunidades viviam com a atenção voltada para os seus próprios interesses. Havia muita desordem, disparidades e discrepâncias entre elas. Eram fortemente marcadas pelo ‘independentismo’. Os membros e, por vezes, os Pastores eram os ‘donos’. Qualquer iniciativa para formar uma comunhão maior, um Sínodo, lhes cheirava a perda de liberdade, por isso P. Rotermund fez constar no estatuto do Sínodo que ele era uma ‘Associação de Comunidades’.
Na primeira Assembléia Sinodal, em1887, em Santa Cruz do Sul/RS, ele enfatizou no seu relatório "Nós não trilhamos o caminho de Roma, da hierarquia e do domínio dos religiosos" e adiante "Se queremos fortalecer a nossa Igreja, temos que fortalecer as nossas Comunidades". É verdade que ele viu a necessidade do Sínodo como instrumento ordenador e disciplinador para superar situações muitas vezes vexatórias para os teuto-evangélicos, mas não é menos verdade que ele queria ajudar que as Comunidades fossem Igreja e não apenas clubes com inte-esses imediatos e materiais (proprietárias de imóveis, cemitérios, etc.).
Em outros Sínodos, encontramos situações e posturas semelhantes. Uma exceção pode ser considerado o Sínodo Evangélico Luterano de Santa Catarina e Paraná e outros Estados, no qual atuavam exclusivamente Pastores de confessionalidade luterana definida, o que assegurava uma certa uniformidade na organização e vida eclesiástica. Constata-se, portanto, que os Sínodos não eram tão estanques como muitas vezes imaginamos. Obreiros e lideranças mantinham contatos entre si. Levan- tavam-se, inclusive, ofertas em cultos para necessidades em outros Sínodos.
Consolidados os Sínodos, começou a lenta costura de formação de um corpo eclesiástico comum. Nesse processo, a Igreja Evangélica da Alemanha, representada por Prepósitos no Brasil, teve forte participação.
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Os Prepósitos
1911-1919: P. Dr. Martin Braunschweig – Teve participação na constituição do Sínodo Evan- gélico de Santa Catarina e Paraná (1911) e do Sínodo Evangélico do Brasil Central (1912). Em 1907, na qualidade de Comissário, incentivou a criação de um Seminário para a formação de Professores evangélicos no Brasil e de um Seminário para a formação de Pastores para o exterior na Alemanha. Foi Secretário Geral da Obra Gustavo Adolfo alemã de 1904 a 1911.
1919-1925: por razões políticas e econômicas, não foram enviados Prepósitos entre 1919 e 1925. A Alemanha perdera a Primeira Grande Guerra.
1925-1928: P. Erwin Matthias Hübbe – Foi Pastor da Comunidade de Rio Grande/RS de 1906 a 1914 e membro da primeira Diretoria da OGA-Brasil. Em 1924, representou o Conselho Eclesiástico de Berlim nos festejos do centenário da imigração alemã no Rio Grande do Sul e na Assembléia Geral do Sínodo Riograndense (sic). Veio ao Brasil como Prepósito em 1925. Em 1928, costurou a filiação do Sínodo Riograndense à Igreja na Alemanha. Em 1933, veio para ultimar a filiação do Sínodo Evangélico Luterano de Santa Catarina e Paraná e outros Estados à Igreja alemã. Na sua quinta vinda ao Brasil, foi vítima de atropelamento no Rio de Janeiro/RJ em 4 de julho de 1934, falecendo no mesmo dia.
1929-1932 e 1933-1936: P. Gottlieb Funcke – Presidiu o primeiro encontro dos Presidentes dos Sínodos em 1935, em Santos/SP.
1929: Paul Kaetzke – Interinamente, exerceu a função de Prepósito para o Brasil. Paul Kaetzke era Supertintendente e Prepósito na Argentina.
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Prepósitos, uma presença estranha na história da IECLB
Quem foram os Prepósitos? Foram representantes permanentes do Conselho Eclesiástico Superior da Igreja da Prússia/Alemanha. Tinham a incumbência de trabalhar pelo fortalecimento das Comunidades formadas por alemães e teuto-brasileiros protestantes, pela criação e consolidação de Sínodos e de manter o Conselho Eclesiástico bem informado. Isso mostra que a autonomia dos Sínodos era relativa, pois eram acompanhados por uma autoridade ‘estranha’, com a qual convinha viver em sintonia.
O Conselho Eclesiástico de Berlim somente se envolveu a partir de 1900, em lugar das sociedades missionárias. Comunidades, Pastores e Sínodos puderam filiar-se à Igreja da Prússia. Esse era o lado eclesiástico da questão. Havia o lado político. A Prússia, identificada com o Protestantismo, tinha interesses comerciais nos países de forte imigração alemã e protestante, como também queria que estes cultivassem a sua relação com a pátria de origem.
Para obter informações confiáveis sobre a situação no Brasil, o Conselho Superior enviou um Comissário, em 1907, que, em seu relatório de 1908, propôs ao Conselho Superior o envio de um representante permanente, um Prepósito, com sede em Porto Alegre/ RS. Pedido igual veio do Sínodo Riograndense, face a desentendimentos internos, com risco de cisão. De 1911 até 1936, com uma interrupção de cinco anos, temos a figura do Prepósito. Em 1933, quando um novo regime político assumiu o poder, foi criada a Igreja Alemã Evangélica em lugar da Federação de Igrejas Evangélicas. No ano seguinte, a Igreja instalou um Departamento para Assuntos do Exterior, presidido pelo Bispo Theodor Heckel. A figura do Prepósito perde a sua relevância.
Heckel ‘ordenou’ que as direções dos Sínodos realizassem reuniões para promover a comunhão entre si e discutir assuntos de comum interesse. O Prepósito Funcke coordenou a primeira reunião em 1935, realizada em Santos/SP. A segunda reunião aconteceu em Buenos Aires, Argentina, em 1938, sob a coordenação do Prepósito para a América do Sul, Martin Marczynski, da Argentina. As reuniões deixaram de acontecer com o início da Segunda Guerra Mundial. Se não deram o retorno desejado à Alemanha, os Prepósitos serviram para aproximar os líderes sinodais no Brasil. As reuniões foram retomadas logo depois da guerra, sob outro enfoque, por iniciativa de Hermann Dohms, do Sínodo Riograndense, mas este é o assunto da próxima edição do Jorev Luterano.