No início do século XX, quase 100% dos brasileiros se diziam seguidores do Vaticano. Cem anos depois, o catolicismo segue como maioria absoluta, mas o maior país católico romano do mundo entrou mesmo na rota da diversidade religiosa da globalização. O escritor francês André Malraux profetizou: ´O século XXI será religioso ou não será´. No seu livro Procurando Deus no Brasil, John Burdick afirma que o ´modelo da religião única deixou de ser satisfatório. Ao fim de tudo, a constatação é de que religião, hoje, é um mercado livre. Do lado bom, tem a palavra livre e, do ruim, o mercado´.
Podemos observar que o ser humano tem se transformado em um ser cada vez mais isolado, individualista, egoísta, consumista e carente. O conceito de felicidade é a realização dos seus desejos e a satisfação dos seus anseios. Ouvir ´não´ é catastrófico. Em qualquer tipo de relação (comercial, afetiva ou religiosa), há a constante necessidade de buscar o esplendor e as fortes emoções, que precisam ser vibrantes e não podem deixar nenhum espaço para o silêncio e a contemplação. Tornamo-nos uma geração irrequieta e conquistadora de novas emoções, do novo. Por outro lado, por sermos submetidos às constantes mudanças, por não nos satisfazermos mais com o que temos, não amadurecemos emocionalmente.
Instabilidade, medo, insegurança e agressividade passam a fazer parte do perfil do ser humano. A arte da comunicação e do diálogo fica em segundo plano. Tudo isto também se manifesta na vida comunitária, no partilhar entre irmãos e irmãs, no testemunho, na proposta missionária e nas expectativas e ênfases pastorais da liderança da Igreja. Os modismos e achismos teológicos têm se tornado aliados e até incentivadores de um ser humano autossuficiente e individualista.
O Reformador Martim Lutero disse ´Fiz uma aliança com Deus: que Ele não me mande visões, sonhos, nem mesmo anjos. Estou satisfeito com o dom das Escrituras Sagradas, que me dão instrução abundante e tudo o que preciso conhecer tanto para esta vida quanto para o que há de vir´. Como Igreja herdeira da Reforma, buscamos viver em fidelidade ao Evangelho. Somente a Escritura Sagrada é a nossa fonte. Cristo é o centro, através de quem Deus manifestou a sua graça a ser acolhida pela fé.
Os escritos confessionais são os ´óculos´ que nos auxiliam a ver a verdade Bíblica e a interpretar corretamente o caminho do Senhor. Eles nos ajudam a entender que Deus nos aceita exclusivamente por amor, não por pagamento ou mérito de qualquer tipo. Tudo o que recebemos de Deus é gratuito. Parece ser este o escândalo do Evangelho. O ser humano acha que deve completar a graça ou então comprá-la com alguma boa obra ou bens materiais e quer substituir o amor de Deus pelo negócio. Isto é uma grande ofensa a Deus. O que dizer de filhos que querem ´comprar´ o amor dos pais? Deixam de ser filhos e passam a ser fregueses (P. em. Gottfried Brakemeier). A partir da Sagrada Escritura, precisamos deixar bem claro para as pessoas que os ensinamentos da Teologia da Prosperidade são contrários ao Evangelho, pois ferem a soberania de Deus quando afirmam que o ser humano ´determina´ que Deus o atenda e realize os seus desejos. Também são pecaminosos, pois estimulam o individualismo, a cobiça e a autossuficiência. A salvação/redenção passa a depender exclusivamente da qualidade e dos atributos do ser humano. Deus fez uma aliança com o ser humano (Hb 8.10). Ele nos conhece e sabe o que precisamos.
Enquanto as programações comunitárias acontecem uma ou duas vezes por semana, algumas quinzenais ou mensais, a pregação da Teologia da Prosperidade e todas as suas derivações é diária e constante. As ovelhas que o Senhor nos confiou têm contato direto com estes ensinos. Muitas vezes, os Ministros são questionados pelos membros por não fazerem os mesmos ´sinais poderosos´ dos ´pastores´ que aparecem na TV.
A pureza doutrinária e teológica somente é adquirida com o constante ensino, por isso é inadmissível que um líder da Igreja, um Presbítero, não participe de estudos bíblicos e dos cultos. O Presbitero é aquele que coopera na condução da vida fé da Comunidade. Se o Presbítero não estiver bem alimentado, do que ele se alimentará e para onde conduzirá?
Evangélicos: água ou vinho (João 2.3)?
Em 2000, a porcentagem de evangélicos no Brasil era de 15,4% (Sepal/2006). Caso a população continue crescendo na mesma proporção atual, projeta-se uma porcentagem de cerca de 51,4% da população evangélica em 2022, ou seja, aproximadamente 106 milhões de evangélicos para uma população de 207,1 milhões de pessoas. O que pode acontecer é que muitos elementos do que chamamos de neopentecostais poderão ser absorvidos pelos pentecostais e também pelos evangélicos de missão. Esse sincretismo evangélico deve desfigurar ainda mais a religiosidade evangélica brasileira. Assim sendo, usando este percentual, chegamos a 289.701 Igrejas em 2010 e ao incrível número de 575.402 Igrejas em 2022.
O que mudaria no Brasil com uma maioria evangélica? Hoje, o que temos é uma liderança despreparada em sua maioria, carente de direção na Teologia, Eclesiologia, Missiologia e com forte vocação para a Teologia da Prosperidade. Escândalos, dualidade entre ´vida religiosa´ e ´vida secular´, além de egoísmo e individualismo, externados também na vida religiosa, devem ser levados em consideração.
Embora parte do povo evangélico se preocupe com o próximo, outra parte, e poderíamos afirmar que trata-se da maioria, se preocupa apenas com o seu bem-estar. As Igrejas têm se tornado supermercados em promoção, onde se faz liquidação do Evangelho, buscando só vantagens materiais. Isso não provoca mudanças sociais, porque o mais importante é defender o que é seu.
É por esses fatores que, olhando mais a fundo, a religiosidade evangélica que há no momento não deve transformar a vida do povo brasileiro em sua estrutura, mas o atingirá apenas de maneira superficial, ou seja, grande possibilidade de ser apenas água (João 2.3).
P. Lauri Roberto Becker, formado em Teologia pela Faculdades EST, em São Leopoldo/RS. Atua como Pastor Sinodal do Sínodo Rio Paraná, com sede em Toledo/PR.