Que a graça de nosso Senhor Jesus Cristo, o amor ….
Prezada Comunidade:
Tiro e Sidom hoje fazem parte do Líbano. Estão localizadas na faixa costeira do Mar Mediterrâneo. Tiro fica a uns 65 km a noroeste de Cafarnaum, junto ao mar, enquanto Sidom, fica mais para cima, a 100 km de Cafarnaum. Eram cidades portuárias, muito ricas, onde o comércio havia enriquecido muitas pessoas. Eram cidades lindas, de tal forma que os governantes se gabavam dizendo: Eu sou um deus, e assento-me no trono de Deus. Nessas cidades dominava a concepção que o ouro podia comprar qualquer coisa, que o dinheiro resolve qualquer problema. Mas, nem tudo pode ser comprado com dinheiro.
O texto diz que a mulher era cananeia. É uma mulher de origem não-judaica, como a cananeia Raabe (Js 6.17; 22s) ou o centurião romano de Cafarnaum (Mt 8.5-13). Tanto ele como ela são mencionados segundo sua origem étnica e não pelo nome. Mas une-os o mesmo clamor: ambos pedem pela cura de seus dependentes. A mulher roga por sua filha. O centurião por um de seus servos, na verdade um jovem rapaz. Tanto o centurião como a mulher cananeia já devem ter tentado tudo que o dinheiro podia comprar, mas a saúde das pessoas enfermas não melhorou. Ao contrário. A morte parecia iminente.
A mulher grita: Senhor, Filho de Davi, tem compaixão de mim!”. Uma mulher estrangeira chama Jesus de Filho de Davi e com isso ela reconhece que este Jesus é o Messias, o Libertador de Israel, há muito tempo esperado.
Mas, Jesus se cala. Não responde nada. É o silêncio de Deus. Silêncio de Deus. Esta primeira reação é tão constrangedora, que até mesmo os seus discípulos não aguentam e pedem: “Despede-a, pois vem clamando atrás de nós” (v. 23). Então vem a segunda reação de Jesus: “Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel” (v. 24). No seu desespero, a mulher se ajoelha e grita: “Senhor, socorre-me” (v. 25). É pedido dramático, como um último recurso. Mas, ainda assim, Jesus lhe nega a ajuda concreta: “Não é bom tomar o pão dos filhos e lançá-lo aos cachorrinhos” (v. 26).
Jesus lembra aqui que ele vem de uma realidade de gente pobre. Na casa dos pobres, onde tem pouca comida, as crianças são prioridade. Os adultos deixam de comer em favor das crianças. Normalmente não tem comida para os cachorrinhos.
A mulher concorda com Jesus. “Sim, Senhor …”, mas ela contra-argumenta: “Porém os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa dos seus donos” (v. 27). Quem lhe deu tamanha força de observação para dobrar o mestre naquela hora? Só posso entender que esta é a ação do Espírito Santo de Deus. É assim que ele age. Quando tudo parece perdido, ele ilumina a realidade e surge uma luzinha onde tudo parecia definitivo e sem solução. Os cachorrinhos também comem, mesmo que sejam farelos.
Ó mulher, grande é a tua fé!” (v. 28) responde Jesus. A fé demonstrada por essa mãe é a fé que agrada a Jesus. Por isso, Jesus diz em seguida: “Faça-se contigo como queres. E desde aquele momento sua filha ficou sã”.
Habitualmente, nós gostaríamos que Deus respondesse prontamente às nossas orações, resolvesse nossos problemas e afastasse imediatamente todo sofrimento. Entretanto, a experiência da mulher cananeia revela que o caminho da fé nem sempre segue essa lógica. Ela encontra um Jesus que, inicialmente, permanece em silêncio; depois, parece recusá-la; por fim, acolhe seu pedido e elogia sua fé. Esse itinerário mostra que a fé cristã não consiste em obter imediatamente tudo o que se deseja, mas em permanecer unido ao Senhor, mesmo quando seus caminhos nos parecem incompreensíveis.
Em nossa vida, também atravessamos momentos que parecem não ter mais solução. Já oramos pela saúde de um familiar, pela paz em nossa casa, pela conversão de alguém que amamos, pelo discernimento de uma decisão importante, e nem sempre percebemos respostas imediatas. Nessas ocasiões, somos tentados ao desânimo, ao abandono da oração ou até mesmo à dúvida sobre a presença de Deus. O testemunho da mulher cananeia ensina que a perseverança nasce da convicção de que Deus continua presente, ainda que seus tempos e seus modos de agir sejam diferentes dos nossos. A oração perseverante não muda nem acelera o tempo de Deus; transforma, antes de tudo, o coração daquele que ora.
Essa passagem bíblica também nos convida a purificar nossa imagem de Deus. Muitas vezes nos aproximamos dele apenas quando necessitamos de alguma graça, reduzindo a oração a um pedido ou a uma solução para os problemas da vida. A mulher cananeia, porém, mostra que o encontro com Cristo vai além da busca por benefícios. Ela permanece diante dele porque reconhece que somente nele encontra esperança. Sua insistência é fruto da confiança. Ela acredita na bondade de Jesus. Também nós somos chamados a desenvolver uma espiritualidade centrada na confiança, que permanece firme tanto nos dias de consolação quanto nos tempos de provação.
Esse Evangelho convida ainda a uma revisão da maneira como olhamos para as pessoas. Os discípulos desejam afastar a mulher porque ela incomoda, grita e não pertence ao povo de Israel. Jesus, ao final, revela que justamente aquela estrangeira possui uma fé extraordinária. Quantas vezes também nós corremos o risco de julgar as pessoas por sua aparência, por sua história, por sua condição social ou por sua proximidade ou nao com a Igreja. O Senhor, porém, não olha as aparências; ele contempla o coração. A comunidade cristã somente será verdadeiramente evangélica quando aprender a reconhecer que Deus pode suscitar exemplos de fé precisamente naqueles que costumamos considerar distantes ou improváveis.
A mulher cananeia recorda que ninguém amadurece espiritualmente sem passar pelo caminho da fé e da perseverança. A fé cresce quando é provada; a esperança se fortalece quando parece não haver razões humanas para esperar; o amor torna-se mais autêntico quando permanece fiel apesar das dificuldades. A vida cristã não é isenta de crises, mas é sustentada pela certeza de que Cristo nunca abandona aqueles que nele confiam.
Portanto, ao contemplarmos essa mulher, somos convidados a renovar nossa própria atitude diante de Deus. Que aprendamos a orar sem desanimar, a confiar sem exigir, a esperar sem perder a esperança e a amar sem colocar condições. Então, também sobre nós poderão ressoar as palavras de Jesus: “Grande é a tua fé!” Mais do que um elogio, elas representam o reconhecimento de uma existência inteiramente colocada nas mãos de Deus, onde a confiança vence o medo, a esperança supera o desânimo e a graça triunfa sobre todas as limitações humanas.
Que a graça de nosso Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus Pai e a comunhão do Espírito Santo continuem no meio de nós. Amém
P.Nilton Giese