‘Nossa Fé – Nossa Vida’ afirma que a IECLB é o Convívio de pessoas batizadas ou admitidas, diferentes umas das outras, todas elas, no entanto, chamadas para viver seu Batismo, é o Povo de Deus, pois, nesse Batismo, Deus dignifica-nos para sermos membros do seu povo pela obra salvadora do seu Filho, é a Igreja de Jesus Cristo no País, pois, como Igreja cristã, o Espírito Santo nos chama a participar do serviço de Cristo no mundo, no ambiente em que vivemos, é ainda Associação religiosa, pois somos, como entidade civil, uma associação religiosa constituída por Comunidades evangélicas e organizadas legalmente por Paróquias e Sínodos. Para falar sobre o tema, convidamos o P. em. Harald Malschitzky, que foi Pastor de Paróquia, Pastor regional e Professor na EST e em Matanzas (Cuba), além de ter se envolvidoem áreas públicas de educação. Hoje, é Assistente da Presidência da IECLB. Também participa o P. Dr. Silfredo Bernardo Dalferth, que atua no Departamento Dienst für Mission, Ökumene und Entwicklung da Igreja de Württemberg, na Alemanha. Contribui, ainda, o P. Milton Jandrey, que está participando do Programa de intercâmbio de Obreiros da IECLB com a EKD e Igreja da Baviera, atuando na Comunidade em Schwandorf, Alemanha, e trabalhando no fortalecimento da parceria do Decanato Sulzbach-Rosenberg com o Comin-Terra Indígena Guarita. Finaliza esta reflexão o Dr. Milton Laske, Procurador do Estado de Santa Catarina aposentado, atualmente exercendo a advocacia e, na IECLB, o atual Presidente do Conselho da Igreja.
Convívio de pessoas batizadas
Pastor emérito Harald Malschitzky
Nós, luteranos, somos conhecidos como individualistas e frios, por termos uma fé distanciada do dia-a-dia. Ainda assim, há exemplos e formas de convivência que mostram o contrário e são vitais para muita gente. Contarei algumas experiências feitas e outras ouvidas.
Lembro de Comunidades pequenas, na área rural. O culto já é ponto de convivência e de encontro, mas no dia-a-dia um participa da vida do outro, seja em suas festas, em momentos de doença ou de luto. É comum pessoas de uma família ajudarem outra casa sem esperar nem receber nada em troca, mas simplesmente porque o outro precisa de ajuda. Se alguém fica doente, se nasce uma criança, se falece alguém, um familiar ou pessoa da Comunidade vai ‘dar uma mão’.
Em muitas Comunidades metropolitanas, o encontro acontece após o culto, em torno de um chá ou de um café. Pessoas que conversam, falam de suas alegrias e suas dores, mas lembram também outras pessoas que precisam de apoio especial. Penso naquelas pessoas que, a partir de grupos na Comunidade, convivem também lá fora: casais, idosos, famílias inteiras. Penso em grupos que são parte da vida dos seus participantes, caso da terceira idade.
É bom lembrar: nossos grupos são muito diferentes de tantos que andam por aí. Outro exemplo está no movimento de casais e de muitas Comunidades onde existem grupos de pessoas que se dedicam a visitar idosos e doentes presos às suas casas. Não podemos esquecer os grupos de senhoras e o seu papel para a vida de muita gente.
Sem dúvida, falta muito a conviver, mas não devemos esquecer o que acontece.
Para refletir, leia Atos 2.44
Povo de Deus
Pastor Dr. Silfredo Bernardo Dalferth
Conforme Nossa Fé – Nossa Vida, o Batismo dignifica-nos para sermos membros do seu povo. Em seguida, o texto fala que o Espírito Santo chama o seu povo para participar do serviço de Cristo no mundo, ou seja, a fé acontece dentro da comunhão, dentro do povo de Deus. A palavra ‘povo’, culturalmente muito carregada, expressa: unidade, identidade, necessidade de proteção, a realidade difícil da vida.
Para Lutero, Cristo é, com os santos, um só corpo espiritual e, semelhante a um povo de uma cidade, é uma comunidade e corpo, onde cada cidadão é membro do outro e de toda a cidade… Nesta compreensão, o povo de Deus está ligado à vida, para que haja cuidado uns dos outros. Ninguém está sozinho! Também a Santa Ceia expressa esta unidade. Lutero usa a figura que muitos grãos formam um só corpo do pão.
Na Comunidade, todos são membros do mesmo corpo e uns dos outros, se ale- grando e sofrendo em conjunto. Todos são revestidos de Cristo, destruindo barreiras relacionais e discriminatórias, unindo com diferentes dons e na mesma comunhão.
O povo de Deus age para dentro da sociedade e do mundo. O documento Missão dentro do contexto, da Federação Luterana Mundial, diz que a Igreja missionária é uma comunidade que age no exemplo de Jesus, uma comunidade de serviço em favor de pessoas. A diaconia vai para além da comunidade e se torna pública e irrestrita, incluindo todas as pessoas necessitadas e se engaja para transformar a sociedade.
Jesus age na perspectiva do reino de Deus como projeto de comu- nhão que inclua todas as pessoas. Por causa do exemplo de Jesus, a Comunidade une a liturgia do culto com a liturgia da vida, por isso é Povo de Deus: porque vive a fé dentro do mundo, dentro da história.
Para refletir, leia Mateus 5.1-16
Igreja de Jesus Cristo no País
Pastor Milton Jandrey
Como Igreja cristã, o Espírito Santo nos chama a participar do serviço de Cristo no mundo, no ambiente em que vivemos. Somos, desta forma, Igreja de Jesus Cristo no Brasil, assim o Nossa Fé – Nossa Vida expressa o ser IECLB no Brasil. Pelo Batismo, fomos feitos membros do corpo de Cristo, somos povo de Deus, organizado em instituição, chamado a propagar em palavras e ações o Evangelho de vida no ambiente, isto é, na rua, cidade, no País em que vivemos.
O que para nós, hoje, é consenso nem sempre foi assim. Ao olharmos para trás, veremos que antes e também ainda por algum tempo quando da constituição da nossa IECLB a idéia de ser Igreja no Brasil, por vezes, não passava da extensão geográfica ou cultural da Comunidade. A cultura é importante, mas não pode suplantar o Evangelho nem determinar a confissão de fé.
A nossa tradição como IECLB é a nossa fé cristã marcada pela Reforma, a qual determina a espiritualidade, a Teologia e o ser Igreja. Esta tradição confessional deve ser vivida em linguagem e culturalmente contextualizada em nosso País, onde a diversidade cultural, as diferenças sociais são tão gritantes e a manifestação religiosa é tão variada.
Temos em nosso imenso Brasil, como IECLB, uma tarefa no ser Igreja de Jesus Cristo e a alegria de podermos, no tempo e contexto atuais, participar da Missão de Deus, testemunhando a Boa Nova do serviço de Cristo onde vivemos, convidando a viver a fé em comunhão, se opondo ao individualismo e engajando-se em prol da justiça, da solidariedade e da vida digna a todas as pessoas, indiferente da etnia, cor, sexo e idade, porque esta é a nossa paixão.
Para refletir, leia Atos 1.6-9
Associação religiosa
Dr. Milton Laske
Associação é a reunião de pessoas, visando a um objetivo comum, quer seja de fins econômicos, filantrópicos, políticos, esportivos, culturais ou religiosos. Normalmente, essas associações se organizam como pessoas jurídicas para que possam ter vida jurídica dentro da sociedade organizada do país. Também Igrejas precisam cumprir essa exigência. Não é possível abrir e movimentar contas bancárias, ser proprietária de templos, etc., sem estar inscrito no CNPJ da Receita Federal, para o que é necessário um estatuto devidamente registrado em Cartório.
Na IECLB, pessoas, na condição de membros, se unem para formar uma Comunidade. Comunidades se associam para formar Paróquia e Paróquias e Comunidades, para formar um Sínodo. A IECLB é uma associação de Comunidades e dos membros a elas filiados (Constituição, art. 1º), mas estas não se denominam como associação, pois a lei lhes faculta que se organizem e estruturem com liberdade (Código Civil, art. 44, § 1º), pelo que são conhecidas como organizações religiosas.
Embora Lutero tenha sido contrário a um direito da Igreja, reconhecia a necessi- dade de uma Ordem da Igreja, por meio da organização de uma estrutura, com esta- tutos, regimentos, regulamentos e normas disciplinares, que entendia como instru- mentos necessários para convivência pacífica entre os membros da Comunidade.
Aliás, desde a Reforma, Igreja de confissão luterana é, antes e principalmente, a reunião, a convivência, a união dos crentes, isto é, a convivência associada, acolhedora, fraterna e solidária. Por isso, nas Comunidades da IECLB, ao lado do seu templo, é normal a existência do espaço comunitário para o exercício dessa convivência associada amorosa, que é desejada pelo próprio Deus.
Para refletir, leia o Salmo 133