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Entre reflexões, escuta e metodologias criativas, o Encontro da Articulação Sul da Rede de Diaconia reuniu representantes de instituições e iniciativas diaconais nos dias 5 a 7 de maio. O encontro aconteceu junto à Associação Beneficente Pella Bethânia, em Taquari (RS). A programação teve como eixo central a superação das violências, especialmente a partir do cuidado, da escuta e do fortalecimento comunitário.

A meditação de abertura foi conduzida pelo pastor sinodal do Sínodo Vale do Taquari, Luis Sievers. A partir de passagens bíblicas sobre diferentes formas de violência, ele destacou a diaconia como presença concreta de cuidado, justiça e esperança diante das fragilidades humanas.

 

Impactos da crise de saúde mental

O olhar sensível para o cuidado também esteve presente na fala da professora, filósofa, psicopedagoga e mestra Mônica Facio. Ela abordou os impactos da crise de saúde mental sobre quem atua na defesa de direitos. Segundo os dados apresentados, os afastamentos por questões de saúde mental cresceram 134% entre 2012 e 2024. Em 2024, foram cerca de 470 mil registros — 64% deles envolvendo mulheres. Ansiedade, depressão e depressão recorrente aparecem entre os principais fatores relacionados ao adoecimento.

A professora Mônica destacou que o sofrimento emocional deixou de ser uma experiência isolada para se tornar uma questão coletiva e estrutural. Hoje, 45% da população brasileira relata sintomas de ansiedade e uma em cada cinco pessoas convive com a depressão. A ausência de políticas estruturadas de saúde mental em grande parte dos municípios é um desafio para quem busca apoio e cuidado.

As reflexões abordaram ainda a chamada “sociedade do cansaço”, marcada pela autoexploração, pelo excesso de positividade e pela dificuldade em estabelecer limites entre trabalho e vida pessoal.

Ao entardecer, em meio ao pôr do sol às margens do Rio Taquari, o grupo conheceu a estrutura da Associação Beneficente Pella Bethânia. Este momento foi conduzido pelo coordenador-geral da instituição, diácono Dério Milke, que apresentou a trajetória histórica da entidade, os serviços desenvolvidos e a caminhada diaconal construída ao longo de seus 134 anos.

 

Visita à Horta Comunitária de Teutônia

O segundo dia proporcionou uma imersão em iniciativas comunitárias e metodologias criativas voltadas à superação das violências. Pela manhã, o grupo visitou a Horta Comunitária de Teutônia, iniciativa que neste ano passou a atuar como associação de economia solidária. Mais do que um espaço de cultivo de alimentos, a experiência demonstra como ações comunitárias podem fortalecer vínculos, promover dignidade, autonomia, segurança alimentar, pertencimento social e protagonismo.

 

Oficinas de superação de violências

À tarde, foram realizadas quatro oficinas dedicadas às Metodologias Criativas de Superação de Violências. A equipe do SerPaz abriu as atividades com dinâmicas ligadas ao Projeto de Alternativa à Violência (PAV). As dinâmicas promovem práticas de diálogo, convivência e resolução não violenta de conflitos.

Na sequência, aconteceram duas oficinas paralelas. A coordenadora da Associação Acolha Penélope, Grazi Pruch Gonçalves, apresentou o trabalho desenvolvido pela entidade junto a crianças e adolescentes. Entre as metodologias utilizadas estão bonecas pedagógicas, empregadas como recurso educativo para dialogar, de forma acessível e cuidadosa, sobre proteção, limites e enfrentamento das violências. A oficina também apresentou o livro Acolha Penélope, criado como instrumento de formação para educadoras e educadores da rede pública.

Já a fisioterapeuta gerontóloga, professora e mestra Cristiane Moro conduziu reflexões voltadas às pessoas idosas. Ela enfatizou a escuta ativa, o acolhimento e a validação como práticas fundamentais de cuidado. A oficina abordou diferentes formas de violência contra pessoas idosas — física, psicológica, financeira, negligência e violência institucional — além de sinais frequentemente naturalizados no cotidiano. Dados indicam que três em cada dez pessoas idosas sofrem algum tipo de violência no Brasil e que cerca de 90% dos casos ocorrem dentro do ambiente familiar.

Encerrando as oficinas, a equipe do Proame trabalhou metodologias voltadas às crianças e adolescentes, promovendo reflexões sobre as múltiplas violências às quais esse público está exposto em contextos como família, escola, igreja e meios digitais.

 

Fortalecimento coletivo

No último dia do encontro, houve espaço para partilha das experiências vividas nas oficinas. O grupo também se ocupou com alinhamentos do Planejamento 2026-2027 da Rede de Diaconia, e com articulações para o 5º Encontro Nacional da Rede de Diaconia, previsto para ocorrer entre os dias 28 e 30 de outubro.

O encerramento aconteceu sob a tradicional figueira ao lado da pousada da Associação Beneficente Pella Bethânia. A celebração foi marcada por gratidão, espiritualidade, fortalecimento e esperança.

Em nome do Grupo Gestor, a coordenadora da Rede de Diaconia, diácona Simone Engel Voigt, destacou a importância do encontro como espaço de fortalecimento mútuo entre instituições e pessoas comprometidas com a promoção da dignidade humana. “A caminhada da Rede reafirma diariamente a importância de construir relações de cuidado, proteção e superação das violências a partir da escuta, da coletividade e da presença diaconal nos territórios”, afirmou.

Texto e fotos: Édson Luís Schaeffer/Comunicação Rede de Diaconia