Desta vez, vovó Lídia não precisava passar a sexta-feira e o sábado com outras mulheres na cozinha fazendo doces, bolos e pães para a confraternização da Comunidade. Decidiram que cada mulher traria um prato para acompanhar o café que seria feito na cozinha da Comunidade.
Como sempre, vovó Lídia não deixou de trazer a sua contribuição. Ela sabia fazer doce como ninguém. Compensava o seu silêncio de analfabeta com as mãos. Também não cantava nos cultos, a não ser os corinhos que aprendia logo, ou seja, de cor, de coração. Sem poder testemunhar com a boca, testemunhava com as mãos, segundo o Pastor da Comunidade. Suas mãos calejadas faziam doces inesquecíveis. Em sua família, todos lembram dela pelos doces. Aliás, vovó Lídia era um doce de pessoa.
No dia da confraternização, os casais vinham chegando aos poucos e, na hora certa, todos estavam lá. Cada mulher trazia um prato de doce ou salgado, que eram reunidos sobre a mesa. Cada um diferente do outro, pois ali era o lugar de mostrar a sua distinção. Vovó Lídia levou um pão doce trançado, com recheio de coco. O pão trançado lembrava o cabelo encaracolado que escondia em público e em casa. Era uma Silva Porto que fazia um coque no cabelo.
Depois de cantos, meditação e oração, o café foi servido por uma equipe da Comunidade. Os pratos misturados enchiam os olhos e aguçavam o paladar. Todos se deliciaram.
***Feliz é a pessoa que toma refeição no Reino de Deus***
Acostumada a ficar em seu canto, vovó Lídia discretamente olhava para os pratos e não via os pedaços do seu pão trançado. Aquela mistura de pratos poderia refletir as misturas de povos que vovó Lídia trazia em seu sangue, mas ela não se enxergava no prato comunitário. Então, fez de conta que nada aconteceu e foi, como sempre, para a cozinha lavar louça. Surpresa ficou ao ver o seu pão trançado junto a outros que não foram servidos.
Ao rejeitar o pão trançado, rejeitaram vovó Lídiae outras mulheres. Apesar de tudo, sobrou-lhe um grande consolo. Os bolos, doces e pães não servidos eram destinados a um asilo de pessoas pobres. Sua doação não foi em vão. 
Vovó Lídia hoje está no céu, diante do trono da graça. Imagino que ela esteja fazendo doces e pães trançados, com seu sorriso discreto e os cabelos soltos.
Como não posso mais conversar com ela, relembro às gerações que dela nasceram, bem como à sua Comunidade, que feliz é a pessoa que toma refeição no Reino de Deus (Lucas 14.15-24). Sim, Jesus fala do Reino de Deus como um banquete para o qual todas as pessoas são convidadas, embora muitos rejeitem o convite. Mesmo assim, a casa se enche com pobres, cegos, coxos e gente esquecida, como a vovó Lídia.
P. Dr. Oneide Bobsin
Pastor da IECLB e Reitor da Faculdades EST