Está tão triste, parece casado – Casaram e viveram felizes para sempre. Essas duas expressões pautam a vida matrimonial da maioria dos casais. Pessoas casadas há mais tempo pautam-na pela primeira expressão. Recém- casados ou em vias de se casar acreditam na frase que encerra muitos contos de fadas.
Quem partilha a vida matrimonial há alguns anos, aprende que o seu relacionamento é ameaçado pelo desgaste natural e pode entristecer-se. Nem só triste por ser casado, nem só feliz para sempre. Casamento tem as duas coisas: preocupação e felicidade. Importante é administrar os dois momentos e usá-los para o crescimento dos cônjuges.
O mês de junho tem no seu calendário duas datas importantes: o Dia dos Namorados, dia 12, e o aniversário de casamento de Martim Lutero, dia 13. O reformador da Igreja pleiteia que todas as pessoas deveriam casar, ao contrário da Teologia oficial da sua época. Na Idade Média tardia, entendia-se que o celibato era uma obra meritória a serviço da salvação. O resultado dessa concepção foi a oficialização do celibato obrigatório para sacerdotes.
A melhor forma, se não a única, de servir a Deus, era entrar em um convento de freiras ou de monges. Supervalorizava-se o ideal da virgindade o que, naturalmente, levou a uma desvalorização do casamento e acarretou muita insegurança e incerteza em relação a este assunto. Por meio do estudo da Sagrada Escritura, Lutero descobriu que, com a encarnação do Pai em Jesus Cristo, isto é, pelo fato de Deus ter-se tornado gente, desapareceu toda e qualquer discriminação entre homem e mulher. Com essa descoberta, caiu por terra a inferioridade do sexo feminino, defendida pela Igreja na Idade Média tardia.
A partir dessa nova visão, surgiu outra concepção de matrimônio. Passou-se a valorizar a corporalidade. Deus criou o ser humano para que houvesse um homenzinho e uma mulherzinha, defendia Lutero. Ele não apenas justificou o casamento, mas passou a entendê-lo como uma ordem divina. Propunha que só não devem casar aquelas pessoas que têm uma vocação muito especial para o celibato, mas dessas não se encontra uma entre mil.
As primeiras manifestações de Lutero sobre o matrimônio são teológicas e teóricas, nas quais se defronta com a Teologia oficial da Idade Média. Um dos seus primeiros escritos a respeito ocorreu em 1522. Não sabemos o que se passava em sua cabeça. Talvez nem imaginasse que um dia se casasse. Casou três anos depois, em 13 de junhode 1525, com Catarina von Bora, uma freira que, junto com outras, deixara clandestinamente o convento, escondida na carroça do leiteiro. A partir dessa data, transferiu para a prática toda a sua teoria do casamento, principalmente na valorização da mulher. Com Catarina, que, afetuosamente, chamava de Kaete, cultivava um relacionamento muito carinhoso.
Tinha nela uma fiel companheira que, nas cartas, tratava por ‘meu amável e querido senhor Catarina, doutora e pregadora em Wittenberg’, expressando o apreço que tinha por ela, equiparando-a a um companheiro de luta na vida ministerial. Comparação rara, senão única, em uma época na qual predominavam o machismo e a superioridade masculina. Com Catarina, Lutero partilhava as suas tristezas e as suas alegrias, os seus sucessos e os seus fracassos, o nascimento dos seus filhos e a morte prematura de um deles. O casamento de Lutero certamente não foi perfeito. Nem só tristeza, nem só felicidade. As duas coisas. No entanto, o casamento durou até que a morte os separasse, em 1546. Ele, sem ela, não teria sido o que foi. O mesmo pode-se dizer de Catarina. 
Quem quer manter o seu casamento precisa investir nele. Não convém inspirar-se em relacionamentos fracassados, mas espelhar-se em pessoas que, às vezes, estão tristes por serem casadas, outras vezes não cabem em si de felicidade, e que, em momento nenhum, deixam de valorizar o cônjuge, ajudando-o a crescer como ser humano.
Darci Drehmer é Bacharel em Teologia,
Capelão Militar da Reserva, Editor da Comissão Interluterana de Literatura (CIL) e Coordenador do Reencontro de Casais da Comunidade de
São Leopoldo/RS há 29 anos |