Conhecia a Elisa há algum tempo. Já comi muito dos seus doces (mágicos) de dezembro que deixavam na boca um sabor de cravo, canela e aquelas especiarias misteriosas que têm o gosto dos Natais da infância. Ela era uma mulher inteligente que gostava muito das coisas da vida, mas a vida lhe deu umas boas rasteiras, como ela mesma costumava dizer. Há muitos anos, havia perdido a filha para um câncer devastador. Depois, se viu às voltas com o marido, que passou a viver entre a cama e a cadeira de rodas.
Elisa parecia sempre guardar suas tristezas em lugares secretos. Se as confessava não era em nenhum confessionário, mas para alguma amiga que, de tão íntima, percebia a diferença no tom do seu silêncio ao telefone. No entanto, com certeza, existiam as palavras não-ditas, aquelas que são inconfessáveis. Essas ficavam submersas na calmaria que ela carregava na alma. Calmaria que espiava o mundo através dos seus olhos de azul de mar. Mar profundo e calmo. Ah, mas o mar esconde segredos incomensuráveis – são os tesouros escondidos em baús. De vez em quando, Elisa abria alguns desses baús e, então, soltava o verbo.
Desde o mês de fevereiro de 2006, ela sofria de um câncer que se alastrava pelo corpo à revelia da quimio e radioterapia. Quem pensa que isso tirava o fôlego dessa mulher, se engana. Ela continuava amando os momentos em que se refugiava em sua cozinha. Quando o corpo a obrigava a ficar na cama, ela dizia sorrindo Estou me dando férias!
***A vida é o maior presente que Deus nos deu e nós, na maioria das vezes,
o desperdiçamos por covardia***
Na vez em que levei o álbum de fotos de uma viagem minha à Alemanha, ela fez um chá e, a cada foto, fazia uma pausa para algum devaneio, às vezes silencioso.
Quando as companheiras do grupo de senhoras
da Comunidade acreditavam que ela não viria mais às reuniões, lá vinha ela, elegante, com uma peruca nova – comprou várias para enganar os efeitos da quimioterapia.
Certo dia, quando cheguei para visitá-la, convidou-me para que sentasse na sua cama e, enquanto dava carinhosos tapinhas na palma da minha mão, foi falando Mandei fazer este guarda-roupa novo, não é lindo? Antes, eu calculava a vida para daqui alguns meses… Agora, calculo para amanhã. Cada dia a mais que eu viver é lucro e quero vivê-los com tudo o que posso. Sei que de alguma coisa a gente precisa morrer. É assim, mas, se eu pudesse passar a vez, diria, ‘pode ir à minha frente’. Entretanto, nessa fila ninguém quer passar à frente”; disse ela, dando uma sonora gargalhada.
Em outra tarde, ao visitá- la, a encontrei na cozinha fazendo uma pizza Estou louca de vontade de comer a minha pizza.
Foi em uma manhã que ela me surpreendeu. Ainda era muito cedo quando Elisa telefonou para a minha casa Sabe Pastora, eu queria me despedir. A gente nunca sabe quando é a hora. Quero dizer que muita coisa eu faria diferente, mas já não tem mais jeito, já está feito. Muitas vezes, principalmente nós, mulheres, acreditamos que devemos levar a família nas costas, o mundo até, mas quem nos leva? Só Deus, minha filha, só Deus. Ah! Se não fosse Ele me carregar… A vida é um grande presente e tantas vezes a deixamos passar. São tantas as coisas que queríamos fazer e não fizemos por causa dos outros, palavras que queríamos dizer e não dissemos. Queríamos tomar outros rumos e não tomamos e cada palavra que não é dita fica trancada no coração e se transforma em dor, em doença até. Que o seu coração tenha paz porque é só isso que importa – a paz. A vida é uma dessas coisas que a gente acha que vai durar para sempre. Como nos enganamos! Fazemos a vontade dos outros, não queremos que outros sofram, deixamos os outros escolherem o melhor pedaço do frango assado ou o pedaço onde a cobertura de chocolate está mais deliciosa. Agradeço a Deus por ter vivido cada momento da minha vida, por cada erro, cada
acerto. Se tivesse que cometer os mesmos erros, eu os cometeria. Sim. Faria tudo igual. Acho até que você poderia fazer um texto para contar a minha história. Se tenho medo de ir? Não. Deus está me preparando para não ter medo. Diga na Comunidade que desejo a todos um Feliz Natal e que não se preocupem, vou ficar bem.
Este texto foi escrito um pouco antes do Natal de 2006, após um dos telefonemas da Elisa. Foi o último Natal festejado por ela, que faleceu em 26 de junho de 2007. O texto, uma homenagem, ficou guardado até que, no Natal de 2007, resolvi presentear algumas pessoas com algo que eu sabia ser muito valioso e enviei-lhes essa história de vida da Elisa. Um dia, encontrei seu f ilho e lhe entreguei o texto, dizendo que a sua mãe marcara a minha vida e que, por meio dessas palavras, ela continuava marcando e tocando muitas outras vidas. Algumas vezes, é preciso olhar para outras pessoas para vermos, como em um espelho, a nossa própria vida.
A Pastora Vera Cristina Weissheimer, autora do relato, é Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo-UMESP, membro da Comissão de Bioética do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo, e atua na Paróquia Centro de São Paulo/SP.