Infelizmente, a violência contra a criança é muito mais comum que imaginamos. Ao contrário do que parece, não está restrita às classes menos favorecidas. Os principais responsáveis pelas agressões são os homens. Não temos investimentos governamentais satisfatórios em políticas públicas que protejam crianças e adolescentes. A violência, muitas vezes, acontece dentro de casa e vem justamente de quem deveria proteger a criança. Essas são algumas das informações sobre a triste realidade de violência contra a criança e o adolescente no nosso país, uma calamidadesocial que deve ser combatida por todos nós, pois ‘cada adulto responsável deve ser um defensor nato de crianças e adolescentes vítimas de violência de qualquer espécie’, como afirma o P. Carlos Eduardo Muller Bock em nossa entrevista que será publicada em duas partes: a primeira, agora e a parte final, em outubro, mês das crianças. É a nossa forma de homenageá-las, não com presentes, mas com um convite ao esclarecimento, à reflexão e, como não pode deixar de ser, à ação!
Quais são os dados sobre a violência contra a criança?
No Brasil, não existem dados confiáveis sobre a violência contra a criança e o adolescente. Nesta área, há muitos números sem comprovação de pesquisa. Os mais confiáveis são os dados locais. Em Novo Hamburgo, desde 2003, quando o Serviço Sentinela foi criado, até março de 2008, foram recebidas 644 crianças e adolescentes vítimas de violência física, psicológica e sexual. A população tem a impressão que aumentou a violência contra a criança, porque o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) está revelando o que antes era escondido, mas ela é histórica e universal. As famílias estão procurando os órgãos competentes para denunciar e exigir proteção das vítimas. Alguns municípios já têm o depoimento sem dano, prática que evita a revitimização das crianças. Atualmente, há uma impressão inflada do aumento da violência, causada pela mídia ao expor ao extremo um caso como o da menina Isabella. Mesmo assim, penso que isso pode ser positivo para dizermos, como País, que não aceitamos nenhum tipo de violência contra a criança.
Além da violência que leva à morte, quais são as outras práticas?
A violência doméstica tem um rol de situações que envolvem a criança. Começa pela negligência e vai até os maus tratos de ordem física, emocional e sexual. A violência psicológica é muito comum e pouco considerada. Um exemplo simples são os pais que reafirmam para o seu filho que ele nunca vai ser nada na vida e que é um ‘burro’. As afirmações negativas vão baixando a auto-estima da criança e ela se conforma. No futuro, acaba tendo problemas para vir a ser um adulto feliz e realizado. A violência física é muito corriqueira. Muitas vezes, é praticada com a intenção de ‘educar’. Em outros momentos, acontece para derramar sobre a criança, a parte mais fraca, as frustrações ou o resultado do uso de drogas de qualquer tipo. A violência sexual, em forma de abuso psicológico e físico, é comum e talvez a mais difícil de ser detectada no âmbito doméstico. Negligência e abandono são formas comuns de violência. Os homens têm tido muitas dificuldades para exercer uma paternidade responsável, sendo os maiores responsáveis pela violência doméstica, abandonando as mães com seus filhos.

P. Carlos Eduardo Muller Bock, natural de Cruz Alta/RS, é Bacharel em Teologia pela Escola Superior de Teologia da IECLB e pós-graduado pelo Instituto Ecumênico de Pós- Graduação, em São Leopoldo/RS. Trabalhou durante seis anos em Jaraguá do Sul/SC como Pastor e, desde 1994, está em Novo Hamburgo/RS como Pastor na Comunidade Evangélica da Floresta Imperial. Em 1998, assumiu a Direção Geral da Associação Beneficente Evangélica da Floresta Imperial (ABEFI), que possui quatro unidades de trabalho na área educacional e de assistência social. Desde 1999, é Conselheiro Municipal do Conselho Municipal dos Diretos da Criança e do Adolescente de Novo Hamburgo (CMDCA/NH). Atualmente, no segundo mandato, é o Presidente da entidade.
Razões e classes sociais da violência contra crianças e adolescentes
Em termos gerais, pode-se destacar o desperdício do dinheiro público e a falta de investimento em programas de proteção, conscientização e combate à violência como fatores fundamentais da violência que se concretiza contra a infância. A pobreza extrema, a falta de conhecimento, o uso de drogas lícitas e ilícitas, a precocidade da sensualidade das crianças mostradas pela mídia, a pobreza de valores e a violência dos programas de televisão também podem ser apontados como fatores da violência contra crianças e adolescentes. A maior parte dos homens e mulheres é muito frágil em convicção, valores, ética e utopia. Poucos se preparam para a paternidade. Muitos herdaram uma educação do castigo e da rigidez. Outros caíram na permissividade total. É preciso ajudar pais e mães a encontrarem o equilíbrio para exercerem a autoridade com convicção e amor.

Violência contra a criança existe em todos os substratos sociais, mas é camuflada nas classes média e alta em função do acesso aos recursos materiais e à contratação de pessoas ou instituições para cuidar dos filhos, além do medo do escândalo e do acesso a tratamento de saúde particular. Entre as populações mais pobres, a violência contra a criança é mais explicita, mas pobreza não é sinal de violência. Na maioria dos lares pobres, as crianças são bem-tratadas. No entanto, o número de pobres no País é bem maior e a criança está mais exposta. Homens e mulheres sem condições financeiras para sustentar seus filhos ficam mais suscetíveis a reagir com violência diante da insatisfação com o comportamento dos filhos. As casas nas periferias são pequenas e com pouco conforto. A rua se torna atrativa. Quando a pobreza chega ao nível da miserabilidade, a criança vai em busca de alimento e é facilmente aliciada por adultos inescrupulosos. Essa é uma grande diferença, mas, nas conseqüências, a violência doméstica não tem classe social.