P. Eloi Bruno Neuhaus, formado em Teologia pela Faculdades EST, em São Leopoldo/RS, é Coordenador Sinodal da Obra Gustavo Adolfo (OGA) e Coordenador do Devocionário ‘Semente de Esperança’. Pastor Vice-Sinodal do Sínodo Noroeste Riograndense, exerce o Ministério Pastoral na Paróquia Evangélica Três de Maio-Norte/RS
É de graça, sim!
Perguntar não ofende… É de graça mesmo? Sim, é de graça!! Essa oferta não é nada comum no contexto atual. Creio que nunca o foi. A sociedade, como tal, está acostumada à prática da meritocracia. Vivemos mergulhados em um mundo de consumismo e materialismo, no qual se prega a competitividade e a acumulação, em que os videntes do projeto neoliberal, da exclusão, entram todos os dias em nossos lares, por meio da televisão, em que a meta do sistema é concentrar cada vez mais bens nas mãos de uma elite privilegiada, excluindo, cada vez mais, as pessoas que não podem competir.
Vivemos mergulhados neste ambiente e, muitas vezes, sem nos darmos conta, vamos assimilando, ‘naturalmente’, uma dinâmica individualista. O marketing que parece moldar todas as pessoas não tem escrúpulos. Vai formando as consciências e a prática nos nossos ambientes. Pensar e agir diferentemente não se enquadram nesses padrões.
Lembrando Lutero, podemos nos deixar questionar: Como posso ter um Deus da graça e do amor? A motivação da pergunta do Reformador estava em contraste com a prática da espiritualidade da sua época. Ela estava orientada nas práticas de fé que queria obter e chegar a Deus por meio das mais distintas obras. Uma delas era a prática das indulgências, com as quais as pessoas comprariam méritos para diminuir a culpa dos seus pecados.
Foi com muita alegria que Lutero redescobriu que […] pela graça, sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus (Efésios 2.8). A força dessa mensagem entusiasmou o Reformador a testemunhar que ‘fé e amor constituem todo o ser de uma pessoa cristã. A fé recebe, o amor dá. A fé leva a pessoa a Deus e o amor o leva às pessoas. Por meio da fé, a pessoa recebe os benefícios de Deus. Por meio do amor, leva benefícios às demais pessoas’.
Lutero entendeu que a graça de Deus é revelada às pessoas por meio da fé, na confiança irrestrita de que a promessa de Deus se realizou na ação salvadora em Jesus Cristo. É Deus que transforma o ser humano, levando-o a realizar o bem. Para Lutero, a fé é viva e impulsiona a pessoa a fazer o bem e servir ao próximo. A certeza de ser livre de toda sorte de barganhas ou meritocracias, motiva a pessoa a produzir boas e desinteressadas obras para o bem de toda a Criação. ‘A fé, que é obra gratuita de Deus no ser humano, não é inoperante, pois a pessoa cristã fará tudo sem esperar recompensa’ (Da liberdade cristã).
Quando confiamos que o amor de Deus é de graça, somos desafiados a mudar as nossas supostas convicções que o mundo ao nosso redor oferta. A fé no Cristo ressurreto nos deixa livres de obrigações sociais e religiosas e nos transforma para o cuidado com a Criação. Da mesma forma, não nos permite a acomodação e a indiferença diante de injustiças, bem como nos desafia para uma crítica feroz diante do acúmulo de bens de uma minoria em detrimento da fome e da miséria da maioria.
É de graça, por isso não está à venda! É o contraponto à meritocracia. A graça é justamente isso: receber aquilo que não se merece. É de graça? Sim! Graças a Deus!!
Para refletir, leia 2Coríntios 12.9a

Pa. Mônica Barden Dahlke, formada em Teologia pela Faculdades EST, em São Leopoldo/RS, exerceu o Ministério Pastoral na Paróquia de Vila Pavão/ES e faz parte da equipe de Comunicação do Sínodo Uruguai. Pastora Vice-Sinodal do Sínodo Uruguai, exerce o Ministério Pastoral na Paróquia de Seara/SC
Justificad@s por graça e fé
Ser pessoa justificada por graça e fé é como receber um grandioso presente e aceitá-lo de braços abertos. Esse presente nós recebemos das mãos do nosso Criador, o qual conquistou por nós a vida eterna e a salvação por meio da sua ressurreição. Nas palavras bíblicas do Evangelho de João 20, Jesus Cristo diz: Por que você me vê, então você crê. Bem-aventurados os que não viram e creram. Nessas palavras, nos damos conta que Deus se revela no Evangelho, fortalecendo-nos na graça e na fé. Conforme as palavras de Efésios 2.4-8, nós, pessoas luteranas, confessamos que somos aceitas por Deus, ou seja, justificadas unicamente por meio da sua graça, mediante a fé. Graça é a palavra usada para expressar a misericórdia e o perdão de Deus, que nos são oferecidos por meio de Jesus Cristo.
Queremos imaginar uma pessoa que está imersa na lama. Ela não consegue sair por si mesma, necessita de alguém de fora para ajudá-la, lhe jogando uma corda. É preciso, no entanto, que a pessoa segure a corda que lhe está sendo lançada. Esta lama, por sua vez, representa o pecado, que insiste em afastar a humanidade de Deus. Por nós mesmos, afundamos e perecemos em nossas fraquezas. Precisamos de alguém que nos ajude e nos tire desta situação. Este alguém é Deus, que está constantemente presente na nossa vida, o qual nos constitui como seres humanos que são à sua imagem e semelhança. O maior e melhor presente Deus nos concede quando entrega o seu próprio Filho por amor à humanidade. Nas palavras de 1Timóteo 2.4, nós lemos que Deus deseja a salvação de todas as pessoas, por isso Ele enviou o seu Filho para nos libertar. Quem de nós seria capaz de tamanho amor pelo bem dos outros?
Jesus morreu na cruz, para que nós, pessoas pecadoras, pudéssemos receber o perdão de Deus e a nova vida mediante a sua graça. Somos pessoas chamadas e capacitadas por Deus a viver uma vida de fé, a qual se renova a cada novo dia por meio da multiforme graça de nosso Senhor e Salvador.
Nas palavras de Romanos 3.23-24, fica claro que somos salvos unicamente pela graça de Deus mediante a fé. Por sua vez, a palavra bíblica também nos ensina que fé sem obras é morta. A fé no Cristo crucificado e ressurreto é que nos faz sair do nosso próprio egoísmo e ir em direção ao outro, permitindo, assim, que Cristo seja o nosso guia, o que, por sua vez, nos torna justos diante da graça e da fé no Criador e doador da vida. A fé em Cristo Jesus faz de nós pessoas melhores e capazes de reconhecer que somos, simultaneamente, pessoas justas e pecadoras. No entanto, carecemos do perdão e da misericórdia de Deus.
Somos, portanto, desafiados a perdoar e a olhar com misericórdia ao irmão, à irmã na fé, na confiança de que o verdadeiro galardão, ou seja, o presente tão almejado por todos e todas, nos vem por Cristo Jesus, que nos torna pessoas justificadas por sua graça por meio da fé.
Para refletir, leia Romanos 3.21-31