O conceito de Ecodiaconia vem se consolidando ao evidenciar a relação entre a Diaconia e a questão ambiental. Diante das crescentes tragédias climáticas, torna-se cada vez mais visível a interdependência entre ser humano e meio ambiente, em um ecossistema interdependente. Também o sofrimento que atinge tanto pessoas quanto os demais seres vivos, exige atenção e cuidado. Esse cenário desafia a Igreja a refletir e agir.
Sobre o tema, confira a entrevista especial com o Pastor e Professor Dr. Rodolfo Gaede Neto.
Jornal Evangélico Luterano (JOREV): Para começar, o que significa falar em Ecodiaconia? De onde vem esse conceito e por que ele é importante hoje?
Pastor e professor Rodolfo Gaede Neto: O conceito Ecodiaconia vem se consolidando na medida em que se reconhece a importância da relação existente entre a Diaconia e a questão ambiental. Falar em Ecodiaconia significa chamar a atenção para a necessidade de ampliar a compreensão de cuidado em dois sentidos. Primeiro, de que há sofrimento humano em consequência da degradação do meio ambiente (além do sofrimento que tem outras causas). E segundo, de que há sofrimento, pela mesma causa, também dos demais seres vivos, com os quais as pessoas compartilham a existência, e que requerem atenção e cuidado.
Do ponto de vista gramatical, “eco” funciona, na formação de palavras, como prefixo proveniente do grego oikos (“casa”, “habitação”), para formar palavras como ecologia, ecossistema, ecossustentabilidade e outras, sempre para referir-se à casa comum dos seres vivos, não-vivos e de seu ambiente de existência.
Para estudar a casa comum surgiu a ecologia. O termo se refere ao estudo das relações dos seres vivos (fatores bióticos) e não-vivos (fatores abióticos) entre si, e destes com o ambiente em que partilham sua existência. Assim, ecologia significa o estudo da relação entre todos os seres e da sua relação com a sua casa comum.
O contexto das tragédias climáticas forjou a reflexão sobre a necessidade de compreender o ser humano na sua íntima ligação com o meio ambiente. Há uma conexão e uma dependência entre todos os seres do grande ecossistema. A degradação desse sistema gera dores, de modo que o cuidado através da Diaconia não mais pode ser separado das questões ambientais.
JOREV: O tema do ano da IECLB para 2026 é cuidar da Criação de Deus. Por que a temática ambiental também é assunto para a fé cristã?
Rodolfo: A conscientização em relação à necessidade do cuidado da nossa casa comum e o necessário engajamento nesta causa precisa contar com o maior leque possível de iniciativas, nas mais diferentes frentes de atuação, como movimentos populares, políticas públicas, projetos sociais, partidos políticos, instituições educacionais, religiosas, entre outras. Para a Igreja Cristã, o compromisso para com esta causa lhe advém de sua própria base doutrinária – veja o primeiro artigo do Credo Apostólico – e de seu Texto Sagrado, que é a Bíblia.
Nos Escritos Sagrados do cristianismo, o Criador dos céus e da terra é louvado pelo seu povo. Os Salmos 104 e 148, por exemplo, convidam toda a criação, desde os céus até a terra, passando pelas criaturas e os organismos da natureza, a louvar a Deus por sua majestade e pelas maravilhas de suas obras. Outros salmos, como o 19, também celebram o Criador através da contemplação dos componentes da natureza como a luz e o movimento dos astros, que anunciam a grandeza de Deus. Portanto, a relação do povo de Deus com o Criador é uma relação de admiração, contemplação, exaltação e louvor pela sua majestade, pela sua grandeza e pela perfeição de suas obras.
Assim, a relação da pessoa e da Comunidade cristã com a Criação de Deus vem a ser uma questão de espiritualidade. A Comunidade de fé vive uma espiritualidade de paz e respeito em relação ao Criador e à Criação. O louvor ao Criador e a contemplação de suas obras perpassam nossas liturgias e nossa hinologia. O amor ao Criador e à sua Criação está no coração da Comunidade de fé; faz parte do seu credo. Quem ama o Criador não agride sua criação. Protege-a e cuida dela.
JOREV: A Diaconia tradicionalmente está ligada ao cuidado com pessoas. O que muda, ou o que se amplia, quando falamos em Ecodiaconia?
Rodolfo: Historicamente, a Diaconia vem sendo compreendida como um Ministério da Igreja Cristã voltado ao cuidado do ser humano, de modo especial, daquelas pessoas que se encontram em situação de maior vulnerabilidade. A abrangência do conceito Diaconia não ultrapassava muito as linhas deste quadro, ou seja, do cuidado aos humanos na área social.
Entrementes, não há mais como evitar a pergunta sobre a relação existente entre a justiça social e a questão ambiental. O desequilíbrio ecológico tem gerado mudanças climáticas em nosso tempo e, como consequência, temos assistido a grandes tragédias ambientais (enchentes, estiagens, incêndios e outros) que afetam em grande medida as populações mais vulneráveis, como famílias moradoras nas encostas e nas margens dos rios, por exemplo. A Diaconia cristã tem se destacado nessas situações como importante força de solidariedade, através de significativas campanhas de ajuda às vítimas. Todavia, a pergunta inquietante, forjada por esse contexto, é: o papel da Diaconia é cuidar das vítimas dessas tragédias ou ela tem também uma missão preventiva?
A prevenção, neste caso, remete à necessidade de cuidado do ambiente de vida no nosso planeta, para que as tragédias tenham o seu impacto reduzido ou, melhor, sejam evitadas. Daí o nascimento do conceito Ecodiaconia.
JOREV: Nesse sentido, podes falar mais sobre o aspecto de “cuidado preventivo” e sobre que implicações isso traz para a vida em Comunidade?
Rodolfo: O cuidado preventivo no contexto da Ecodiaconia é o serviço que a Comunidade de fé pode prestar ao meio ambiente no sentido de conscientizar as pessoas quanto à necessidade de cuidado da nossa casa comum, para que ela não seja agredida, e sim, preservada para o bem de toda a humanidade e dos demais seres vivos do planeta. Através da Ecodiaconia a Comunidade cristã quer oferecer sua contribuição para conservar a terra viva, juntamente com todos os organismos que a compõe, para que as futuras gerações também possam conviver com ela e através de sua generosidade manter sua saúde e obter seu pão de cada dia. A implicação que isso traz para a vida em Comunidade é um constante envolvimento das lideranças, dos diversos grupos e da Comunidade em iniciativas e atividades de sensibilização, de informação, de estímulo, de reflexão, de celebração e de engajamento na causa do cuidado preventivo.
JOREV: De que maneira a relação entre ser humano e Criação foi distorcida ao longo do tempo? E como a fé pode ajudar a reconstruir essa relação?
Rodolfo: Ao longo do tempo, o ser humano foi assumindo uma posição de apropriação da Terra. Na realidade, cada pessoa pode adquirir um pedaço deste planeta e tornar-se legalmente seu proprietário. Onde se instala a mentalidade de possessão da terra, estaremos a um passo de fazer uso dos seus recursos de acordo com a conveniência e os interesses particulares. E nisso está o risco da exploração da terra.
Assim, o ser humano foi se distanciando da necessidade de compreender a Terra como uma casa comum que acolhe e abriga todos os seres humanos e cada uma das novas gerações, e acolhe também todos os demais seres, como espaço partilhado de vida e bem-estar.
No caso das pessoas e Comunidades de fé, é importante manter viva e acesa a mensagem original dos Textos Sagrados a respeito de como compreender a nossa relação com o Criador e sua Criação. Isto fará toda a diferença na perspectiva de uma constante metanoia (conversão) com vistas ao restabelecimento de uma relação saudável com o meio ambiente. Vale destacar as seguintes mensagens bíblicas, que podem se tornar a base de uma espiritualidade ecodiaconal:
Primeiro, na qual a Criação de Deus é percebida como um grande ecossistema. A Comunidade de fé que louva ao Criador através dos salmos, hinos e orações, olha para a Criação como um grande conjunto de obras interconectadas. No Salmo 104 menciona-se, por exemplo, as águas, as fontes, os mananciais, os animais, as plantas, a floresta, o vento, a chuva, os montes, a face da terra, o céu, os mares, os frutos da terra, o sol, a lua… Não por acaso, o salmista canta: “Que variedade, Senhor, nas tuas obras! Todas com sabedoria as fizeste; cheia está a terra das tuas riquezas”. Enfim, todos esses componentes da Criação, incluindo o ser humano, formam um todo inteiro em que cada parte cumpre o seu papel para o bom funcionamento do todo.
Fritjof Capra, filósofo e físico austríaco, autor da grande obra intitulada “A teia da Vida”, apenas confirma esta compreensão dos Salmos. Após 10 anos de pesquisa, chega à sua principal conclusão: “todas as formas de vida estão em conexão”. Lembra também: “Sempre que olhamos para a vida, olhamos para redes”. Portanto, a Comunidade de fé sabe: se uma parte desse todo for afetada, o todo também o será. E Capra conclui assim: “Toda a vida na Terra tem um grau de parentesco. Parece haver uma profunda interdependência entre as coisas”. Cabe olhar para a Criação de Deus com olhos holísticos. O termo holismo vem do grego “holos” e significa “todo, inteiro, conjunto”, de forma que se apoia na teoria da compreensão integral. Ou seja, o todo está em cada parte e cada parte se encontra no todo.
Além disso, também cabe destacar a compreensão de que a terra precisa de descanso. O povo de Deus compreende a terra como pertencente ao Criador, com a qual o ser humano deve lidar com cuidado e responsabilidade. Por isso, desenvolveu uma legislação a respeito do manejo responsável da terra e estabeleceu o Ano Sabático. Êxodo 23.10-11 proclama: “Seis anos semearás a tua terra e recolherás os seus frutos; porém no sétimo ano a deixarás descansar e não a cultivarás, para que os pobres do teu povo achem que comer, e do sobejo comam os animais do campo”. Além do descanso da terra, a legislação tinha também a função social de garantir alimento gratuito para as pessoas pobres, órfãs, viúvas e estrangeiras.
Vejam que mesmo sem ser cultivada, a terra produz alimentos para que ninguém passe fome. É a terra se doando em serviço aos pobres. A própria Terra pratica a Diaconia. Por isso, podemos falar também de uma Diaconia da Terra.
Isso lembra palavras da sabedoria popular, atribuídas ao Papa Francisco, que dizem: “Os rios não bebem sua própria água; as árvores não comem seus próprios frutos. O sol não brilha para si mesmo; e as flores não espalham sua fragrância para si. Viver para os outros é uma regra da natureza (…). A vida é boa quando você está feliz; mas a vida é muito melhor quando os outros estão felizes por sua causa”.
No contexto do Ano Sabático, o livro de Levítico, no capítulo 25, acrescenta que foi instituído também o Ano do Jubileu. Depois de sete vezes sete sabáticos, ou seja 49 anos, os israelitas têm o direito de voltarem às suas propriedades originais, suas dívidas são perdoadas, as pessoas escravas são libertas; promove-se assim a restauração da vida em comunidade, na perspectiva da justiça social e econômica.
A terra é reconhecida como um ente vivo que precisa de descanso e precisa ser respeitada na condição de um ser vivo. Dispor dela abusivamente causa-lhe danos e ofende o Criador. O livro de Gênesis lembra que o Criador “tomou o ser humano e o colocou no jardim do Éden para o cultivar e o guardar (Gênesis 2.15).
Por mim, lembramos a inseparabilidade do humano da terra. Na língua hebraica há uma relação muito estreita entre os termos Adam אָדָם)) = humanidade; e Adamah אֲדָמָה) ) = terra. Os termos expressam a relação íntima entre o ser humano e a terra. O ser humano é formado da terra. O texto de Gênesis 2.7 ilustra essa relação de forma explícita: “Então o Senhor Deus formou o ser humano [Adam] do pó da terra [Adamah]”. Essa compreensão coloca a humanidade numa relação de inseparabilidade com a terra. Essa ideia também está expressa em Gênesis 3.19: “Da terra foste formado e à terra tornarás”. Agressão à terra significa, portanto, autoagressão por parte da humanidade.
JOREV: Nesse sentido, existe uma dimensão de justiça envolvida na Ecodiaconia? Quem são as pessoas mais afetadas pela degradação da criação?
Rodolfo: As tragédias ambientais podem causar prejuízos a quaisquer pessoas ou grupos. No entanto, pessoas com recursos limitados têm dificuldades de adquirir moradias em ambientes mais seguros. Por isso, instalam-se em locais periféricos da cidade e, assim, expõem-se aos riscos de inundações, alagamentos e deslizamentos. Em contextos rurais, as estiagens ou chuvas em excesso também causam vítimas e são fatores de empobrecimento. Portanto, a degradação da Criação de Deus expõe também uma situação de cunho político-econômico-social. A desigualdade social desfavorece as pessoas com menor poder aquisitivo também em termos ambientais. Por isso, é possível e necessário dizer que o cuidado da Criação inclui uma questão de justiça. Neste sentido, o investimento na preservação da saúde climática é um ato de justiça. O cuidado da Criação faz parte da construção da justiça social.
JOREV: O que a compreensão de que “a terra pertence a Deus” muda na forma como nos relacionamos com ela no dia a dia e quais sinais mostram que hoje estamos ultrapassando os limites da terra?
Rodolfo: O Salmo 24.1 reza: “Ao Senhor pertence a terra e tudo o que nela se contém, o mundo e os que nele habitam”. Vale lembrar que em 1982 a IECLB escolheu este versículo como lema do ano.
As palavras do salmista são uma confissão de fé do povo de Deus, que equivale a afirmar que a Terra é um empréstimo, cedido pelo Criador, para ser a casa comum de todos os seres humanos, de todos os animais e de todas as plantas e de todos os demais organismos existentes. Em virtude disso, nenhum ser em particular pode apropriar-se dela e usá-la a seu bel prazer como objeto de exploração.
Uwe Wegner, ao refletir sobre a parábola do Bom Samaritano, compara a pessoa assaltada com a criação de Deus, afirmando que ela, em muitos casos “está caída em mãos de salteadores, os quais, depois de tudo lhe roubarem e lhe causarem muitos ferimentos, deixam-na semimorta” (Lucas 10.30).
Não é necessário referir que nos tempos atuais os meios de agressão à Criação de Deus são múltiplos, a exemplo do uso de combustíveis fósseis, dos incêndios, fatores que contribuem para o aquecimento global e intensificam o efeito estufa e a criação do caos climático; além disso, o uso abusivo de produtos tóxicos na agricultura, a poluição do solo, do ar e das águas, a exploração desenfreada do solo para a prática da monocultura, e outros.
Nas palavras de Martim Lutero, “é assim que procede o infeliz e pervertido mundo, que está afogado em sua cegueira e mal-usa todos os bens e dons de Deus unicamente para a sua soberba, avareza, prazer e diversão, sem atentar uma vez sequer em Deus, para agradecer-lhe e reconhecê-lo como Senhor e Criador” (LUTERO, Martim. Catecismo Maior, 1° artigo do Credo Apostólico. In: Livro de Concórdia. São Leopoldo: Sinodal; Porto Alegre: Concórdia, 1980, p. 449).
O Bom Samaritano providenciou o socorro à pessoa agredida. Além disso, envolveu uma terceira pessoa no processo do cuidado (o dono da hospedaria), dizendo-lhe: “cuida deste homem”.
Nossa consciência ecodiaconal nos faz ouvir hoje a voz sonora do Criador dizendo: cuida da terra, das plantas, dos animais, das águas e do ar tão agredidos tal qual aquele homem violentado que descia de Jerusalém para Jericó.
A espiritualidade samaritana impulsiona as pessoas de fé e a Comunidade de fé a se tornarem próximo da Criação de Deus.
Há uma ilustração (abaixo) que chama à atenção para a reflexão de que o ser humano não ocupa um lugar de sobreposição em relação aos demais seres criados, mas, de comunhão com eles.

JOREV: Em sua reflexão, o senhor pontua sete desafios da Ecodiaconia. Onde o senhor enxerga sinais de esperança quando pensamos na relação entre fé, Igreja e cuidado com o meio ambiente?
Rodolfo: Considero a Comunidade de fé o lugar mais apropriado para a reflexão e o engajamento na causa da Ecodiaconia. Por isso, elaborei, à luz da reflexão sobre o tema, alguns desafios, que podem servir de estímulo para o trabalho com grupos na Comunidade:
- Exercitar a espiritualidade da adoração ao Criador e da contemplação de sua criação. Quem ama o Criador não danifica sua obra.
- Contemplar a criação de Deus com visão holística. Trata-se de um grande ecossistema, em que tudo está interconectado.
- Respeitar a terra como propriedade de Deus. Exercitar a desconstrução de uma mentalidade possessiva e gananciosa.
- Observar a necessidade de descanso da terra. Contribuir para que ela permaneça viva, saudável e capaz de prover o sustento diário para as futuras gerações.
- Tornar-se próximo e próxima da Terra. Adotar a Diaconia samaritana para ajudar a curar suas feridas e envolver outros agentes no processo de cuidado. Promover a metanoia ecológica.
- Conviver pacificamente, como comunidade de fé criada pelo Espírito Santo, com a comunidade biológica, criada pelo Criador.
- Cultivar a amizade com a terra. Dela somos inseparáveis: dela somos formados e formadas; e a ela retornaremos (Adam x Adamah).
Tenho esperança e enxergo sinais de esperança no trabalho de conscientização e engajamento com a Comunidade de fé. Nela encontramos os grupos de crianças, adolescentes, jovens, casais, mulheres, homens, pessoas idosas. Nela acontecem as reuniões de estudos bíblicos, de oração, de música, de Ensino Confirmatório, de Missão Criança, de Juventude Evangélica, de OASE, de LELUT, de celebrações, de Cultos. O tema da ecologia sempre despertará a atenção de alguns grupos e encontrará solo fértil para a reflexão, a celebração, o engajamento. A criatividade das lideranças da Comunidade tornará a Criação de Deus um tema interessante, atraente e desafiador.
Leia, na página 15 desta edição do JOREV, o Estudo Bíblico sobre o mesmo tema, de autoria do Prof. Dr. Rodolfo Gaede Neto. Os textos encontram-se na íntegra no
caderno Ecodiaconia: o cuidado da Casa Comum, que celebra o dia 19 de abril, Dia Nacional da Diaconia. Acesse o caderno clicando aqui.