Ir para o conteúdo principal

Pedido de Justiça e Transparência por Marcos Daniel Nörnberg

 

“Porque o SENHOR é justo, ele ama a justiça; os retos lhe contemplarão a face” (Salmo 11.7)

Jesus declara: “Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos” (Mateus 5.6)

 

Estimadas irmãs e estimados irmãos,

Iniciamos esta mensagem com os textos bíblicos acima. Eles nos lembram que justiça e fé andam de mãos dadas. É com base nessa palavra de Deus que nos dirigimos a vocês.

 

O Sínodo Sul-Rio-Grandense da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB) tem a sua sede em Pelotas, e compreende todo o território do extremo Sul, de Sertão Santana a Jaguarão e de Rio Grande ao Chuí. Somos 23 mil pessoas membros nas 21 paróquias e 98 comunidades.

 

A temática bíblica nos quer lembrar que já faz mais de três meses desde a morte inexplicável de Marcos Daniel Nörnberg, na propriedade da família, às 3h da madrugada do dia 15/01/2026, numa trágica ação da Brigada Militar. Marcos era pequeno agricultor da zona rural de Pelotas e ainda aguardamos transparência e justiça no processo judicial já aberto e em andamento.

 

A morte violenta de Marcos Daniel Nörnberg nos coloca diante de um silêncio pesado, misturado com indignação, medo, busca de coragem para enfrentar o crime e muitas perguntas sem respostas eficazes até este momento. Como comunidade cristã, não podemos passar ao largo dessa dor, nem fingir que se trata apenas de mais uma notícia, muito menos deixá-la cair no esquecimento, de forma que resulte em outras injustiças semelhantes contra pessoas indefesas. Afinal, o Deus da nossa fé é o Deus da vida, da Paz e da Justiça.  O Deus de Jesus não aceita qualquer forma de violência e injustiça, especialmente aquelas que causam morte. O fato é que um irmão nosso, pai de família, homem honesto e trabalhador, que do suor do rosto tirava o seu sustento, filho amado de Deus, teve a sua vida arrancada diante dos seus e em sua propriedade particular, onde com a família se dedicava à produção agrícola orgânica.

 

A vida de Marcos foi interrompida de maneira injusta, fruto de uma sucessão de erros graves, que revelam algo maior do que falhas individuais: revelam estruturas que, quando não cuidadas e reguladas, podem transformar o dever de proteger em instrumento de morte. Isso fere profundamente o coração do Evangelho, pois Deus é o Deus da vida, não da violência.

 

A tradição cristã — e de modo especial a luterana — nos ensina a chamar o pecado pelo nome. Não para condenar pessoas indiscriminadamente, mas para que a verdade venha à tona e a justiça não seja abafada por eufemismos. Onde houve abuso, ele precisa ser reconhecido; onde houve erro, ele precisa ser responsabilizado. Justiça não é vingança, mas condição para que a vida, a fé e a esperança voltem a florescer. Proteger a Cidadania, como prevê a Constituição Federal de 1988, é dever do Estado e um direito do povo.

 

Ao mesmo tempo, afirmamos com clareza: nem toda polícia é violenta, nem todo servidor público age com brutalidade. Muitos homens e mulheres dedicam suas vidas ao cuidado da sociedade em condições difíceis, com poucos recursos, com grande pressão e adoecimento. Justamente por isso é dever do Estado investir em formação, avaliação, acompanhamento e ética do cuidado, para que o poder conferido a esses servidores e servidoras jamais se transforme em instrumento de opressão e morte. Quem porta armas em nome do Estado precisam portar, antes de tudo, responsabilidade, discernimento e humanidade.

 

Diante dessa tragédia, somos chamados: a vigiar e cobrar, para que a verdade seja apurada, para que o ocorrido não caia no esquecimento e para que a justiça seja cumprida, sem corporativismos nem silêncios cúmplices. A esperar, não em espera passiva, mas em uma esperança ativa e comprometida com a vida e a dignidade humana, trabalhando para que estruturas de violência e morte sejam transformadas em caminhos de Vida e Paz. Nenhuma vida pode ser tratada com menosprezo ou como descartável! Pessoas não podem ser vistas como alvos. Casas e propriedades não deveriam virar campos de batalha. A pressa jamais deveria suprimir a investigação e apuração dos fatos, antes dos atos. A força jamais deveria substituir o diálogo.

 

Seguimos firmes e confiantes na Justiça de Deus e esperançosos no cumprimento daquilo que é a missão da polícia, a saber e lembrar: garantir a segurança pública, preservar a ordem, defender a Constituição Federal, preservar a incolumidade das pessoas e patrimônio, bem como reprimir a criminalidade.

 

Clamamos por Justiça. Que a Vida, a Paz e o Amor sejam maiores que a Morte.

 

 

Pelotas, 08 de maio de 2026.

 

 

 

 

 

Fábio Steinert                                                            Rejane Maria da Nova Cruz Peter

Pastor Sinodal                                           Presidenta da Diretoria do Conselho Sinodal