Ir para o conteúdo principal

“Repartir, repartir, foi Jesus que ensinou.
Nesta hora da oferta, demonstramos nosso amor.
Ajudar a quem precisa, sempre, sempre a toda hora,
é assim que auxiliamos a viver o Reino de Deus agora.”
Autor da Letra: Valéria Franz Bock
Autor da Melodia: Liara Roseli Krobot

O Grupo Repartir, espaço de Diaconia junto às Pessoas com Deficiência (PCD) em Ibirama/SC, nasceu em 1996. Foi para celebrar os 30 anos dessa atividade que a Comunidade Evangélica Luterana em Ibirama convidou a mim, P. Nilton Giese, e minha esposa, Roseli, na noite de 19 de junho, para um momento de gratidão a Deus, de reencontros e memórias.
Em 1996, não havia APAE em Ibirama; por isso, as crianças com deficiência eram levadas para a APAE de Presidente Getúlio, cidade vizinha. No entanto, nas minhas visitas pastorais, encontrava famílias que tinham pessoas adultas com deficiência, quase escondidas dentro de casa. O preconceito e o sentimento de culpa em relação às PCD e suas famílias eram fortes, pois, ao longo da história, a maioria das pessoas associava a deficiência com a culpa. Quem pecou para que houvesse uma pessoa com deficiência?
Por isso, convencer as famílias a participarem de um encontro comunitário com PCD e seus familiares não foi fácil. No entanto, o empenho e a dedicação de um grupo de mulheres da Comunidade, que se solidarizaram com a causa, foram fundamentais para que essas famílias aceitassem participar de encontros mensais no Centro Comunitário da Igreja. O ambiente era preparado com muito carinho, sob a coordenação da primeira presidente do grupo da Comunidade, a Sra. Lourdes Radloff.
Assim, ao longo dos meses, cada vez mais PCD e seus familiares passaram a participar dos encontros mensais. A kombi da Comunidade buscava as pessoas que precisavam de transporte em suas casas. Estagiários e participantes do Período Prático de Habilitação ao Ministértio (PPHM) que atuavam na Comunidade naquela época (P. Gerson Echelmeier, P. Roni Balz, P. Edson Scherdin e P. Rogério Richter) tinham entre suas tarefas dirigir a kombi.
Além dos encontros mensais, também celebrávamos Cultos com a Comunidade aos domingos pela manhã. Naquele tempo, o então adolescente Michel, que havia nascido cego, participava ativamente e, no convívio com o grupo, foi desenvolvendo cada vez mais autoconfiança. Ele acompanhava a liturgia e os hinos com teclado e violão, colocando seus dons a serviço da comunidade. Mais tarde, Michel seguiu seus estudos, com o apoio e as orações de seus pais e avós. Formou-se em Direito e hoje é juiz.
Mostrar que a deficiência não é sinal de culpa, mas um lugar onde o amor e a graça de Deus se manifestam de forma plena e gratuita, foi um dos principais objetivos desse grupo de apoio. Onde antes havia sentimentos de pena, inferioridade e incapacidade, as PCD passaram a revelar suas potencialidades.
Certo dia, os pais de uma pessoa com deficiência desejavam que o filho fosse confirmado. Eu, como pastor, não me sentia preparado nem capacitado para integrar uma pessoa com deficiência cognitiva ao grupo de Ensino Confirmatório. Por isso, passei a ter encontros individuais com o Volmir. No entanto, sempre que eu mencionava a palavra “amém”, ele completava dizendo “doim”. Para ele, a palavra “amém” estava associada a “amendoim”.
Tivemos encontros semanais durante seis meses, e eu cheguei a pensar que aquele tempo havia sido em vão. Na semana anterior ao Culto de Confirmação, a comunidade aguardava o tradicional exame dos confirmandos e confirmandas. Quem já passou por isso sabe da tensão que esse momento carregava. Eram feitas perguntas sobre os 10 Mandamentos, o Pai Nosso, o Credo Apostólico, os livros da Bíblia, citações bíblicas e muito mais.
Quando chegou a pergunta sobre o que é a Santa Ceia, o Volmir levantou a mão. Eu fiquei apreensivo, imaginando que ele falaria de “amendoim”. Aquele jovem insistiu tanto com a mão levantada, querendo falar, que não teve jeito. Tive que dar-lhe a palavra e perguntei: “Está bem, Volmir, o que acontece na Santa Ceia?” Ele se levantou, a comunidade ficou em completo silêncio, e então respondeu: “Na Santa Ceia, Jesus faz festa para o Volmir!”
Fiquei de queixo caído, profundamente impactado, e a comunidade também, diante daquela manifestação tão clara da ação do Espírito Santo nas palavras do Volmir. A partir desse momento, o grupo de apoio passou a buscar um símbolo que expressasse essa experiência e entendemos que a borboleta, que se revela a partir do casulo, era a melhor representação.
Esse trabalho, que foi plantado há 30 anos em Ibirama, chegou até hoje porque foi cuidado, regado e ampliado por outras lideranças, como a Sra. Ingeburg Krause e o P. Cristov Kayser. Eles conseguiram envolver outras entidades, organizam bazares, distribuem milhares de roupas, dezenas de cadeiras de rodas e continuam celebrando cultos e encontros mensais com o apoio da Prefeitura Municipal, que disponibiliza ônibus escolares para o transporte das PCD e seus familiares.
Por tudo isso, celebrar os 30 anos desse grupo foi um momento de profunda gratidão a Deus. Como Igreja Evangélica Luterana, entendemos que nossa tarefa é dar continuidade à missão de Jesus.
Como Igreja, devemos nos esforçar ao máximo para continuar fazendo neste mundo o que Jesus fazia. Ele nos mostrou o caminho. A nós, cabe segui-lo.
(P. Nilton Giese)