Mais uma vez, celebramos o Dia da Bíblia, comemorado, neste ano, em 13 de dezembro. É verdade que gostaríamos que cada dia fosse Dia da Bíblia, dia em que a Palavra quer ser acolhida para, tal como a chuva que molha e rega o chão, iluminar nossas decisões e nossas atitudes, mas, assim como celebramos o dia do nosso aniversário, também é bom ter um dia especial para a Bíblia, em que celebramos os indicadores no caminho (Jr 31.21). É a Palavra que indica com segurança o caminho de Deus em meio aos caminhos mundanos.
A relevância da leitura e vivência das Escrituras para o contexto atual está justamente no fato do nosso modelo de sociedade promover a violência e o individualismo, a indiferença e o consumismo, o acúmulo e o prestígio a qualquer custo. Os indicadores que a Bíblia coloca ao longo do caminho têm seu fundamento em outras bases.
A Bíblia não caiu prontinha do céu. A novidade na vida do povo de Israel é que a revelação se dá em meio ao processo histórico, é sempre mediada por pessoas em meio a acontecimentos concretos. A Palavra de Deus vem mediada por palavras humanas e que sempre são condicionadas à cultura, aos alcances e também aos limites humanos. Nesse sentido, podemos perceber a progressiva revelação de Deus na história bíblica até tornar-se plena em Jesus.
Uma das nossas maiores dificuldades é superar determinadas interpretações, que são nevoeiro que obscurece os indicadores do caminho, em vez de clareá-los. Entre outras, apontamos três formas de ler a Bíblia, de modo que nos guie em direção aos valores fundamentais da vida que Deus criou, a fim de a cuidarmos.
Um desses modos básicos é entrar na Bíblia com nossa realidade cotidiana, com nossas perguntas, angústias e esperanças. Isso nos ajuda a buscar a vida real que está por trás do texto. Então, essa mesma Palavra nos ajuda na busca da intimidade com Deus em nossa realidade. Não lemos a Bíblia pela Bíblia,mas para melhor fazer a experiência com Deus hoje. Esse modo que misturar vida e Bíblia facilita a não seguir pelo caminho da leitura espiritualista. Diferente é uma leitura espiritual, ou seja, de acordo com o Espírito de Deus. Por interpretação espiritualista compreendemos aquela leitura que não tem muito a dizer para nossa vida no dia a dia, mas que está mais ligada à alienação ou indiferença em relação à realidade, preocupando-se demasiadamente com a vida futura.
Uma segunda forma de aproximação à Bíblia é que sua leitura seja feita com espírito crítico, à luz da contribuição de todas as áreas da ciência. Essa interpretação nos ajuda a perceber a vida que palpita não somente no texto, mas também no contexto para o qual a Palavra quis ser luz no caminho (Sl 119.105). Uma interpretação criteriosa nos ajuda a superar especialmente a leitura fundamentalista ou literal, sem considerar, entre outros elementos, a linguagem e as imagens, a cultura e a época em que o fato foi vivido e o texto foi escrito.
Por fim, um terceiro elemento importante é fazer a leitura das Escrituras em comunidade. Os livros daBíblia surgiram de muitas comunidades que buscaram ser fiéis a Deus como pessoas, mas especialmente como povo. Foram vividos, refletidos e definidos em comunidade. Hoje, uma interpretação comunitária da Palavra é muito mais rica que uma leitura pessoal. Esta também é importante, mas aquela promove experiências mais profundas com Deus nas novas relações que nos leva a estabelecer com o próprio Deus, conosco mesmos, com as demais pessoas e com o restante da criação. Uma leitura comunitária ajuda a superar a leitura individualista que, mais que conectar a Palavra com a cidadania para todas as pessoas, se contenta em buscar um bem-estar individual que, muitas vezes, não passa de uma massagem em nosso ego.
Lida desse modo, a Palavra nos revela os valores de Deus que orientam nosso caminhar em meio aos caminhos que este mundo nos
quer impor. Os princípios centrais da Palavra conduzem à promoção da vida e da liberdade para todas as pessoas. Ali, o amor e a justiça, a fé e a solidariedade são as bases de relações de partilha, de acolhida e de promoção da dignidade da vida. Foi por essa causa que Jesus deu conscientemente sua vida até as últimas consequências, pois seu projeto é que todas as pessoas tenham vida plena (cf. Jo 10.10).
Ildo Bohn Gass, que estudou Teologia e fez especialização em Bíblia na EST, em São Leopoldo/RS, é Ministro da Palavra na Comunidade católica São Judas Tadeu, atua como Secretário do Programa de Formação no Centro de Estudos Bíblicos (CEBI) e, entre outras publicações, é autor da coleção Uma introdução à Bíblia, publicada pelo CEBI em coedição com a Editora Paulus